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‘Brincando com Fogo’ faz a gente sentir saudade de ‘Casamento às Cegas’

O novo reality show da Netflix está gerando audiência, mas deixa bastante a desejar.

Por Júlia Warken - 24 abr 2020, 19h25

“Brincando com Fogo” – ou “To Hot to Handle” no título original – é o mais novo reality show da Netflix e ele tem dado o que falar. Em tempos de quarentena, é de se esperar que atrações do tipo façam sucesso, já que o confinamento é uma realidade e muita gente acaba buscando por conteúdos leves – de pesado já basta o noticiário, não é mesmo?

A Netflix vem investindo mais do que nunca nos reality shows. Depois de comprar os direitos do britânico “The Circle” e anunciar três versões do programa – a americana, a brasileira e a francesa – a plataforma de streaming viu “Casamento às Cegas” virar um fenômeno global. Agora, a nova aposta da plataforma é um outro reality focado em relacionamentos, mas com uma pegada bem diferente.

Na esteira de sucessos como “De Férias com o Ex”, as emissoras de TV e os serviços de streaming já entenderam que dá audiência colocar dentro de uma casa um bando de pessoas que estejam dentro dos padrões estéticos e que gostem (muito) de pegação, exibicionismo e barracos.

Extrapolando todos os limites, a Amazon Prime Video lançou recentemente “Soltos em Floripa”, um reality com sexo explícito que já foi parar na Justiça. Isso porque o programa conta com “figurantes”, ou seja, pessoas que não fazem parte do elenco fixo, mas visitam a casa quando são convidados pelos participantes do reality. Essas visitas acontecem depois de baladas e, quando há sexo, as cenas vão ar. Há relatos de que a exibição explícita não estava clara no contrato de uso de imagem e que os figurantes assinam o documento quando estão alcoolizados. Frente à polêmica, algumas cenas já foram tiradas do ar.

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Perto de “Soltos em Floripa”, “Brincando com Fogo” parece coisa de criança. Mas isso não é um ponto negativo, pois mesmo quem se sujeita a entrar num reality de pegação tem o direito de não concordar com cenas de sexo explícito. E mais: um programa desse tipo pode oferecer entretenimento de sobra sem ter que apelar para (tanta) baixaria.

“Soltos em Floripa”: cenas de sexo explícito tiveram que ser tiradas do ar Amazon Prime Video/Divulgação

No Twitter é muito fácil encontrar gente comparando os dois realities e dizendo que o da Netflix perde pontos por não mostrar sexo, mas esse não é ponto debatido aqui. “Brincando com Fogo” falha por outros motivos e comete o pecado mais crucial desse tipo de programa: uma avalanche de situações falsamente espontâneas.

É justo dizer que, em se tratando de espontaneidade, nunca podemos “confiar” em reality shows, mas tudo tem limites, não é mesmo? E mais do que fazer a gente acreditar que o que acontece no programa é de verdade, um reality desse tipo precisa ter uma história boa o suficiente para que o expectador fique ansioso por saber o que virá a seguir. “Casamento às Cegas” brilha nesse quesito, mas “Brincando com Fogo” não.

O novo reality da Netflix começa como qualquer outro do gênero, com pessoas bonitas confinadas em um lugar propício para o uso de pouca roupa. Ao serem apresentadas, o expectador descobre que todas têm algo em comum: gostam (muito) de sexo e torcem o nariz para comprometimento amoroso.

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Quando chegam ao reality, elas acreditam que a pegação está mais do que liberada, mas acabam surpreendidos pela notícia de que ninguém pode sequer beijar na boca. A ideia é fazer com que eles criem conexões verdadeiras e se apaixonem de verdade. E há um prêmio de 100 mil dólares em jogo. Cada vez que a regra “de castidade” é quebrada, o prêmio diminui – um beijo vale 3 mil dólares e quanto mais grave for a infração, maior é o prejuízo.

“Brincando com Fogo”: o universo paralelo onde beijos mornos valem 3 mil dólares Netflix/Divulgação

Ao saberem das regras, os participantes ficam chocados e excessivamente preocupados, duvidando da própria capacidade de resistir às tentações. Tudo é exagerado demais, mas é engraçado ver o quão absurdas são as reações de desespero. E não demora muito para que as normas comecem a ser quebradas.

O programa prende de início, pois a gente acaba querendo saber o quão absurdas serão as situações retratadas. Mas o sentimento começa com “caramba, não acredito que eles fizeram isso” e logo passa para “ai, sério esse beijinho mixuruca vale mais de 15 mil reais, amiga?”. Com o passar dos episódios, vai ficando cada vez mais difícil de acreditar que os confinados quebram as regras por conta própria e não porque a produção mexe os pauzinhos para que isso aconteça. Mas, ao final, se todos “se comportassem” o programa seria basicamente um compilado de cenas de mulheres fazendo chapinha, um cara malhando sem parar, pessoas tomando banho de sol, homens dizendo que transam todo dia e meia dúzia de workshops enfadonhos que visam o autoconhecimento dos participantes.

Outro ponto fraco é que há muita gente desinteressante – as famosas “plantas” – fazendo coisas desinteressantes em “Brincando com Fogo”. Boa parte do elenco só serve para esboçar uma cara de espanto quando os casais quebram as regras. Paralelo a isso, os conflitos entre os confinados nunca chegam a empolgar de verdade. No início há um plot absurdo envolvendo duas mulheres e um homem, mas “a treta” se resolve com rapidez.

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“Plantas”, banhos de sol, homens que supostamente transam todo dia e workshops enfadonhos Netflix/Divulgação

Nem o próprio programa parece interessado em seus personagens. Na edição, alguém teve a brilhante ideia de inserir um monte de imagens de iguanas entre um acontecimento morno e outro. Em paralelo, a narradora faz várias piadas depreciativas em relação ao elenco – e elas são engraçadas de início, mas acabam cansando.

A Netflix está investindo em reality shows mais do que nunca e mostra que ainda tem fôlego para diversificar o catálogo. O problema é que, quando o foco é a quantidade, a qualidade pode deixar a desejar. Resta torcer para que a plataforma consiga lançar outros programas que não sejam tão esquecíveis quanto “Brincando com Fogo”.

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