Congelamento de óvulos atrai mulheres cada vez mais jovens

Para muitas, a motivação é adiar a maternidade em favor da carreira. Mas seria o procedimento mais uma fonte de pressão?

Para muitas mulheres, a imagem que vem à mente, ao pensar na diminuição natural da reserva de óvulos, é a da areia escoando em uma ampulheta e esvaziando um dos lados. Afinal, foi assim que aprendemos a encarar nossa capacidade de gestar, como se tivéssemos que correr para engravidar antes que fosse tarde demais. A biologia explica, em parte, essa lógica. Nossa produção de óvulos começa antes do nascimento, ainda no útero da mãe, quando atinge o maior patamar, com cerca de 10 milhões. O número diminui drasticamente ao longo da vida. Chega a cerca de 500 mil na puberdade e, conforme nos aproximamos dos 30, ainda cai pela metade. O processo cessa ao entrarmos na menopausa.

Essa narrativa é velha conhecida das mulheres. A questão é que, nas últimas décadas, o mundo passou por mudanças comportamentais significativas e, em nossa sociedade, ter filhos deixou de ser uma decisão óbvia aos 20 e poucos anos. Escolher ser mãe ou não passou a ser tema para depois dos 30, com mais maturidade. Em apenas dez anos, entre 2005 e 2015, a proporção de mulheres que se tornaram mães dos 30 aos 39 saltou de 22% para 30% do total, de acordo com o IBGE, tendência que continua desde então.

Embora as mudanças comportamentais tenham impulsionado esse desejo, a ciência é a grande responsável por, digamos, burlar o prognóstico de que seria impossível adiar a gravidez para além dos 35. Procedimentos de inseminação artificial e fertilização in vitro são comuns desde os anos 1990, mas, recentemente, vem chamando a atenção o aumento da procura feminina pelo congelamento de óvulos, que deixou de ser experimental em 2012.

A grande diferença entre os métodos de reprodução assistida e o congelamento é que este não se destina às mulheres que já optaram por uma gravidez. O seu principal público são aquelas que querem adiar a decisão da maternidade – seja porque não encontraram um parceiro ou parceira para dividir a experiência, seja porque desejam priorizar a carreira por um período. Não há números oficiais sobre o volume desses procedimentos realizados no Brasil, apenas de congelamento de embriões (formados pela fertilização dos óvulos por espermatozoides), que aumentou de 32,2 mil em 2012 para 88,8 mil em 2018, conforme dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões, da Anvisa.

“Obviamente, a busca por congelamento de óvulos é superior, principalmente por quem não tem planos a curto prazo – pessoas com mais pressa optam pelo congelamento de embrião”, afirma Carlos Petta, coordenador médico do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital Sírio-Libanês, que, no período de 2018 a 2019, registrou o aumento de 15% no número de preservação de óvulos.

Essa é, atualmente, a alternativa prioritária para as mulheres, pois elas podem usar o óvulo no momento em que julgarem adequado, com o parceiro escolhido ou até mesmo usando sêmen de um doador. A experiência da roteirista Carol Tilkian, 35 anos, é semelhante à de grande parte das que procuram a técnica. Carol sempre quis ser mãe, mas esperava estar em um relacionamento estável para engravidar e nunca cogitou a possibilidade de uma produção independente. Ao final de uma relação longa, ela passou a se sentir intimidada a retomar o que é considerado o “caminho natural da vida”, ou seja, arrumar outro parceiro e então ter filhos. “Antes da pressão para ser mãe, existe a pressão para namorar e casar. Depois que terminei, eu ouvia que estava perdendo tempo porque ‘os melhores homens já estavam comprometidos’”, conta.

Há dois anos, o pai de Carol sugeriu que ela congelasse óvulos. “A princípio, fiquei muito ofendida, pensei que ele queria dizer que eu estava ficando velha”, lembra ela, que foi orientada pelo médico a fazer o procedimento. Além disso, na época, Carol não estava menstruando, resultado de uma possível alteração hormonal, e os especialistas consideraram que aquilo poderia afetar sua fertilidade no futuro. “Desejava que a possibilidade de engravidar mais velha deixasse de ser uma questão. Hoje, é uma preocupação a menos”, afirma Carol.

Outra justificativa que tem ganhado terreno é o desejo de conquistar estabilidade financeira e ascender na carreira antes de encarar a maternidade. Mesmo em um relacionamento sério há anos, a jornalista Nathália Prósperi, 33, não sabe quando será possível encaixar uma gravidez na rotina corrida de trabalho, que inclui viagens quase semanais. “Há um ano, resolvi congelar após ouvir de algumas amigas que aquele era o momento certo para isso, antes que eu ficasse velha demais. Levei em conta que estava priorizando o lado profissional e querendo garantir certa tranquilidade quanto a meu relógio biológico”, justifica. Entretanto, na hora da coleta, o médico conseguiu apenas dois óvulos. “Fiquei muito frustrada. Se eu soubesse que haveria a possibilidade de não conseguir tantos óvulos bons, não teria feito”, afirma Nathália.

 (Getty Images/CLAUDIA)

Carreira refrigerada

Inevitavelmente, ter filhos significa repensar prioridades e desacelerar em alguns setores – a começar pelo trabalho. Isso é especialmente verdadeiro para as mulheres. Parcela significativa da desigualdade salarial entre homens e mulheres altamente escolarizados (faixa em que o desnivelamento na remuneração aumenta) nasce da expectativa de que elas, ao atingirem certa idade, formarão família e, com isso, terão menos interesse e disponibilidade para se dedicar à carreira. Logo que saem da universidade e entram no mercado de trabalho, homens e mulheres estão no mesmo patamar de remuneração; com o tempo, perto dos 30 anos, elas passam a ganhar menos. Tendem a ser menos promovidas e a se ausentar do mercado por períodos mais longos, conforme concluíram estudos publicados em 2017 pela American Economic Review e pela National Bureau of Economic Research. De acordo com as pesquisas, que levaram em conta a realidade americana, mulheres com ensino superior ganham o equivalente a 90% dos salários de seus pares homens aos 25 anos; proporção que vai caindo até que, aos 45 anos, atinge 55%. Para diluir essa diferença, uma das políticas que companhias nos Estados Unidos e na Europa, principalmente do setor de tecnologia, começaram a adotar é o congelamento de óvulos como benefício às funcionárias. A ideia é que elas tenham mais flexibilidade para decidir se e quando serão mães. Para as empresas, é uma garantia a mais de retê-las.

No Brasil, a prática ainda é incomum – inclusive em multinacionais. Em seu escritório local, o LinkedIn oferece, desde o início de 2019, tanto congelamento de óvulos quanto de esperma, além de inseminação e fertilização para os funcionários ou seus parceiros. “O principal objetivo é fomentar a igualdade de gênero, mas também se estende para o bem-estar de famílias homoafetivas que não conseguiriam engravidar”, explica Alexandre Ullmann, diretor de recursos humanos para América Latina. O benefício veio em bom momento para Luciene Nascimento Souza, 34 anos, gerente de contas do LinkedIn. A maternidade sempre foi uma vontade, mas não é prioridade neste bom momento da carreira. “Pela empresa, temos direito a três procedimentos, mas resolvi parar no segundo ciclo e guardar essa oportunidade para uma possível fertilização no futuro”, explica ela, que pôde ainda escolher um médico da confiança dela com os custos cobertos pela empresa.

Para Mary Ann Mason, professora da Universidade da Califórnia, coautora do livro Babies of Technology: Assisted Reproduction and the Rights of the Child (Bebês da tecnologia: reprodução assistida e direitos das crianças, em tradução livre), o benefício não é perfeito. “A longo prazo, acaba sendo mais vantajoso para as empresas do que para as mulheres, que ficam inseguras de mudar de emprego se ainda não tiverem feito a fertilização. Mais interessante como política de igualdade de gênero é implementar licença parental mais completa”, diz. Também nos Estados Unidos há startups, como a nova-iorquina Kindbody, oferecendo o serviço com comodidade e preços mais baixos. As redes sociais transformaram-se em uma ferramenta para essas empresas atingirem as mulheres com anúncios sobre a necessidade de congelar óvulos cada vez mais cedo. A perspectiva de “quanto mais jovem, melhor” para a realização do procedimento deve ser vista com parcimônia. Afinal, de nada adianta essa suposta liberdade de escolha se ela se tornar uma nova imposição.

 (Getty Images/CLAUDIA)

Questão de saúde

Boa parte dos congelamentos realizados no Brasil – cerca de metade deles no Hospital Sírio-Libanês, por exemplo – são de mulheres com câncer. “Ainda não suficientemente divulgado a elas, o procedimento é indicado para preservar os óvulos dos efeitos da quimioterapia, que é capaz de reduzir drasticamente a contagem”, explica Hitomi Nakagawa, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA). O sistema público não cobre o congelamento, mas há iniciativas que oferecem de graça para pacientes com câncer – é o caso do Hospital Pérola Byington, em São Paulo. Pacientes submetidas à radioterapia e a alguns tratamentos para doenças autoimunes também têm indicação de congelamento, já que eles impactam o saudável funcionamento dos ovários.

A possibilidade de ter ou não filhos só se tornou uma preocupação para a publicitária Amanda Sadi, 31 anos, após o diagnóstico de teratoma (espécie de de tumor benigno) no ovário e endometriose, condições que, se agravadas, poderiam comprometer sua fertilidade. Os médicos, então, recomendaram que ela congelasse óvulos como um plano B, caso um dia decidisse ser mãe. Para ela, que fez o procedimento em 2018, os 12 dias de injeções hormonais foram bastante estressantes. “Talvez porque eu não tivesse um motivo palpável – já que não penso em ter filhos –, o período pareceu interminável”, conta. Os sintomas se assemelhavam aos de uma TPM potencializada: dores, inchaço, muita instabilidade emocional, espinhas no rosto. Amanda diz que não valeu a pena. Virou apenas mais uma obrigação imposta às mulheres na pressão para ter filhos.

Como funciona?

O passo a passo do procedimento e os custos para prolongar a fertilidade

O processo para o congelamento de óvulos se popularizou, mas ainda é bastante caro. A principal razão é que os medicamentos de estímulo hormonal para a liberação de óvulos são importados e, por isso, custosos para as pacientes. Um ciclo de injeções, que se estende, em média, por dez dias a partir da menstruação, custa por volta de 15 mil reais. Em seguida, os folículos são coletados pelo médico com o auxílio de um transdutor com uma agulha – o procedimento requer anestesia. Às vezes, é necessário mais de um ciclo para formar a reserva recomendada, de ao menos 12 óvulos, o que não significa que uma mulher que tenha obtido menos óvulos não será capaz de engravidar. Embora a idade indicada para a coleta seja até 35 anos, dá para realizá-la mais tarde e com possibilidade de sucesso. “As chances de engravidar serão proporcionais à idade dos óvulos, pois o útero não envelhece”, explica a ginecologista Karina Tafner, da Santa Casa de São Paulo, que, depois de engravidar com óvulos congelados, conseguiu realizar um novo ciclo aos 37 anos. A manutenção do congelamento custa cerca de mil reais por ano; e uma fertilização in vitro, 20 mil reais.

 

 

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