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Casamento às Cegas: o reality show que é um divisor de águas na Netflix

Absurdo e cheio de drama, o programa virou febre ao redor do mundo.

Por Júlia Warken - Atualizado em 9 abr 2020, 10h15 - Publicado em 3 mar 2020, 12h51

Sem grandes alardes, a Netflix conseguiu emplacar um fenômeno improvável: “Casamento às Cegas” – ou “Love is Blind”, no título original. Nos últimos dias, o reality show se tornou a atração mais comentada do serviço de streaming.

Trata-se de um programa que parte da seguinte premissa: num mundo em que os aplicativos de paquera nos fazem ter interesse pela imagem antes da personalidade, que tal inverter as coisas? Sendo assim, homens e mulheres conversam entre si e não podem se ver – nem mesmo por foto. Um ouve a voz do outro, mas isso é tudo. Será que o amor é cego a ponto de duas pessoas se apaixonarem desse jeito?

Bom, não parece assim tão impossível, mas há um fator muito maluco nessa história toda: se você ficar a fim de alguém com quem conversou, só poderá vê-lo ao vivo depois do noivado. Ou seja, a moral da história é que aconteçam pedidos de casamento às cegas e não apenas uma paixãozinha fugaz. Um dia depois de noivar, o casal pode finalmente se encontrar e, na sequência, eles viajam juntinho para um resort no litoral do México. O próximo passo é morar junto por algumas semanas e conhecer os sogros. O casamento acontecerá depois disso e as pessoas podem desistir se quiserem.

A fase do bate-papo dura dez dias. Se nesse meio tempo o match não acontecer, os solteiros dão adeus ao programa. Da primeiríssima sessão de conversa até o casamento são apenas 37 dias.

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Divisor de águas

O fenômeno de “Casamento às Cegas” representa um marco na Netflix: trata-se do primeiro reality show não roteirizado da empresa a tornar-se um fenômeno. Pois é, ninguém sabe o quão não roteirizado é “Casamento às Cegas”, mas o programa se enquadra nesse nicho específico – sendo fake ou não. A priori, roteirizados – ou estruturados – são programas como “Queer Eye”, por exemplo – que é o maior sucesso da Netflix em se tratando de reality shows.

Provavelmente, nem a Netflix contava com o sucesso de “Casamento às Cegas”. Lançado meses atrás, o reality “The Circle” já ganhou uma versão brasileira e uma francesa depois da americana. Aqui, o programa será apresentado por ninguém menos do que Giovanna Ewbank e estreia no dia 11 de março – apenas dois meses depois de o americano ser lançado. Apostando alto em “The Circle”, a Netflix já havia anunciado as três versões do reality antes mesmo de o americano ir ao ar. Originalmente, essa série foi criada pelo Channel 4 da Inglaterra, mas a Netflix comprou os direitos do programa para lançar versões de outros países.

Em contrapartida, não há qualquer indício de que “Casamento às Cegas” terá versões internacionais e a segunda temporada ainda não foi confirmada. Mesmo assim, o sucesso da produção deve render mais episódios inéditos no futuro.

Também vale dizer que “Casamento às Cegas” segue um esquema de exibição que a Netflix já havia testado através de “The Circle” – e que funcionou bem. Os episódios são lançados em blocos.

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No dia 13 de fevereiro foram disponibilizados cinco episódios e outros quatro chegaram ao catálogo no dia 20. A final só pôde ser assistida em 27 de fevereiro e no dia 5 de março haverá um episódio com a reunião dos participantes. Essa estratégia é inteligente, pois permite maratonas parciais. Assim, o espectador consegue se envolver rapidamente com a trama, mas fica com um gostinho de quero mais.

Fábrica de casamentos na TV

“Casamento às Cegas” é o resultado de uma parceria entre a Netflix e a produtora Kinetic Content, que também criou o reality “Married at First Sight”. Esse segundo não é muito conhecido aqui no Brasil, mas faz um enorme sucesso no exterior. Lançado originalmente na Dinamarca, “Married at First Sight” tem versões em outros 13 países, incluindo Estados Unidos, Austrália, Alemanha e Israel. 

Os dois realities tem propostas semelhantes, mas formatos bem diferentes. Em “Married at First Sight” especialistas em relacionamento realizam casamentos arranjados de acordo com as características de quem está buscando um cônjuge. Assim, o casal se conhece apenas no dia do casamento e o programa mostra o desenrolar do relacionamento após a troca de alianças. Cada casal convive por cerca de dois meses e, depois desse período, ambos decidem se querem continuar casados ou não.

Real ou fake?

Em “Casamento às Cegas” os participantes têm mais controle sobre a permanência no programa. Diversos participantes não chegam à segunda fase, pois o match simplesmente não aconteceu na etapa de bate-papo. Isso dá um tempero a mais no reality, pois é bem maluco ver casais noivando depois de apenas cinco ou seis dias de conversa. Quem em sã consciência faria isso?

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A coisa toda é tão improvável que levanta fortes suspeitas a respeito da veracidade dos enlaces. A produção de “Casamento às Cegas” obviamente jura que é tudo real e que, inclusive, havia a preocupação de que nenhum casal se formaria ao longo da primeira fase. Especulações à parte, tendo em vista que a Kinetic Content tem know how em realities de casamento arranjado, a gente dá um pouco de crédito a mais.

Mas o trunfo de “Casamento às Cegas” é o fato de que ele prende o espectador justamente pelo absurdo da situação. Quando o primeiro noivado acontece, parece algo inacreditável e, na sequência, outros casais vão se formando. Intrigas e muito drama também apimentam a narrativa e há um ponto em que você já não quer mais saber se é tudo verdade ou uma grande encenação, você simplesmente quer ver o que virá a seguir.

Há quem diga que “Casamento às Cegas” nos faz refletir sobre o ato de se relacionar amorosamente e sobre as inseguranças e anseios que permeiam as nossas relações amorosas. Talvez isso seja um pouco de exagero. Mas, ao final, o que o reality entrega é o bom e velho entretenimento pelo entretenimento, sem a necessidade de camadas profundas. E não há nada de errado em se divertir com isso.

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