O pesadelo da brasileira que tentar voltar para casa no meio da pandemia

Angelita Marçal Flores fala da angústia de estar 'presa' na Indonésia sem previsão de sair do país

As férias no sudeste asiático foram programadas com entusiasmo. Paisagens de tirar o fôlego, cultura riquíssima, comidas exóticas… Um sonho para vários viajantes. Mas tudo mudou quando a pandemia do Covid-19 atingiu em cheio os planos da chef de cozinha Angelita Marçal Flores. Aos 50 anos, a brasileira, que viajava com uma amiga, viu todos os voos da Indonésia serem cancelados e não sabe mais quando vai conseguir retornar a Europa, onde trabalha na alta temporada. Assim como outros brasileiros presos no exterior, ela teme pelo que pode acontecer nas próximas semanas. “Com o prazo das acomodações prestes a acabar e hotéis e hostels fechando suas portas, os brasileiros não têm para onde ir. Estamos todos apavorados”. Em entrevista a CLAUDIA, Angelita conta o que viu nos últimos dias:

“Embarquei para a Ásia com uma amiga há um mês. Queríamos passear, nos divertir, mas tudo mudou. Chegamos pela Tailândia. Depois de alguns dias por lá, decidimos vir até a Indonésia. Deixei minha mala com uniforme e utensílios de cozinha em um luggage (empresas que armazenam bagagens) no aeroporto de Bangkok e embarcamos para Bali. Até aquele momento não se falava em quarentena por aqui.

Nos dias que se seguiram, a situação começou a piorar. Mais casos surgiram pelo continente. Até que no dia 21 de março, quando deveríamos voltar para Bangkok, todos os voos com origem na Indonésia foram cancelados, inclusive o nosso. Logo depois, a Tailândia fechou as fronteiras para estrangeiros, e acabamos presas em Bali.

Minha amiga, que estava com passagem de volta comprada para semana passada, viu dois voos para o Brasil serem cancelados. Mas, depois de muita insistência, ela conseguiu embarcar em uma das últimas aeronaves saindo de Jacarta e chegou ao Brasil no domingo.

Como eu tinha planos de viajar pelo sudeste asiático até o dia 28 de abril, decidi ficar, mas não sabia que as coisas poderiam se complicar tanto. Consegui reservar um lugar em um hostel, aqui em Bali, em um dos últimos lugares que ainda estão aceitando hóspedes. O problema é que eles não têm estrutura. O café da manhã são duas fatias de pão e uma xícara de café com leite. Só. Não oferecem nenhuma outra refeição. Então, para economizar mais e dar conta de me manter aqui o tempo que for necessário, comecei a buscar locais bem baratos e que tivessem cozinha para que eu pudesse comer em casa. Encontrei um quarto em uma casa com cozinha compartilhada. Me mudo para lá amanhã. Assim vou conseguir segurar a onda por enquanto.

A questão é não saber se vou conseguir retornar a Itália no final de abril. Sei como as coisas estão complicadas por lá. A verdade é que se eu não puder voltar para a Europa, quero pelo menos ir para o Brasil. Sair dessa situação. De qualquer jeito ainda tenho que buscar minha mala no aeroporto de Bangkok, o que dificulta tudo.

O mais complicado é estar sozinha aqui. Meu filho de 29 anos mora em São Paulo e está muito preocupado. Nos falamos todos os dias. Ele pede para que eu volte para o Brasil, mas não tem o que fazer. Estamos presos. Mas sei que não sou a única, outros brasileiros também estão passando por isso. 

A embaixada do Brasil sugeriu que eu entrasse em um grupo de Whatsapp que reúne brasileiros ‘presos’ na Indonésia. É um grupo com mais ou menos 20 pessoas e nenhuma delas consegue voltar para casa. Além delas, outros 170 brasileiros na Tailândia, 120 na Indonésia e várias outras pessoas em países como Laos e Camboja estão sem saber o que vai acontecer. 

Alguns estão em uma situação muito séria porque, além dos voos cancelados, estão com dificuldade financeira para se manter. A embaixada começou a fazer contato para dar apoio àqueles que estão com mais problemas, mas é algo temporário, apenas para alguns dias. Outros estão com o prazo de suas acomodações prestes a acabar e, como hotéis e hostels estão fechando suas portas, eles não têm para onde ir. Vão ficar na rua. Tem também o caso de alguns viajantes que tomam medicamento controlado e não têm mais remédio ou onde comprá-lo. É assustador. Estamos todos apavorados.

Nosso psicológico está muito afetado. Queremos voltar para o nosso país, estar em casa, no aconchego da família. Se o isolamento em casa já é difícil, imagina para quem também está isolado geograficamente.

Esta semana chegamos a ter uma esperança de conseguir voltar, quando um voo de uma companhia aérea brasileira trouxe um grupo de indonésios que estava em São Paulo para Bali. Nós entramos em contato com a embaixada pedindo que pudéssemos embarcar no retorno desse voo e pedir repatriação, já que é um avião de empresa brasileira. Mas a companhia alegou que o voo fará uma escala na África do Sul, antes de viajar para o Brasil, então, a prioridade é dos clientes deles em Joanesburgo. Era uma grande esperança, mas parece que nada vai acontecer. E, apesar do que foi dito pelo governo brasileiro, funcionários da embaixada alegam que estão com recursos limitados para ajudar. A repatriação, então, não tem nem previsão de ocorrer.

Queremos que as companhias aéreas compreendam este momento. Algumas até fizeram realocações em voos, mas outras simplesmente abandonaram os clientes. São pessoas que, no desespero, compraram outras passagens para tentar voltar para suas casas, gastando todo o limite do cartão de crédito, e mesmo assim não conseguem embarcar porque os voos estão todos cancelados. Isso é um apelo ao governo brasileiro e às companhias para que não nos deixem na mão. Precisamos de informações claras. Incerteza e angústia: é o que estamos vivendo”.

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