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Em CLAUDIA, assina agora assina a coluna semanal Travessia Travessia Dani Moraes é escritora, jornalista e especialista em escrita terapêutica

À sombra da Lua cheia

O que resistiria de nós após o fim das demandas?

Por Dani Moraes 24 Maio 2022, 12h42

Minha querida clone, bom dia! Acordei atrasada, depois de desligar duas vezes o despertador, num pulo ao ver que já passava de seis e meia. Quase esqueci de tomar o comprimido em jejum. Precisei de quatro ou cinco visitas ao quarto das crianças para tirá-las também atrasadas (e mal-humoradas) da cama. A pequena cismou com a calça do colégio. A mais velha fingiu que escovou os dentes, fingi que acreditei. Tudo certo. 

Semana pós-eclipse no eixo touro-escorpião. Dizem que pega mais para quem tem esses signos no mapa. Só penso nisso. Fui ouvindo notícias no trajeto entre casa e escola. A coleção de catástrofes para um dia que mal começou sempre me assusta. Em menos de dez minutos, informações sobre dois atiradores que agiram nos Estados Unidos, a décima tentativa de criação da terceira via desarticulada e comentários sobre o frio polar que atingiu os trópicos. De sucesso mesmo só a operação espalha-dependentes-químicos da Prefeitura – essa não falha nunca! Separados são mais fracos, parabéns. A morte ao menos há de se antecipar à resistência. 

Abri o aplicativo da lista de tarefas. Não te contei ainda? Agora uso um. É ótimo para depositar a angústia, aliviar a mente e acumular tarefas como quem coleciona selos. Há algumas de estimação que já me acompanham há meses. Fofas. Ficam ali não executadas como um lembrete do meu fracasso pessoal e da minha tendência a adiar o que mais me diz respeito. Mas não vamos falar sobre isso, porque, afinal, retomei a leitura do livro do Thupten Jinpa sobre autocompaixão, e vou fazer a meditação do perdão hoje, sem falta. Bom, farei eu ou você, né, clone? Porque finalmente me rendi à necessidade deste nosso date. 

Fico até sem graça de reconhecer o tanto que adiei esse encontro. Não por não o desejar, sempre te quis demais, mas achei, call me ‘ingênua’, que daria conta. Eu sei, foi muita pretensão. Agora tenho mais clareza. Ainda assim, devo admitir que foi importante tentar. Tentar equilibrar todos os papéis que eu tive a oportunidade, supostamente democrática, de cumprir. Pude tentar performar a filha perfeita, a esposa perfeita, a amiga perfeita, e também a profissional perfeita. Passei por momentos de aluna perfeita, provedora perfeita, irmã e sobrinha perfeitas. E ousei, clone, você acompanhou, até mesmo tentar ser a mãe perfeita. Tudo bem, pode rir.

O fato é que sinto vergonha de dizer isso, assim, em voz alta, porque ao me ouvir, por trás do sapateado do teclado Dell branco que a escritora perfeita (esqueci de mencioná-la) adquiriu para compor escritório-autônomo-perfeito, percebo a profundidade do meu autoengano. Não dei conta de nada e então, finalmente, te escrevo. 

Vamos aos assuntos práticos: lá no aplicativo de tarefas tem uma lista de coisas a fazer que proponho dividir contigo. É longa, mas não se assuste, juntas a gente mata tudo rapidinho. Se puder, e não for abuso, queria te passar os itens burocráticos, todos que envolvem cobrar fornecedores, reclamar de serviços e resolver pendências que já deviam ter desaparecido há meses. Tem o imposto de renda nesse pacote, sorry! A correção no boletim de ocorrência do roubo do celular, a papelada do reembolso e a remarcação dos exames. Ah! E tem o dentista das crianças. Não esquece de novo, pelamor. 

Eu vou ficar com os textos não escritos, o supermercado não feito, os projetos não enviados e a preparação das aulas – essa parte que eu gosto mais. Toco daqui ainda os livros lidos pela metade, as séries pendentes e todas as mensagens de zap que ainda não respondi. 

Você deve ter acompanhado que dia desses tivemos um eclipse. A Terra encobriu a Lua e tudo se apagou. Por um segundo, imaginei também um apagão no aplicativo de tarefas e fiquei pensando: o que resistiria de nós após o fim das demandas? No Eclipse, ainda que escondida, a Lua segue lá – imensa, à espera do movimento natural dos astros, do trânsito da luz solar que, por fim, a revela intacta, cheia. 

E nós? Depois de executarmos tudo, clone, depois de cumprirmos as exigências desmedidas, quem seremos, além de uma dupla cansada? O que restará por trás das nossas sombras? Quem surgirá na próxima noite? Será nova, minguante? Aspiro encontrar o brilho de uma mulher possível, que possa desejar ser apenas uma e, finalmente, crescente em si.

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