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Dani Moraes

Dani Moraes é escritora, jornalista e especialista em escrita terapêutica
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Quando o amor é silêncio

Diante do imponderável, me vi tentando lidar outra vez com sentimentos profundos de perda e desapego

Por Dani Moraes
Atualizado em 12 set 2022, 10h50 - Publicado em 10 set 2022, 08h00

Faz dez anos que perdi minha mãe e há algumas semanas se foi também minha tia. Ela era a minha pessoa favorita, e ocupou em mim o território raro do amor incondicional. Diante do imponderável, me vi tentando lidar outra vez com sentimentos profundos de perda e desapego. Foi preciso… Não, foi imprescindível. Foi também necessário me recolher ao limite do possível. Sem pretensão de organizar as ideias num fluxo criativo compreensível, atravessei em silêncio uma lunação completa ou mais.

Pareceu imperativo calar e sustentar a tentativa de entender o todo pelo nada, seguindo um empenho vocacional de não estacionar na mediocridade de um amontoados de acasos. Ao contrário. Escolhi crer num tipo de conspiração superior, inalcançável, capaz de tensionar e modelar esse barro mole que em tantas ocasiões parecemos ser – sujeitos que somos às temperaturas, delicadezas e vontades do torno universal.

A Lua, astro que rege as emoções, me atravessou durante a sua temporada intensa no signo de Câncer. E o período fez jus ao que se esperava dele, servindo à vontade menu completo com emoção de entrada, acompanhado de drama bem passado, e arrematado com sobremesa de sensibilidade à moda da casa.

A simbologia traduz o sabor de saudade agridoce, mal começada e já maior do que razoável. A consciência de um vazio que alcança o peito e vira taquicardia, quando as circunstâncias da vida pisoteiam o coração. A falta bruta como memória inventada, rascunho de dor, dejavú programado.

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Raiz de sentimento que se embrenha na solidão e na ausência. Sentimento, por sua vez, idealizado na trilha idílica de um afeto, nem romântico nem fraterno, por onde o amor em estado de esperança segue uma jornada suave, com garantia de fé e pés firmes a atravessar desertos ou tempestades.

Algo que, por natureza, pertence a outros e profundos estágios de evolução. Algo que, neste aqui e agora, matéria densa que também chamamos de vida, não possui recursos possíveis para operar sob tamanha sutileza. E é justamente isso que sobra no adeus. A memória sutil de um estado de consciência elevado ou o esforço do aparelho psíquico desejoso de sentido. Não sei ao certo. Ainda me vejo em estado de desejo disforme, habitada pelo vazio.

É possível que para cada um esse vácuo tenha um nome, um rosto, uma temperatura, uma razão de ser, um cheiro, mas é também provável que seja igualmente intangível. Mas é certo também que, vez por outra, falte indiscriminadamente um colo manso para repousar as incertezas, descalçar os sapatos gastos e fechar os olhos, sem sobressaltos. Uma morada de paz e serenidade capaz de afastar os passos ansiosos.

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Pouco a pouco, parece clarear o entendimento de que um tempo “assim delicado” só se faz possível se criado no próprio coração, em ambiente de cultivo de amor interno, semeado em lugares de olhar com gentileza para nós mesmas, como seres sós por essência, mas em modus operandi de aprendizado coletivo.

Abandono por desejo a ilusão da separação e aceito o novo convite da Lua. Ela só quer agora ser observada. Talvez ainda esteja a minguar pela despedida, talvez precise cerrar os olhos à sombra do Sol. Pode ser que logo esteja pronta para ressurgir, até preencher o céu de luz cheia de alma. Na minha falta silente, a Lua me tira para dançar. Aceito ser conduzida por ela na cadência noturna da minha saudade numa coreografia entre os passos invisíveis do amor.

 

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