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Por trás da moda

Renata Brosina é jornalista, host de podcast e editora de moda com foco em luxo e sustentabilidade. Com 15 anos de carreira e alguns títulos internacionais no currículo, ela é curiosa, gosta de entrevistar e vestir pessoas, e analisar as transformações que vêm acontecendo no mercado.
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Os novos hábitos na moda: silenciosos ou simples (ou as duas coisas)

Com o fim da temporada parisiense, a confirmação de que há um resgate às origens da moda – e, talvez, isso seja o oposto ao barulho nas redes sociais

Por Renata Brosina
Atualizado em 21 mar 2023, 12h42 - Publicado em 21 mar 2023, 09h50

Como de costume, no dia do desfile de Inverno 2023 da Miu Miu, postei alguns looks da coleção no meu stories. Um amigo respondeu “Básico, né?”. Ele, que conhece muito bem a marca e sabe o que esperar, estranhou um pouco esse movimento menos tendência. Ainda sendo mais limpa do que visto nas temporadas anteriores, a série de visuais proposta por Miuccia Prada ainda carrega uma mensagem que outros nomes também deram o seu recado.

Sra. Prada é esperta e ela prova que anda em uma sintonia muito coerente com o momento, questionando o que precisa ser levado para fora da sua passarela. Dias antes, Gabriela Hearst, diretora criativa da Chloé, comentou que suas criações não têm foco no Instagram e, nas suas próprias palavras, ela declarou “não ser funcionária de Zuckerberg”. Errada ela não está.

Os novos hábitos da moda: silenciosos e simples
Desfile da Miu Miu. (Miu Miu/Divulgação)

Mesmo não fazendo parte da geração de Miuccia Prada, Gabriela sentiu o impacto deste momento cansativo que é “criar para a internet“, muitas vezes, deixando de lado algumas prioridades relacionadas à roupa em si. Uma semana antes, a Giorgio Armani apresentou uma coleção focada, como sempre, no DNA do estilista, que é conhecido pela atemporalidade, sofisticação e, sim, simplicidade.

A simplicidade que não vinha combinando muito com os posts virais no Instagram e/ou TikTok, mas que Sr. Armani desenvolve desde o início da sua carreira, lá na década de 1970, e que, na época, não precisou de internet para fazer sucesso. A base sólida do seu trabalho está na roupa bem feita e no olhar que foge da efemeridade. E isso vem caindo bem nos últimos tempos. 

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O ritmo mais “básico” (como diria esse meu amigo) já começou na temporada de moda masculina de Inverno 2023. Se Dolce & Gabbana e Gucci, que são conhecidas pela estética maximalista, se renderam ao “menos é mais”, imagine o que esperar em uma semana de moda conhecida pelo minimalismo e elegância. Paris costuma priorizar sua tradição do savoir faire, com as construções das peças feitas à mão.

Os novos hábitos da moda: silenciosos e simples
(Chanel/Divulgação)

É tanta valorização que a Chanel é a maior apoiadora para tais técnicas não desaparecerem com o passar do tempo. Por isso, desde 1984, a maison vem comprando ateliês tradicionais especializados em bordados, desenvolvimento de flores, joias, entre outros, para fazerem parte do Métiers d’Art. Virginie Viard trouxe esse trabalho minucioso criado com técnicas manuais para a sua nova coleção. O foco está na camélia, flor conhecida por ser o símbolo da grife, seja nos padrões das roupas ou no cenário (este último, Instagramável, sim). Mas a roupa em si traz elementos fortes, que celebram os códigos construídos por Gabrielle Chanel, fortalecidos por Karl Lagerfeld e celebrados por Viard. Nada dali parece viral.

A intenção de Demna Gvasalia, que também utiliza dos ateliês de Métiers d’Art, que não são fornecedores exclusivos da Chanel, foi relembrar o porquê da Balenciaga ser um dos grandes nomes de status de luxo. O estilista georgiano deu bons passos para trás após as polêmicas que pesaram em diferentes camadas da empresa e buscou as raízes da label. Finalmente? Sim. Fazia tempo que a Balenciaga se distanciava da sua história — não da rebeldia de Cristóbal, seu fundador. Ele era disruptivo tal qual Gvasalia, mas sua licença poética estava na construção da sua etiqueta — posição diferente de um sucessor que precisa honrar os códigos da maison. Por isso, o Inverno 2023 vem tranquilo, simples e cheio de referências que esperávamos ver em algum momento. Os plissados impecáveis, as estruturas amplas da alfaiataria (zero estranhas) e o poder da assimetria estavam juntos — e de arrancar suspiros até de quem precisou morder a língua para elogiar Demna (como eu).

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Os novos hábitos da moda: silenciosos e simples
Desfile Louis Vuitton. (Louis Vuitton/Divulgação)

Na lista de grifes que mantiveram suas heranças em dia, Hermès seguiu com a elegância sem esforço desenvolvida por Nadège Vanhee-Cybulski; o “mais do mesmo” (no bom sentido) de Maria Grazia Chiuri para a Dior foi impecável, carregado de elementos-chave que vieram do Dior Heritage (prédio onde está o arquivo da maison desde a época de Christian Dior); e a Louis Vuitton com o olhar arquitetônico de Nicolas Ghesquière que traz uma coleção mais relaxada para o tailoring e mais armada para os vestidos. Como a maison não é conhecida pelo prêt-à-porter, que foi criado em tempos de Marc Jacobs, Ghesquière optou por trazer as referências para as suas bolsas uma delas remete às placas com nomes das ruas parisienses. Sabemos que vai ser hit na internet, mas, talvez, com um viés menos pretensioso do que vimos temporadas passadas.

A celebração da moda vem seguindo esse caminho da calmaria. Sem dúvida, as redes sociais ainda são a forma de vender para as próximas gerações e manter uma marca de luxo circulando no buzz do desejo. Mas a indústria entendeu que não é preciso se resumir a isso. Se antes tivemos que engolir a seco coleções que celebravam os Millennials da Dolce & Gabbana (lembra do sofrimento que foi a coleção de Inverno 2017?), hoje é esperado que os profissionais que comandam a criação tenham esse equilíbrio entre os novos tempos e a valorização da peça que está na mão de artesãos.

Os novos hábitos da moda: silenciosos e simples
Desfile Hermès. (Hermès/Divulgação)

É preciso celebrar tradições que estão por trás de cada alinhavar ou pence da alfaiataria espaço esquecido graças à pressa de atingir seus milhares de “likes”. Agora, a pressa é pela calma e pela lembrança do verdadeiro significado do luxo, com produtos que demoram dias para serem feitos, para respeitar o tempo. E os rebeldes dessa indústria sabem que, tudo dentro do seu ritmo, funciona muito bem. Donos das suas próprias marcas, Miuccia Prada e Giorgio Armani podem ser bons termômetros. E isso não é um exagero. Afinal, eles já cantam essa bola há anos e sabem bem o que está acontecendo e para onde a moda vai caminhar. Se a confirmação deste movimento está em Paris, veja como eles têm razão. 

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