Conheça celebridades que destroem tabus por meio das redes

Uma geração de mulheres que assumiram um papel transgressor na maturidade e influenciam jovens a pensar em um mundo melhor e mais justo

Bastam alguns minutos correndo os olhos pelo Instagram e Facebook da atriz paulista Vera Holtz, 65 anos, para entender por que ela é importante para 2 milhões de seguidores, a maioria jovens.

Performática, a artista incita a audiência com a defesa de dias mais amenos e divertidos, usando uma linguagem contemporânea e contagiante. As imagens são acompanhadas de textos provocativos, sintonizados com a rua, a vida, os fatos de Brasília. Faz também pegadinhas. Simulando um black bloc atrás de explosivos, ela desmonta os assustados com a legenda “Folguedos de São João”.

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Folguedos de São João

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As mulheres não saem do seu radar. Vera intitulou “Neofeminismo plural” a foto das maçãs mordidas ao seu redor, e “Absorvendo igualdade”, aquela em que espeta o garfo no prato repleto de absorventes íntimos. Noutro quadro, aparece com funis nos seios nus, como se os ordenhasse – com a frase “Chorando o leite derramado”. E, mordaz, escreve “Reflexão em tempos desleais”, sob sua cabeça oferecida na bacia, como a do profeta João Batista, decepada a pedido de Salomé, que o detestava.

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NEOFEMINISMOPLURAL

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A legião que a ama chama Vera de diva, deusa, musa inspiradora. No perfil do Twitter, feito em homenagem a ela por um fã, as mesmas fotos ampliam as discussões, sobretudo quando aparecem frases como: “Hipocrisia não é o meu forte”, “Aprendam a ler opiniões contrárias às suas” ou “Querido homofóbico, os gays não vão voltar pro armário. O seu choro é livre, e eles também”.

Uma das postagens mais comentadas é o vídeo em que come fitas nas cores da bandeira gay. “Vão ter que engolir!”, acompanha a gravação. Ela recebe uma avalanche de ofensas chulas. Nos haters (os odientos), bate de volta cravando novas imagens hilárias. A lista de adoradores só cresce. “Viva Vera Holtz pela resistência e insistência em nos fazer pensar”, reage a seguidora Mariana Bittencourt, via Facebook.

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UNTITLED, 2017

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Para CLAUDIA, Vera explica que é “uma pessoa lúdica”; se apropriou das redes para se expressar como artista e não para ter sucesso. “Na TV isso já ocorreu”, afirma, referindo-se às novelas que faz na Globo. Sobre a veia politicamente irreverente, responde que “na sociedade contemporânea, em que as linguagens se encontram de forma híbrida, não é mais possível ser uma coisa só ou separar o artístico do político nem do religioso, social, antropológico e psicológico”.

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A atriz é do time que inovou em tudo. As mulheres que têm entre 50 e 70 anos levaram para a vida a tese, de 1949, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, de que não se nasce mulher, torna-se uma. Saíram de casa, estudaram e forçaram a porta do mercado de trabalho. Pressionaram pelo direito ao divórcio e à contracepção e demoliram a obrigação de casar. E gritaram “quem ama não mata” para denunciar a violência doméstica ignorada pela sociedade nos anos 1980. “Somos a geração que carrega a história das revoluções que nos antecederam, como lutas por direitos civis. Por que parar agora?”, pergunta a psicóloga mineira Bete Zuza.

Para ela, as influencers, que usam muito bem as redes para persuadir, atuam na transversalidade. A blogueira paulista Consuelo Blocker, 53 anos, por exemplo, não fala só de estilo, tema que a consagrou, mas de autoafirmação. “Os padrões, da beleza ao jeito de viver, são desafiados por modos diferentes de encarar as coisas”, declara.

Uma marca da ação delas, aponta Bete, refere-se ao pertencimento. Sentem-se parte de qualquer falange transitando por vias múltiplas, trocam ideias com adolescentes, participam das aflições atuais. Caíram os nichos.

A mentoria desse tipo de atitude – pensar em alguém além de si própria – pode ser localizada na designer Iris Apfel, 96 anos, que não se cansa das selfies com tietes. Atenta a tudo, extravagante, autêntica e com um Instagram esperto, se considera a adolescente mais velha do planeta. “Algumas pessoas dizem: ‘Oh, ela é velha’. Elas podem ser mais jovens, mas estão mortas do pescoço para cima. Quem quer ser assim? Eu não!”, afirmou ao inglês The Guardian.

Iris Apfel, 96 anos, designer, criadora de acessórios e linhas de cosméticos, atende uma fã na New York Fashion Week, em 2016. Sua irreverência e estilo exótico são admirados por mais de 800 mil seguidores em suas redes sociais. ”Mais é mais e menos é um tédio”, declara em sua autodescrição no Instagram

Iris Apfel, 96 anos, designer, criadora de acessórios e linhas de cosméticos, atende uma fã na New York Fashion Week, em 2016. Sua irreverência e estilo exótico são admirados por mais de 800 mil seguidores em suas redes sociais. ”Mais é mais e menos é um tédio”, declara em sua autodescrição no Instagram (GettyImages/Getty Images)

A cor da pele como discurso

O caleidoscópio de gêneros está, definitivamente, inserido na rotina dessas influencers, assim como o combate à misoginia, à xenofobia e ao racismo. Elas não se mantêm sob a sombra fresca da fama. As americanas Viola Davis, 52 anos, atriz, e Oprah Winfrey, 63, empresária e âncora de TV, atingem, somando seus seguidores nas redes, 25,5 milhões de pessoas. Usam a visibilidade para fortalecer mulheres de origem africana que, no mundo inteiro, são excluídas, postas no último lugar em qualquer fila.

Primeira negra a conquistar a tríplice coroa de atuação, título dado aos ganhadores de prêmios no cinema, no teatro e na TV (Oscar, Tony e Emmy), Viola declarou: “A única coisa que separa as mulheres de cor de qualquer outra é a oportunidade. Não se pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não estão disponíveis”. A frase de 2015 ecoa ainda.

Oprah é autora de centenas de afirmações que injetam coragem para trocar o papel de vítima por ousadia. “A imagem delas projeta os espaços de poder que outras negras podem ocupar’’, analisa Jurema Werneck, fundadora da ONG Criola. “A garota que vê uma artista à sua semelhança entende o cabelo e a cor da pele como discursos contundentes. Por definição, um movimento político refletindo suas lutas.”

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#TBT 📷:@latimes

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O ativismo em rede turbinou o alcance da professora universitária americana Angela Davis, 74 anos. Desde a prisão, em 1970, seu nome não era tão citado. É pop; quase como a mexicana Frida Kahlo, tem seu rosto estampado em camisetas, bolsas e broches. Na posse do presidente Trump, discursou para alertar que os 1 459 dias do governo dele seriam de resistência. Ela dá palestra no mundo todo. Na Bahia, em julho passado, deixou uma reflexão.

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde ela se encontra”, disse.

No entender da antropóloga paulista Mirian Goldenberg, “uma nova onda feminista se desenha e as autoras são as mulheres que inventam um jeito de viver a pós-maturidade”. Vai além a filósofa americana Judith Butler, 61 anos. Para ela, mulher é um termo em processo, um devir, um construir – sobre o qual não se pode dizer, com acerto, que tenha uma origem ou um fim. É isso. Estamos em construção eterna, e o projeto é só nosso.

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