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A quarentena revela a desigualdade na divisão das tarefas em casa

O engenheiro e influenciador Thiago Queiroz reflete sobre equidade nas tarefas domésticas após adotar novos hábitos durante a quarentena

Por Isabella D'Ercole - Atualizado em 7 Maio 2020, 15h08 - Publicado em 4 Maio 2020, 08h30

Sim, estamos todos em casa. E talvez só agora muita gente entenda quanta energia envolve cuidar de um lar. Mais importante: lembre-se de que essa responsabilidade não é só feminina. O engenheiro, influenciador digital e escritor Thiago Queiroz espalha a palavra equidade entre seus leitores e alerta para a sobrecarga das mulheres após ele mesmo adotar novos hábitos

 

Chegou em uma dessas mensagens que invadem nossos celulares sem pedir permissão. Quem enviou achou que era uma piada. No desenho, o sujeito dizia que o período de isolamento precisava acabar porque ele não aguentava mais a esposa lhe dando tarefas. Lavar a louça, passar uma vassoura, tirar a roupa do varal. Nada anormal. Eu, mulher, não ri. Acredito que só cativa quem não entendeu ainda que tarefa doméstica não é obrigação feminina. E, se tem uma coisa que o distanciamento social exaltou, é disparidade de gênero dentro de casa. “A postagem que eu vi sugeria que os homens finalmente vão compreender que ficar em casa com os filhos não é ficar sem fazer nada”, conta o engenheiro e criador de conteúdo digital Thiago Queiroz, mais conhecido nas redes pelo nome de seu blog e canal, Paizinho, Vírgula!. Em textos, vídeos e podcasts, o carioca de 37 anos aborda a criação dos filhos com afeto. Já faz quase uma década que começou o projeto, quando descobriu que seria pai de Dante, 7 anos. Depois ainda viriam Gael, 5, e Maya, 1 ano. Thiago fala para uma audiência desafiadora. Há quem chegue até ele bastante, digamos, cru, buscando orientação nos primeiros passos para construir a própria paternidade e, consequentemente, uma relação de família com todos os envolvidos. Já que estamos confinados, essa conversa se tornou ainda mais fundamental. “Venho insistindo muito na questão do machismo. Se eles acham que está difícil ficar em casa com a mulher passando tarefa, precisam perceber que, provavelmente, é ela quem está sobrecarregada de ter que pedir sempre”, esclarece. O escritor afirma que hoje há mais abertura masculina para fazer reflexões desse tipo. “De verdade, tenho visto homens acordando. Sou esperançoso, acho que a urgência desse despertar vai ficar cada vez mais evidente. Essa é a oportunidade de entender quais são as necessidades em casa, o que é se dedicar em tempo integral aos filhos”, afirma.

Thiago com a companheira, Anne Brumana, e a pequena Maya Carolina Ferreira/CLAUDIA

Ele fala com propriedade porque também está vivendo a experiência. A empresa em que Thiago trabalha como engenheiro instituiu o home office e depois reduziu a carga horária. Então ele adotou novas tarefas. “A funcionária que nos ajuda com a limpeza duas vezes por semana não está vindo, óbvio. E os meninos ficam em casa o dia todo. A Anne não conseguiria e nem deveria acumular tudo”, diz, referindo-se à companheira, a artista plástica Anne Brumana. De manhã, a rotina lembra bastante a da pré-pandemia. Ele sai da cama e deixa Anne descansar mais um tempo com a pequena Maya. Acorda os garotos, auxilia na troca de roupa e na higiene, serve o café da manhã. Aproveita para lavar a louça que sobrou do dia anterior. Na hora do almoço, participa do preparo e também cuida dos pratos. À tarde, quando encerra o trabalho dele, fica responsável por entreter os pequenos. “Acabou sendo uma divisão mais equânime do que antes. Criamos um combinado que é assim: viu que está sujo e pode dar um jeito? Manda ver. É bom para os meninos me verem limpando. Assim, eles já associam que essa tarefa é de todo mundo, não das mulheres. Aliás, nem os dois escapam ultimamente. Dou aspirador na mão deles, peço para passar um pano se derrubam algo, para guardar a roupa limpa. É uma baita oportunidade de ensiná-los”, comenta. E ressalta, rindo: “Levando em consideração que não vai ficar perfeito, claro. Tem que dar um tapinha depois”.

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A família reunida em um momento de entretenimento dos pequenos. “Eles também estão se esforçando para dar certo”, afirma Thiago Carolina Ferreira/CLAUDIA

A criação que Thiago teve não foi nada parecida com essa. Foi aprendendo a cozinhar e limpar a casa mais velho, conforme a vida pedia. Depois que Anne engravidou, ele decidiu que queria inventar uma paternidade diferente da referência que tinha. “A figura que eu conhecia era do pai provedor, que coloca comida na mesa, não desenvolve laço afetivo e ainda faz a criança chorar. Li muito para fugir disso e descobri a criação com afeto. Entendi que dava pra educar sem punir. Fiquei tão encantado com o assunto que quis compartilhar minhas percepções e criei o blog. Quando eu vi, tinha mais gente interessada e foi crescendo”, lembra.

A gravidez de Gael representou outro momento emblemático para o carioca. “É um vai ou racha”, define o escritor. “Ali ficou evidente que a Anne não podia acumular mais nada. Absorvi, por exemplo, a função de pôr o Dante pra dormir. A primeira coisa que fiz? Coloquei meu filho num sling. Esse é um erro clássico dos pais. Tentar emular a mãe pra ver se o resultado é o mesmo. Claro que deu errado. Demorou umas duas semanas, que é uma eternidade pra quem não consegue dormir direito, até a gente se ajustar, e assim é a rotina até hoje. Eu sou o responsável pela hora do sono”, relata Thiago. A distribuição de incumbências se deu naturalmente, sem colocar nada no papel e com alguns acertos no caminho, mas nem sempre acontece desse jeito. Para o influenciador, o primeiro passo é o homem se dispor a realmente olhar para a casa. Ver todas as tarefas que existem e perceber a carga sobre a mulher. “Não há um método único; senão teríamos um problema a menos no mundo. Mas acho que ajuda manter um diálogo empático para que nenhum dos lados se sinta atacado”, diz. Ele cita um exercício em que cada um coloca numa lista todas as coisas que precisa fazer, desde pagar a conta de luz até passar roupa. Depois, um mostra para o outro a sua lista para que ambos tenham consciência da carga individual. “A partir daí, dá para aliviar quem está com mais peso, caso exista discrepância”, conclui.

Dante e Gael Carolina Ferreira/CLAUDIA

Responsabilidade afetiva

As duas semanas de adaptação de sono com Dante parecem fichinha em meio à pandemia atual. Durante a quarentena, um dos garotos tentou dar uma cambalhota na rede e machucou o braço. O outro usou o sofá de obstáculo num campeonato de saltos. Pai e mãe respiram fundo. Pergunto para Thiago qual o sonho dele pra quando isso acabar, e a resposta revela a saudade da liberdade – e de um pouco de silêncio. “Quero ir até a pracinha, deixá-los soltos e ficar com a Anne num banco só olhando”, responde bem-humorado. Atualmente, depois que os meninos dormem e antes que a Maya possivelmente acorde, no meio da madrugada, é o horário dos adultos. “É quando a gente consegue ter uma conversa só entre nós”, explica. Também é o momento do reset mental, de restaurar as forças para o dia seguinte. Afinal, a rotina em casa não é nada fácil – e Thiago avisou seus leitores sobre isso. “A gente vai se irritar mais, dormir com a casa bagunçada. Não vamos conseguir acompanhar as aulas de nossos filhos online. É impossível dar conta de tudo. E tudo bem. É preciso certa dose de autocompaixão, além de empatia com as crianças. Elas não podem correr no pátio da escola e gastar energia, também estão se esforçando para fazer dar certo”, justifica. De novo, é o diálogo – dessa vez com os pequenos – o segredo do bom funcionamento na casa dos Queiroz. Quando a escola interrompeu as aulas, Thiago e Anne sentaram com os meninos para explicar o que estava acontecendo. Falaram que ficar em casa era uma maneira de proteger outras pessoas, mas evitaram usar termos ou dados que causassem medo. Veem que os garotos estão tranquilos, só ociosos e ansiosos pela volta às aulas. “Eles têm uma inteligência emocional muito superior à que tínhamos na idade deles. Entendem com clareza a situação e expõem sentimentos sem medo ou vergonha”, conta o carioca. Outro dia, Dante se declarou entediado e expressou o desejo da maioria de nós: “Quero que isso acabe logo”. O pai, em vez de dar uma resposta que encerrasse a conversa (já que não há muitas perspectivas), escolheu seguir por uma via mais compreensiva. “Eu disse que entendia, que podia imaginar como é difícil pra ele não ver os amigos todos os dias. Ele se sentiu acolhido. Essa relação íntima que temos facilita a vida no isolamento. Se eles não falassem tão abertamente, com certeza estaríamos lidando com mais birra”, completa, citando o maior pesadelo dos pais hoje.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva

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