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Centenário de Clarice Lispector: autora se mantém relevante e best seller

Clarice Lispector é a autora mais versátil da cultura nacional. Agrada à academia e acumulou uma legião de fãs que compartilha trechos de sua obra

Por Juliana Faddul Atualizado em 21 nov 2020, 19h57 - Publicado em 22 nov 2020, 11h00

Em abril de 1946, desembarcava no Cairo uma jovem de 26 anos. Sua passagem pelo Egito seria breve, de apenas dois dias, já que o destino final era a Itália. Mas, apesar de avessa ao turismo, encontrou tempo para encarar um grande símbolo misterioso e místico produzido pelo homem, a Esfinge de Gizé.

Em carta escrita às irmãs, Elisa e Tania, escreveu: “E junto da esfinge leram minha sorte na areia do deserto… E não disseram nada. O maometano disse que eu tinha ‘white heart’, coração puro… O que eu tenho na verdade é um coração pequeno, onde já não cabem coisas, tão cheio de amor guardado ele é”. Após Édipo, que, em um mito grego, encara e derrota a esfinge ao responder a um enigma, quem mais seria astuto o bastante para fazê-lo? Ou melhor, quem poderia propor à própria esfinge um enigma? Somente Clarice Lispector.

No dia 10 de dezembro, completa-se o centenário da autora. Nascida na Ucrânia, ela veio com a família para o Brasil ainda criança de colo. Cursou faculdade de direito e trabalhou como jornalista, mas foi a literatura que fez seu nome rodar o mundo.

Em sua única entrevista televisiva, à TV Cultura, em 1977, Clarice afirmou nunca ter assumido a carreira de escritora. “Eu não sou uma profissional, só escrevo quando quero. Eu sou um amador e faço questão de continuar sendo amador. Profissional é quem tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.”

Clarice casou-se com um diplomata e teve dois filhos. “Quando ela se separou, viveu um período mais difícil economicamente e aceitou um trabalho como advogada no Jornal do Brasil. Poderia concluir alguns processos que já haviam sido iniciados, só tinha que validar os documentos. ‘Eu não gosto de ficar só assinando, gostaria de trabalhar’, dizia. Ela estava profundamente revoltada porque não queria ter o salário e ficar como observadora. Era uma pessoa que queria participar sempre”, conta a artista plástica Maria Bonomi.

As duas se conheceram em Washington, em 1959, quando Maria foi convidada para um jantar na Casa Branca durante a presidência do republicano Dwight D. Eisenhower. “Eu era apenas uma estudante latino-americana que havia ganho uma bolsa de estudos. Não tinha uma roupa à altura do evento. Então fui à embaixada perguntar se alguém poderia me emprestar um vestido. Deram-me o telefone de Clarice porque tínhamos o mesmo tamanho”, lembra.

Maria acabou tomando emprestados não só o vestido como também um colar e os sapatos. Viraram comadres. Clarice foi madrinha do filho de Maria; e Maria inspirou uma personagem de seus livros, a artista plástica de Água Viva (Rocco, 1973).

“Meu amigo, há entre Maria Bonomi e eu um tipo de relação extremamente confortador e bem lubrificado. Ela é eu e eu é ela e de novo ela é eu. Como se fôssemos gêmeas de vida”, escreveu Clarice para o Jornal do Brasil, em 1971. “Entre o corriqueiro e o extraordinário, ela levantava todas as questões. Vivenciava tudo, sabia de tudo. Era um leque tão infinito que não existe pessoa hoje que me ofereça percepções tão interessantes”, diz Maria.

As obras claricianas são notadas justamente pelo aspecto introspectivo, em que conceitos complexos emergem de alguma situação banal, do cotidiano, e são talhados por um texto simples, que leva à reflexão de temas existencialistas.

“Uma mulher discreta, com tom de voz baixo. Embora tivesse muitos amigos, ela não era extrovertida. Seus livros retratam bem seu jeito de ser; era muito observadora”, define a biógrafa Teresa Montero, autora de Eu Sou uma Pergunta – Uma Biografia de Clarice Lispector (Rocco, 1999) e O Rio de Clarice (Autêntica, 2018). “Clarice não estava procurando um caminho fácil, não pretendia publicar e ser famosa. A literatura era uma busca dela mesma como ser humano. É por isso que ela consegue extrair uma coisa não banal, que vai sempre muito além do superficial. Acho que esse mistério todos nós temos, é o próprio mistério da vida.”

A Descoberta do Mundo

“Ela avançou muito o relógio da literatura no mundo. Está ao lado dos grandes, como Kafka e Virginia Woolf. Para ela, foi ruim ter ficado no Brasil porque o país não correspondeu como deveria”, diz Maria. Já o mundo a recebeu de braços abertos. Segundo levantamento de Nádia Gotlib, a primeira biógrafa de Clarice, a autora teve 185 livros traduzidos desde 1950.

Clarice, Uma Vida Que Se Conta (Ática, 1995; depois relançado pela Edusp em 2013) é fruto do trabalho de um grupo de pesquisa de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), que rendeu também Clarice Fotobiografia (Edusp/Imprensa Oficial, 2008), organizado por Nádia, e Correio Feminino (Rocco, 2006), de Aparecida Maria Nunes, do mesmo grupo.

Como biografar uma mulher cujo mote era o mistério? Tal qual um arqueólogo, foram pincelando documentos, momentos, relatos, descrições. “Clarice era econômica em fornecer informação e mentia muito”, explica Nádia. “Ela não gostava de revelar a idade, o que nos dificultou traçar a cronologia da vida com a obra dela. Levamos um tempão até descobrir que ela diminuía em cinco anos a própria idade. Encontramos até documentos com a data de nascimento rasurada.”

Fotos Antonio Andrade, Dedoc Abril/Ilustração/Getty Images

Nádia, professora da USP desde 1970, aponta que os anos 1980 foram cruciais para a popularização da obra clariciana. A adaptação de A Hora da Estrela para o cinema ganhou o Festival de Berlim em 1985 e foi escolhida para concorrer ao Oscar como melhor filme estrangeiro.

O resumo da trama, que condensado em duas linhas não contempla a vastidão da obra, narra a história da alagoana Macabéa, que migra para o Rio de Janeiro para trabalhar como datilógrafa. Marcélia Cartaxo, que interpretou a protagonista, ganhou o Urso de Prata pela atuação. “Esse filme deu à obra de Clarice outro rumo. Levou a vida dela para além do meio editorial”, diz Teresa.

Para não ser acusado de deixar de fora alguma camada de A Paixão Segundo G.H., o diretor de cinema Luiz Fernando Carvalho realizou com toda a equipe oficinas teóricas sobre o livro, que tem previsão de lançamento para o próximo ano. O time está evitando usar o termo “adaptação”, pois, para o diretor, adaptar pressupõe reduzir a obra para fazer caber. Por isso, estão chamando de leitura cinematográfica ou transcriação.

O longa narra a história de G.H., uma mulher de classe média alta que, após a demissão de sua empregada doméstica, Janair, mergulha em um autoquestionamento ao limpar o quarto dos fundos de seu apartamento. “Deixamos o texto intacto. Nenhuma palavra foi tirada ou adicionada. A roteirização que, na verdade, é o roteiro-livro, é uma resposta pessoal e criativa às coordenadas do livro”, afirma a roteirista Melina Dalboni.

“Há muitos enigmas no texto, camadas que devem ser escavadas como uma arqueologia das palavras, buscando cada fio de memória, de reflexão, de história”, diz Melina, que documentou todo o processo preparatório e transformará o material em livro, que também deve ser lançado em 2021.

Intérprete de G.H., Maria Fernanda Cândido conta que a relação dela com Luiz Fernando Carvalho e a obra já tem quase duas décadas. “Eu tinha uns 29 anos quando li o livro pela primeira vez. Na época, Luiz Fernando não falou nem do desejo de trabalhar com o livro nem do que tratava a história. Só disse: ‘Leia’. E foi um acontecimento na minha vida.”

Anos depois, a dupla gravou um quadro para o Fantástico, da TV Globo, com textos da autora publicados no Correio Feminino. “Achei que tínhamos mudado a rota até ele me ligar em 2017 contando que o filme iria acontecer e queria que eu fosse a G.H. Perguntei: ‘Como?’. Como filmar o infilmável? Foi muito diferente de tudo que já fizemos juntos. Não tem como se aproximar de um livro como esse, de uma autora como essa e sair desse processo impunemente. Posso dizer que não voltarei a ser a mesma.”

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Felicidade clandestina

Não há eufemismos quando se trata de Clarice. A intensidade, somada à personalidade misteriosa, foi o combo necessário para aguçar a curiosidade do público. Segundo levantamento exclusivo do Google Trends para CLAUDIA, são de Clarice as frases literárias mais buscadas atualmente no Google no Brasil – por isso encontram-se tantas legendas no Instagram e memes com aspas dela.

Os claricianos (como são denominados os estudiosos e fãs de sua obra) são unânimes em citar a Rocco como agente catalisador na disseminação de trechos de Clarice, especialmente a partir dos anos 2010. A editora, que detém os direitos autorais de toda a obra dela desde 1998, traçou um esquema de marketing pesado para a reedição de alguns livros, entre outras homenagens.

Para isso, soltou nas redes sociais fragmentos das obras como petisco para fisgar os leitores. “Naquela época, ainda vivíamos a era dourada dos blogs, que integravam pessoas que gostavam de ler e escrever – elas conheciam Clarice. Nada parecido com essa segunda onda, a dos influenciadores, que só querem postar uma foto sensual com alguma legenda profunda”, diz Alexandre Inagaki, consultor de redes sociais. “Caio Fernando de Abreu e Clarice Lispector tornaram-se os autores best-sellers de textos que nunca escreveram.”

Durante algum tempo, foi meme atribuir à autora frases coloquiais, como “A vida é loka” ou “Se der ame; se não der, derrame”. Mas em 2015 essa brincadeira ganhou outra proporção, fazendo com que o nome de Clarice migrasse dos cadernos de cultura para o noticiário político. O então recém-eleito governador da Bahia, Rui Costa (PT), em seu discurso de posse, proclamou: “Sonhe com aquilo que você quer ser porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer”.

Ele não citou o nome do autor; disse apenas que um amigo tinha enviado. Na mesma época, porém, uma imagem com o texto, uma foto de Clarice e seu nome escrito à mão havia sido incessantemente compartilhada na internet. O governador tinha citado um meme. Ou melhor, uma fake news. O episódio acendeu o alerta sobre a importância da checagem. Mais uma vez, Clarice estava à frente do seu tempo.

 

“Clarice, assim como os bons filósofos, nos confronta com muito mais perguntas do que respostas, convidando-nos a refletir acerca do sentido profundo da existência”

Pedro Karp Vasquez, editor responsável pelas obras de Clarice

 

Por causa do ocorrido, a estratégia da Rocco acabou dividindo opiniões entre os claricianos. Há quem se exalte defendendo a honra literária da artista, bradando que essa reprodutibilidade técnica (isso sem entrar no quesito das frases falsas) banaliza seu legado, transformando-o em autoajuda barata. Outros acham graça e alegam que é uma forma de o nome de Clarice crescer cada vez mais.

Fato é que Clarice é uma gigante na literatura e no comércio. Segundo levantamento do site Estante Virtual, que reúne um catálogo de 2,7 mil livreiros do Brasil, ela está entre os dez autores mais vendidos. De janeiro a outubro deste ano, foram comercializados mais de 8,6 mil exemplares da sua obra, crescimento de 44% em relação ao ano anterior. O título mais procurado é A Hora da Estrela, seguido por Laços de Família e Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.

A Rocco não divulga números, mas segundo Bruno Zolotar, diretor de vendas e marketing, ela é a segunda autora da casa que mais vende, perdendo apenas para J.K. Rowling, da série Harry Potter. “Clarice Lispector é, sem dúvida, fundamental para a editora tanto em relação a prestígio literário quanto comercialmente – a obra dela apresenta constante crescimento. O recém-lançado Todas as Cartas (de que faz parte o fragmento da história da esfinge que abre esta reportagem) já teve metade da tiragem vendida em menos de um mês”, afirma Bruno.

Para o centenário, a Rocco lança toda a obra de Clarice com novo projeto gráfico e posfácios inéditos. A Hora da Estrela, campeão de vendas também na editora, ganha um texto do filho de Clarice, o escritor e economista Paulo Gurgel Valente, que, assim como a mãe, é avesso a entrevistas.

Mas, afinal, o que faz Clarice ser tão atual? Pedro Karp Vasquez, editor responsável pelas obras dela desde 2004, é categórico: “Isso se deve à universalidade atemporal de sua temática principal, os desafios e as perplexidades da condição humana. Clarice, assim como os bons filósofos, nos confronta com muito mais perguntas do que respostas, convidando-nos a refletir acerca do sentido profundo da existência e não nos oferecendo receitas infalíveis de sucesso e felicidade”.

O poeta Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do Instituto Moreira Salles, vai além. Para ele, a atemporalidade da escritora está em sua onipresença. “A Clarice vem ao mundo como uma potência das coisas. E as coisas são banais. É a geladeira, o supermercado, o Uber que você pega. Todo o significado e toda a sensação que você tem é Clarice”, conta o idealizador do projeto Hora de Clarice e curador da mostra Constelação Clarice, ao lado de Verônica Stigger, prevista para julho de 2021. Ele se lembra da primeira vez em que leu Água Viva. “Pensei que ia morrer naquele instante. Eu fiquei muito impactado, e esse sentimento me acompanhou por um tempo. Imediatamente após a leitura, eu senti amor. Como era amor, eu não precisava entender.”

A Maçã no Escuro

Além da poesia, da psicologia, da sociologia e da literatura, Clarice procurava respostas também nas ciências ocultas, como astrologia, cartomancia, futurologia, I Ching e o que lhe parecesse interessante. Não é de surpreender que muitas pessoas entrevistadas aqui contem histórias de coincidências ou coisas do destino.

Fotos Antonio Andrade, Dedoc Abril/Ilustração/Getty Images

“Estávamos voltando da Colômbia, de um congresso de escritores em Cali, quando o avião começou a subir e descer. Eu detesto aviões e fiquei apavorada. Clarice, se não me engano, estava fumando ou fazendo algo que demonstrava uma calma extrema. Chegou até mim e disse: ‘A minha cartomante avisou que eu morrrerrrei dormindo, não em uma trrrragédia’ ”, relembra a autora Lygia Fagundes Telles, imitando o “r” forte, característico da voz de Clarice – culpa da língua presa, não de um possível resquício do sotaque ucraniano.

Fato é que Clarice Lispector morreu no dia 9 de dezembro de 1977, na cama de um hospital público no Rio de Janeiro, vítima de um câncer no ovário aos 56 anos. Lygia completa 98 anos em abril de 2021 – e não tem previsão alguma de viajar de avião.

A atriz Zezé Motta sempre morou em Ipanema. Seu último apartamento no bairro tinha uma das vistas mais privilegiadas do Rio de Janeiro, a Lagoa Rodrigo de Freitas. Porém, por causa de questões burocráticas, como IPTU e outras siglas, decidiu se mudar para o Leme. “Quando entrei neste apartamento, falei: ‘É aqui’. Disse para o corretor não mostrar para mais ninguém. Tinha sentido na hora uma felicidade e a sensação de estar completa”, relembra. Foi na saída que ela se deparou com a placa: “Aqui morou Clarice Lispector de 1966 a 1977”. Atualmente, Zezé dorme no mesmo cômodo que Clarice dormiu, mas não na mesma cama, como gosta de pontuar.

Para se preparar para viver G.H., Maria Fernanda Cândido precisava reler A Paixão Segundo G.H., mas não encontrava o livro, aquele que havia ganho de Luiz Fernando Carvalho quase duas décadas antes. “Eu tinha feito anotações nele sobre minhas impressões naquela época que poderia usar”, diz. Revirou estantes, armários, cantos e quinas onde os livros mais miúdos às vezes se escondem.

Desistiu, comprou uma nova edição e fez outras anotações. Um dia, em casa, quando a filmagem estava chegando ao fim, ouviu um barulho ensurdecedor no meio da noite. “A prateleira com meus livros de arte e fotografia desabara. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar ali, no topo de todos eles, A Paixão Segundo G.H.?” A saída, segundo a atriz, foi fazer um cotejo entre os dois livros num ritual introspectivo, comparando a leitora de 29 anos com a de 46.

“Ela adorava essas histórias. Olha, eu tive um convívio muito profundo com Clarice e às vezes a gente fazia indagações sobre questões misteriosas. As pessoas hoje em dia não veem mais conexão com nada, tendem a fugir da realidade, de si mesmas e da própria vida. Isso é muito triste”, diz Maria Bonomi.

Nessa constante tentativa de buscar sentido e significado para o que estamos vivendo, chega a ser curioso pensar que, no ano de celebração do centenário da escritora mais introspectiva da literatura brasileira, o isolamento social seja uma determinação imposta por instituições sanitárias. Talvez agora as pessoas possam começar a enxergar o verdadeiro sentido na mais corriqueira ação, como ao encontrar uma barata ao arrumar um quarto ou olhar para os dois lados quando for atravessar uma rua. Ou em simplesmente existir.

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