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Sofia Menegon

Sofia Menegon é feminista, idealizadora da podcast Louva a Deusa e consultora em relacionamento e sexualidade
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O curioso caso dos homens que gostam de mulheres seguras

Como ser segura em um mundo que nos cobra a perfeição e, como diz meu colega Marcus Boaventura, tolera homens medianos?

Por Sofia Menegon
16 mar 2022, 08h49

Não faz muito tempo que ouvi um apresentador dizer na TV que gostava de mulheres seguras de si, acreditando veementemente expressar seu posicionamento pró-feminismo. Aliás, essa não foi a primeira vez que observei esse discurso que, a um olhar menos cuidadoso, talvez pudesse soar como o homem que não se sente ameaçado quando na companhia de uma mulher poderosa. Afinal, quantas de nós não nos sentimos impelidas a reduzir de tamanho para caber na vida de namorados ou maridos?

Mas é preciso fazer uma análise mais minuciosa dessa fala e do que ela carrega. Um homem que se sente confortável em estabelecer esse critério para mulheres, nega os efeitos devastadores que o patriarcado e o machismo estrutural impõem sobre nós. Não reconhece que a insegurança feminina foi construída, em grande parte, por estereótipos de gênero que nos colocam sempre no espaço da inadequação. Ignora as desigualdades que enfrentamos diariamente no mercado de trabalho. Reduz a insegurança a uma mera escolha, vestindo-nos novamente no papel de desequilibradas e instáveis.

Ora, como ser segura em um mundo que nos cobra a perfeição e, como diz meu colega Marcus Boaventura, tolera homens medianos? Um homem que pretere mulheres com inseguranças, pretere também a vulnerabilidade. Afinal, só é completamente seguro aquele que não revela suas inseguranças. Então, não estaria ele desejando relações pautadas em meias verdades? Em ilusões? No seu mundo de fantasias?

Todas carregamos inseguranças que podem ter origens muito pessoais e particulares, mas também podem ser realçadas e acentuadas pelo caráter opressor e repressor da nossa sociedade. Do mesmo modo, ao afirmar sua necessidade de se relacionar com mulheres seguras, ele deixa escapar suas próprias inseguranças, provando que essa estrutura dá vantagens a uns, mas não beneficia ninguém.

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Relacionar-se de maneira saudável, portanto, não deveria ter como critério a segurança. Mas o comprometimento, bilateral, na busca pelo autoconhecimento e autodesenvolvimento. Não há mulher ou homem nesse mundo que não carregue cicatrizes. E seria, inclusive, ingênuo acreditar que, por vezes, essas dores não seriam emergidas a partir das relações. Mas a forma como descobrimos, muitas vezes em parceria, como lidar com isso é o ponto crucial.

É injusto, para não dizer cruel, que nos cobremos -ou sejamos cobradas- de mais essa exigência. Que possamos encontrar no caminho pessoas que acolham nossas vulnerabilidades, que dividam as suas e que estejam dispostas a escrever uma parceria de mútuo respeito e de trocas engrandecedoras.

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