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Não sou herdeira. E agora?

O que nós, mortais, e quem já nasceu com garantias financeiras para não precisar se preocupar temos em comum?

Por Paola Carvalho, com oferecimento de BTG Pactual
11 dez 2023, 08h44

“Você se tornou inadequada para a empresa”, disse o chefe da minha qualificada, criativa, resiliente e experiente amiga. Ela sofreu. Doeu em mim também. Passou uma, talvez duas semanas, o impacto foi embora. Ficou um alívio, me disse. Marcamos um café, queria ouvi-la, agora presencialmente. Ela chegou: novo corte de cabelo, gata e, de fato, leve. Daí soltei uma ideia, talvez uma projeção do que eu desejaria fazer se eu estivesse em seu lugar: “Por que você não tira um sabático?”. Ela, contudo, franziu a testa de imediato. Foi então que, no segundo seguinte, eu emendei a frase, piorando aquilo que imaginei que a poderia deixar ainda mais empolgada.

“Um tempo para cuidar de você até fevereiro, quem sabe até o Carnaval pelo menos, sabe?” O café gelado que bebemos trouxe uma dose de lucidez instantânea. Eu pensei. Ela verbalizou: “Não sou herdeira. E agora?”. Rimos. Sim, nem ela nem eu havíamos nos aplicado ao cargo de herdeira. Era preciso trabalhar, sem ousar parar, porque essa não era uma escolha, mas sim a única alternativa, uma necessidade. Afinal, os boletos chegam, assim como os filhos crescem, e ninguém poderia inverter essas lógicas. Certas preocupações não passam pela cabeça de uma herdeira — ou um herdeiro, claro.

Muitas vezes não há nem cognição para tangibilizar a problemática. É uma “reflexão estranha”, como poderia repetir Virginia Woolf. Uma reflexão que deixa a herdeira incomodada e, quem não é herdeira, parecendo uma invejosa. Ambas sentem um vazio que não podem preencher, uma conversa que se tem em voz baixa.

Não há problema em nascer com a garantia de regalias para todo o sempre, amém. Quem mora na casa dos pais ou na casa bancada pelos pais, por exemplo, provavelmente discordará de mim nesse ponto: essa retaguarda inabalável pode, digamos, comprometer o pensamento crítico quando o assunto é dinheiro. Portanto, independentemente de você ser herdeira ou não, a autonomia financeira consciente dá, sim, poder à mulher. 

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Você ganha o suficiente para bancar o que precisa ou quer? Esse é o fantasma que qualquer mulher precisa matar, a pedra que precisa carregar. Existem exceções, eu sei. Não estou falando do 1% mais rico do mundo, que, segundo relatório da Oxfam, apresentado neste ano no Fórum Econômico Mundial, detém dois terços de toda a riqueza gerada no mundo de 2020 para cá.

Nem dos 2.640 bilionários existentes no mundo, dos quais 51 são brasileiros, sendo 6 mulheres, de acordo com a Forbes. Há os 99%, apontados pela filósofa feminista Nancy Fraser, que nos lembram que não podemos separar gênero de raça, classe, sexualidade, ecologia, democracia e políticas econômicas.

Entre os muitos atravessamentos, estou eu, a minha amiga e você. Vale atentar para as diferenças que coexistem na sociedade. Afinal de contas, o mundo experimentará, em duas décadas, a maior transferência de riqueza da história, segundo levantamento do banco suíço UBS. O estudo mostra que, apenas nos Estados Unidos, um total de US$ 84 trilhões deve passar para as gerações mais jovens.

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Esse estudo também apontou que quatro em cada dez herdeiros não têm um planejamento sucessório ou testamento atualizado e mais da metade dos ricos não compartilha informações básicas sobre a fortuna com os seus herdeiros.

Somos seres ambivalentes, tudo bem. Desejamos o conforto das herdeiras, mas também sentimos orgulho de não carregar esse título. Temos, entretanto, um aspecto que pode unir a todas: a necessidade de desenhar um planejamento financeiro e manter o controle. Quem deseja autonomia para tomar um café com a amiga e sonhar junto com ela? Eu levanto a mão.

Você ganha o suficiente para bancar o que precisa ou quer? Esse é o fantasma que qualquer mulher precisa matar, a pedra que precisa carregar

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