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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

Os desafios que o Tik Tok impõe a pais e responsáveis

Manter a segurança das crianças é um dos cuidados que precisamos ter com as redes sociais

Por Stéphanie Habrich 26 abr 2022, 08h38

Na minha casa, o meu filho mais novo, de 14 anos, adora usar o Tik Tok, famoso aplicativo de vídeos curtos. Ele costuma passar um bom tempo assistindo aos conteúdos postados ali. Meu filho é um exemplo do principal público-alvo do Tik Tok: os jovens. Dados da própria empresa mostram que, do total de usuários do aplicativo no mundo, 60% deles pertencem à geração Z (nascidos entre 1995 e 2010). 

No Brasil, a preferência dessa faixa etária pelo Tik Tok também é alta: quase metade das pessoas entre 10 e 17 anos têm conta na plataforma, segundo dados de 2020 da pesquisa Tic Domicílios, divulgada no início deste ano e feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação.

Como mãe, fico preocupada de os meus filhos passarem muito tempo no aplicativo e de estarem expostos ali aos mais variados tipos de pessoas e conteúdos. Imagino que, dada a febre que essa plataforma se tornou, outras leitoras da coluna tenham as mesmas preocupações. Pensando nisso, entrevistamos Marta Gonçalves, professora do Instituto Singularidades e psicopedagoga, para refletir sobre o uso do Tik Tok pelas gerações mais novas. 

Ela falou sobre os motivos que levam os jovens a serem atraídos para a plataforma, a necessidade de os adultos monitorarem o tempo de uso dos mais novos e as questões de segurança a que pais e responsáveis devem estar atentos. Confira. 

O que atrai tantos jovens ao Tik Tok?

O aplicativo tem vários vídeos curtos. O tempo de duração e a praticidade dos recursos disponíveis [que vão da gravação à edição] acabam atraindo a atenção dos jovens. Como as gravações não são longas, os usuários terminam de assistir a uma delas e já emendam em outras, outras… Quando você percebe, já assistiu a várias. Você não precisa de muitas habilidades para entender e prestar atenção ao que está acontecendo nos vídeos. Fora isso, tem aquela coisa de que uma pessoa assiste a um conteúdo, depois outra pessoa assiste também e, de repente, todo mundo está vendo.

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Plataformas de vídeo costumam ser mais populares entre os jovens do que as redes sociais com mais destaque para textos, como Twitter e Facebook. Na sua opinião, por que os jovens estão tão atraídos pelo formato de vídeo?

Acho que uma das primeiras questões que podemos colocar é a falta de leitura. Nós não temos muito o hábito de leitura no Brasil – existem várias pesquisas que mostram isso. Hoje, muitas crianças preferem assistir a vídeos a ler algo. Então, fica mais difícil de elas se interessarem por uma plataforma que envolve leitura. Essas crianças já estão usando telas desde pequenas. Antigamente, as crianças tinham a opção de ler um livro ou assistir à televisão. Hoje, elas podem ler um livro ou acessar às mais diversas plataformas digitais. Nessas plataformas, há uma série de componentes (som, cores, entre outros) que são inseridos para que o usuário se envolva e não queira sair. Como a criança não tem muito repertório de vida, acaba sendo atraída por tudo isso. Ao mesmo tempo, muitos pais ou responsáveis passam boa parte do tempo no celular. O que é normal na sua casa: ler ou ficar mexendo no celular? Se o normal for mexer no celular, as crianças vão querer fazer a mesma coisa. Ao mesmo tempo, as que têm pais leitores tendem a se tornar leitoras também.

Além de dar o exemplo, há outra coisa que eles podem fazer para tirar os jovens do celular?

Lembro que, quando era pequena, eu e todas as crianças da família passávamos as datas comemorativas na casa da minha avó. Nesses dias, depois do almoço, ficávamos algumas horas brincando em um parque. Acho que a melhor forma de tirar as crianças dessa febre do Tik Tok seria dar alternativas. Elas ficam no celular e acabam não brincando, não interagindo com os outros. Se o adulto não der alternativas, elas não vão largar o aparelho, pois estão hipnotizadas pela internet. A pandemia piorou isso, pois os jovens ficaram muito tempo presos em casa. Nós precisamos ensinar as crianças a brincar, interagir com os outros… Elas se esqueceram de como fazer essas coisas. Ao mesmo tempo, nós precisamos levar em consideração os problemas causados pela exposição prolongada às redes sociais. Ainda não sabemos os impactos que o excesso do uso do celular pode ter para o sistema nervoso, por exemplo. Além disso, no Tik Tok o jovem pode se deparar com a frustração de não conseguir atingir muitas pessoas e alcançar o sucesso que gostaria, fora a questão do cancelamento (quando os usuários repudiam coisas diferentes ou estranhas que alguém fala). Os jovens já entram nas redes com medo e ansiedade.

No caso de crianças, menores de 13 anos, a questão é ainda mais séria…

Se a criança realmente quiser usar o Tik Tok, o ideal é que ela use junto com os pais ou responsáveis. Ela não tem idade para mexer naquilo sozinha, sem monitoramento. Ela pode ter acesso a conteúdos impróprios ou acabar se colocando em risco. Então, se vai gravar um vídeo, os adultos têm que orientá-la para fazer isso em local que não exponha a localização, por exemplo. Assim, você vai criando um ambiente um pouco mais seguro para não expor toda a vida dela nas redes. Para a criança, a internet é uma brincadeira, ela não tem a menor ideia do perigo a que pode se submeter. Os adultos devem acompanhar tudo de perto para que os menores entendam os riscos e, caso aconteça algo de diferente, possam conversar, responder perguntas. Se a criança não é monitorada por algum responsável e não se sente confortável para conversar com um adulto, ela vai ver no aplicativo os mais diversos tipos de conteúdo e formular as suas próprias convicções a partir do repertório que tem. Vai ficar com aquele pensamento (muitas vezes deturpado) que formulou na cabeça.

Como vimos na entrevista com a Marta Gonçalves, de fato, as questões relacionadas à tecnologia e criação de filhos não são simples. Eu, Stéphanie, sempre tento dar o meu melhor como mãe, mas nós sabemos que desempenhar esse papel é bem desafiador, não vem com manual de instruções. Antes de ter filhos, eu costumava criticar outros pais – eu dizia que faria diferente, que seria muito melhor do que eles. Hoje, no entanto, vejo como a prática é mais difícil do que a teoria e procuro não julgar nenhum pai ou mãe. No fim, acho que o melhor que podemos fazer é tentar entender a nós mesmos, os nossos filhos e o mundo que os cerca e, na medida do possível, procurar oferecer a melhor educação que podemos a eles, mesmo sabendo que, às vezes, vamos errar. A tecnologia nos apresenta desafios novos a todo tempo. É normal que, em algumas circunstâncias, os adultos tenham dificuldades em saber como lidar com ela. Acho que o importante é não nos culparmos muito pelos nossos erros e tentar aprender com eles, entendendo que tudo isso faz parte do processo. Estamos aprendendo e crescendo junto com os nossos filhos. 

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