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Denise Stoklos comemora 50 anos de carreira

Dramaturga, cientista social e jornalista, Denise Stoklos dirige, atua e escreve as próprias peças. Tanto talento resulta em gloriosos 50 anos de estrada

Por Anna Laura Moura 11 jun 2018, 07h30

Fui recebida já na porta do elevador por uma Denise Stoklos de sorriso largo e abraço carinhoso. Enquanto me conduzia a um dos sofás de sua casa – um loft no bairro paulistano de Vila Madalena, sem paredes entre os cômodos, com o ar entrando pelas enormes janelas de vidro –, compreendi que o lugar reflete a personalidade da dona. Expansivos, ambos têm a capacidade de fazer você se sentir confortável imediatamente.

Aos 67 anos, divorciada, mãe de Thais e Piatã, com 27 espetáculos e dois prêmios, está celebrando 50 anos de carreira como dramaturga e atriz. O espírito do teatro a arrebatou cedo, quando ainda morava em Irati (PR). Ela se lembra dos pais indo às peças da diva e comediante Dercy Gonçalves. “Minha mãe era uma verdadeira performer contando as histórias divertidas da família”, recorda, rindo.

Aos 18 anos, Denise, então estudante de ciências sociais e jornalismo, subiu ao palco em Curitiba, dirigiu e interpretou Círculo na Lua, Lama na Rua. “É um ditado para reforçar que qualquer ação tem consequências”, diz. “Vivíamos sob a ditadura militar, e o AI-5 tinha acabado de ser decretado, endurecendo ainda mais o regime. Eu quis me posicionar.” Na plateia, estava o diretor paranaense Oraci Gemba, que levou Denise para seu grupo. Deslanchou na via cênica e encerrou a carreira de jornalista por não gostar de rotina. “Tinha horário justo para entrar, sair… E minhas ideias eram grandiloquentes demais para aquele trabalho”, explica.

Denise colocou toda a energia no desenvolvimento de um método de dramaturgia, o teatro essencial, que adota o mínimo de efeitos e objetos em cena, deixando espaço para o ator usar seu corpo e sua voz na mais alta potência. “Queremos experimentar tudo, e não só esperar a hora de entrar no palco para dizer poucas coisas”, define.

Ganhou rapidamente a plateia com a intensidade de seus gestos largos e enfáticos e, em 1987, foi citada no The New York Times ao levar Mary Stuart para uma temporada em Nova York. “Com vontade de disseminar o processo, criei o primeiro curso online de teatro essencial”, conta. “O ator pode, ao mesmo tempo, dirigir, atuar e coordenar.”

Leekyung Kim/CLAUDIA

Na Band, em 1982, interpretou uma governanta revolucionária na novela Ninho da Serpente. “De dia, ela servia os patrões; à noite, pintava quadros. A personagem tinha a ver comigo; era crítica. Mas eu não me encaixava no ritmo da TV. O ator pode tentar de tudo, só não deve esquecer de voltar ao palco”, afirma. Sorte do Brasil que tem Denise cada vez mais vigorosa e expressiva em cena. Ela reinará absoluta até o dia 20 deste mês no tablado do Sesc Consolação, em São Paulo, com “Denise Stoklos em Extinção”.

O texto, baseado no livro de Thomas Bernhard, fala sobre eliminar o que é velho para que o novo possa surgir. “Quero mostrar que precisamos quebrar padrões. A começar pelo machismo”, aponta. “Sofri em alguns momentos. Ouvi de homens de teatro frases desanimadoras, que tentavam diminuir meu esforço. Mulheres têm que se unir e lutar contra isso.”

A artista não pensa em aposentadoria e vai até intensificar a jornada. Estreará este ano o Festival Internacional Denise Stoklos de Solo Performance. A primeira edição será em Irati, com workshops, palestras e espetáculos gratuitos. “Quando saí de lá, nem teatro tinha. Quero dividir com a cidade, que representa minha origem, a essência do ator, essa coisa de levar ao espectador algo que ele já conhece e que pertence à sua natureza.”

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