Escritora Eve Rodsky cria método para dividir tarefas domésticas

Depois de uma crise conjugal, ela entrou numa cruzada para resolver a divisão de tarefas entre casais, problema que destrói relacionamentos há décadas

Você já deve ter ouvido falar de casamentos que entraram em crise por causa de traição, falta de amor ou dificuldades financeiras. Mas aposto que nunca soube de um divórcio motivado por mirtilos! Uma mensagem de texto sobre a fruta foi a gota d’água para a escritora americana Eve Rodsky, 42 anos. Na correria de um dia comum, ela estava com os dois filhos no carro, a caminho da escola do mais velho, aproveitando cada sinal vermelho para revisar um relatório de trabalho – na época, era advogada e mediadora de conflitos para grandes corporações –, quando leu na tela do celular: “Estou surpreso que você não tenha comprado mirtilos”. A mensagem era de Seth, o marido dela. “Estacionei o carro e comecei a chorar”, lembra Eve, num papo exclusivo com CLAUDIA. Naquele momento, ela questionou como sua vida tinha chegado àquele ponto. Era uma mulher com educação feminista e se orgulhava de ter um casamento que, até então, pensava ser igualitário. De repente, Eve se viu sufocada na típica encruzilhada da mulher moderna, tentando equilibrar carreira, maternidade, casamento e administração do lar. E sentindo que estava falhando miseravelmente.

A história lhe parece familiar? Você não está sozinha. Algumas atrizes de Hollywood, como Reese Witherspoon e Busy Philipps, se identificaram com a situação que Eve relata logo no começo do livro Tudo Eu? O Método Fair Play para Divisão das Tarefas Domésticas (BestSeller), previsto para ser lançado no Brasil em março. Aliás, foi no perfil do Instagram de Reese que esta repórter descobriu o livro. Na época, era a escolha do clube de leitura que a atriz organiza com suas seguidoras.

O tema me intrigou, logo baixei uma versão digital e li em 24 horas. Também me identifiquei. Não é segredo que as mulheres heterossexuais geralmente assumem mais tarefas domésticas do que seus parceiros. Tenho percebido que a gente até consegue driblar essa realidade quando ainda é só o casal – os reflexos do feminismo nos fizeram conquistar essa independência, amém. Mas, quando os filhos entram em cena, a situação se complica. Um estudo divulgado pelo IBGE em maio do ano passado revelou que, no Brasil, as mulheres que trabalham fora se dedicam às obrigações domésticas, em média, 8,2 horas a mais por semana que os homens na mesma situação.

Voltando para Eve, ao se deparar com essa crise, ela entrou numa cruzada para mudar esse arranjo malfeito. Começou reunindo em uma lista todos os afazeres de casa que ocupavam sua vida – e a deixavam estressada. Compartilhou o documento com suas amigas, que complementaram a planilha. No final, eram mais de mil tarefas executadas por mães e esposas. Pensa que o trabalho estava pronto? Nada disso! Eve enviou o compilado ao marido e recebeu uma resposta pouco animadora: aquele emoji de macaco cobrindo olhos.

Para uma verdadeira divisão equitativa do trabalho doméstico, ela precisaria fazer mais. Depois de sete anos de pesquisas e entrevistas, Eve elaborou um sistema de gerenciamento do lar usando cartões de tarefas, que descreve no livro. Ela aplicou a estratégia em sua vida com louvor. Uns bons anos após a crise dos mirtilos, Eve e Seth tiveram mais uma filha (Anna, hoje com 4 anos, completa o trio formado por Zach, 11, e Ben, 8) e comemoram 15 anos de união. Com a fé em seu casamento renovada, partilhou o caminho do sucesso com outros casais. Tem dado certo. Em outubro, Fair Play chegou à consagrada lista dos mais vendidos do The New York Times. Eve divide um pouco do seu conhecimento a seguir.

 (Divulgação/Divulgação)

CLAUDIA: Não é de hoje que homens e mulheres enfrentam problemas na divisão de tarefas em casa. Será que seu livro vai, finalmente, solucionar a questão?

Eve: Espero que sim! Quando percebi a crise no meu casamento, fui ler tudo o que você possa imaginar sobre o tema: dezenas de livros, mais de 750 artigos e estudos. Não encontrei soluções. O mais perto foram sugestões de greve, divórcio ou coisas absurdas do tipo: “Mude-se para um país onde só seu marido saiba o idioma. Assim, ele terá que preencher os formulários da escola e resolver mais burocracias (risos)”. Encontrar uma alternativa mais viável virou minha missão de vida.

Você acreditava que seu casamento fosse igualitário. Mas, depois de ter filhos, se viu sobrecarregada. Penso que muitas mulheres vão se identificar com você. Por que acha que isso acontece?

Até começar a ler artigos sobre o tema, pensei que era só comigo. Só que não. Depois de ter filhos, nós, mulheres, assumimos o trabalho extra sem nem questionar, pois a sociedade nos condiciona. Descobri vários termos para isso: carga mental, segunda jornada, trabalho invisível… Este último foi o que realmente me pegou. Como alguém pode valorizar o que não vê? O cerne da questão é que o tempo é medido de maneira diferente entre os sexos. O tempo deles é finito. O nosso, infinito. Seja no Brasil, seja nos Estados Unidos, o tempo das mulheres vale menos do que o dos homens.

Mesmo não concordando, fomos criadas numa sociedade com essa crença.

Exatamente! E essa é só uma das mentiras que nos prendem. Outra é que mulheres são multitarefa. Quer saber? Conversei com os maiores neurocientistas do mundo. Não há nenhuma evidência científica a respeito. Um disse uma frase que me marcou: “Imagine convencer metade da população de que ela é melhor em limpar bunda de criança e lavar a louça”. Quem tira vantagem disso? Os homens. As mulheres com quem conversei também falavam: “No tempo que ele vai levar para aprender, eu mesma faço”.

Esse é um pensamento de curto prazo. Se pensar a longo prazo, investe em ensinar agora para não precisar fazer no futuro. Finalmente, outro argumento que ouvi foi: “Nós dois somos diretores, médicos, executivos, mas ele está sobrecarregado, e eu consigo encontrar tempo”. Bom, a menos que sejamos um novo Albert Einstein e saibamos como driblar o conceito de tempo-espaço, é impossível. Nós, mulheres, apenas temos menos escolha sobre como usar nosso tempo.

Depois dessa descoberta, você se dedicou em tornar visível o tal trabalho invísivel. Mas Seth não foi tão receptivo quanto você esperava. Mesmo assim, você não desistiu. Por quê?

Fiquei muito chateada quando percebi que, de tão obcecada com a lista, levei várias mulheres nessa, e não era o conselho certo. Virou uma lista de reclamações, não de soluções. Num primeiro momento, a frustração era tamanha que pensei em desistir e assumir tudo.

 

O problema é que, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos, o tempo da mulher vale menos do que
o dos homens.

Eve Rodsky

O que seria ir contra o que você mesma acreditava?

Sou feminista de nascimento. Fui levada à minha primeira passeata por igualdade de direitos aos 15 meses. Sou advogada e mediadora de conflitos formada por Harvard. Por que não estava conseguindo usar minhas habilidades para conversar com meu parceiro? Então, veio o clique. E se eu usar meus dez anos de experiência na criação de sistemas organizacionais em empresas nos relacionamentos? Tinha certeza de que alguém já havia feito esse paralelo e criado um sistema de gestão organizacional para o lar. Mas não achei nada, acredita? Aí eu me empolguei novamente! Logo cheguei ao modelo do jogo de cartas, que permite ter conversas difíceis de maneira divertida.

Como uma mulher pode indicar esse livro para o marido ler sem que o cara se sinta ameaçado, acuado?

O livro foi escrito, obviamente, pela perspectiva de uma mulher, mas se tornou minha carta de amor aos homens. A quantidade deles lendo é surpreendente. Recebo centenas de e-mails de homens que querem se apropriar de seu papel em casa. Não teve um só relato em que o homem procurou se esquivar. O que pode dar errado é usar apenas como uma lista. Pegar as cartas e dividir: um lava a louça, o outro leva o lixo. Não vai funcionar. Tem que investir o tempo em aprender a se comunicar, e a utilizar as técnicas de negociação e conversação.

Há uma história que eu amo de como você e o Seth resolveram a questão do lixo.

Sim, eu ficava louca com o acúmulo de lixo em casa. Isso me remete à minha infância humilde. Tínhamos problemas com baratas e apenas uma lata de lixo. Seth, durante a faculdade, morou em uma república em que acumular dez caixas de pizza era normal. Quando sentamos para conversar sobre o assunto, ele disse: “Obrigado por compartilhar essa história. Obviamente, não me importo tanto quanto você. Mas entendo por que acha importante. Portanto, se conseguirmos algo razoável, ficarei feliz em pegar a carta de lixo”. O combinado foi que ele levaria o lixo todo os dias, às 19 horas, desde que eu nunca cobrasse isso novamente. É o padrão mínimo de qualidade sobre o qual falo no livro. Todo artigo que eu lia dizia que as mulheres deveriam baixar seus padrões. Acho isso terrível. Não vou baixar meus padrões. Diminuir padrões é diminuir as mulheres. Criar um meio-termo razoável para ambos é a melhor saída.

Muitas vezes levamos nossos relacionamentos no piloto automático e estouramos nos momentos errados. Mas nunca é só sobre o lixo.

No final das contas, não se trata de mirtilos ou lixo, mas de confiança. O livro fornece as ferramentas para a primeira conversa, que pode durar de 20 a 40 minutos. Algumas mulheres me diziam: “Não quero falar por 40 minutos sobre essas questões”. Eu pegava o celular delas e mostrava quanto tempo por dia elas passavam no Instagram ou no Facebook. O que é mais importante? Ficar nas redes sociais ou investir em seu casamento? Sim, essas são conversas difíceis. Mas o Fair Play as torna mais divertidas. Só que você tem que parar e dizer o que está acontecendo. Por que o fato de o lixo não estar sendo tirado faz você sentir tanta raiva? Poxa, é seu marido, seu parceiro mais íntimo. O Seth agora é muito versado em falar sobre valores. É outro cara desde o dia dos mirtilos. E isso é muito empoderador.

Você acha que o seu livro é feminista?

Olha, algumas feministas mais radicais vão questionar por que é responsabilidade das mulheres iniciar essas conversas, e não dos homens. O que eu digo a elas é: “Boa sorte”. Você estará esperando mais 100 anos por uma mudança. Eu foquei em criar alternativas. Isso exige que eu chegue ao ponto de me dar o direito de fazer a mudança. O movimento feminista dos anos 1960 tratou de muitas coisas importantes, igualdade político-social e econômica, mas esqueceu de falar sobre tempo de qualidade. Eu acredito que, para haver uma mudança social, todos nós temos que acreditar que o tempo é criado da mesma forma para homens e mulheres. Esse é o meu feminismo.

 

 

Assista ao Senta lá, CLAUDIA sobre carga mental: