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Elas, Nós por Elizabeth Cardoso

Doutora em Teoria Literária pela USP, Elizabeth Cardoso (@elizabethcardoso357) é escritora e professora do Programa de Pós-graduação em Literatura e Crítica Literária na e do Programa de Educação: Psicóloga da Educação, na PUC-SP. Na academia, pesquisa literatura de ancestralidade negra, do romance contemporâneo, da literatura infantil e da formação de leitores de literatura.
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Um souvenir para Julieta

Os diários da escultora brasileira Julieta de França e o lugar da mulher nas artes

Por Elizabeth Cardoso
Atualizado em 8 ago 2023, 12h24 - Publicado em 8 ago 2023, 09h19

8 de agosto

Confesso. Procurei as aulas de escultura da artista Julieta de França para ter a oportunidade de ver um homem nu. Não tenho pudor em afirmar isso aqui, afinal um diário íntimo serve para isso mesmo. Ainda assim, fico constrangida… por que será? Os homens colecionam imagens de mulheres nuas e abertamente admiram o corpo feminino, vestido ou não, mas a nós, mulheres, é proibido observar o corpo masculino, em especial suas partes íntimas… Estou exagerando, até para um diário é intimidade demais.

Pois bem, ouvi dizer que nas aulas da senhorita de França acontece de termos a oportunidade de modelar esculturas a partir de modelos vivos e desnudos. Não podia ficar de fora dessa. Disse para meus pais sobre meus interesses artísticos – duvidaram de meu talento. Falei da importância cultural e social de Julieta – ficam mais interessados. Afinal, apesar de já ter 22 anos da permissão para mulheres frequentarem os cursos superiores, poucas de nós ousamos.

Mas ela… Ela é a ousadia em pessoa. Ela foi a primeira mulher brasileira em um curso de modelo vivo e a primeira a receber o Prêmio de viagem ao exterior como aluna da Escola Nacional de Belas Artes. Foi nessa viagem para Paris, de 5 anos (!!!), que ela estudou na Academie Julian e no Institut Auguste Rodin, tendo aulas com o próprio Rodin e com Antoine Bourdelle. Nem sei se meus pais sabem quem são essas pessoas, mas eu falei com tal entusiasmo e pompa que era evidente que se tratava de gente importante.

“Tudo bem, de fato parece relevante; mas não temos dinheiro”. Eu já esperava por isso e disparei “ela está precisando de uma assistente, eu me candidatei ao trabalho, ela aceitou, começo amanhã, se os senhores permitirem, claro”. Congelaram por alguns segundo, ponderam alguma coisa sobre os cuidados que as meninas devem ter ao se relacionar com esse “tipo de mulher”. Eu não disse mais nada, com medo de deixar escapar que na verdade “assistente” era um outro nome para “a moça da limpeza”, mas eles não precisam saber disso. Eu só ficaria no trabalho até conseguir meu objetivo: ver um homem nu. Esse ano de 1913 não termina sem esse feito. 

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16 de agosto 

Assim que entrei no ateliê da artista, meu olhar foi capturado pela sua pessoa. Os cabelos desgrenhados, o vestidão de algodão grosso, sujo, amassado e bem solto deixavam seu copo livre para se movimentar em cima de dois pés descansos que juntos contornavam o tambor que apoiava o gesso desforme que ia ganhando vida entre seus dedos finos e fortes. 

Não sei se me viu chegar, não sei se ouviu quando me apresentei e expressei o interesse de aprender a fazer esculturas. Esculturar o mundo disse para impressionar, mas ela nem me olhou. Apenas apontou com as sobrancelhas o balde com panos e vassouras e disse “pode começar, há muito o que fazer”. A ironia possível me deu esperança de estar sendo ouvida. 

Logo as alunas chegaram, até um rapaz. Gente da alta sociedade, acho que reconheci Nair de Teffé, esposa do Marechal Hermes da Fonseca, pintora e caricaturista. Todos pareciam ser amigos. Tantos títulos, ouro e pérolas me isolaram do grupo dando-me uma posição privilegiada para observar: a invisibilidade. 

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Julieta hipnotizou a todos com histórias sobre Paris, suas aulas com Rodin, e suas conquistas na Europa, o 3° lugar no concurso Academie de Femme e 2° lugar no concurso Cariathide Homme, “concorrendo com 300 artistas de diversos países”.

Li sobre isso nos jornais, mas todos ali sabiam, eu também, que isso era coisa do passado. Julieta estava passando por um momento difícil depois que voltou para o Brasil. Não conseguia nem participar dos concursos e exposições, sendo desclassificada pelas comissões organizadoras que alegavam falta de qualidade (!!!). Até quando…

Tudo armado, manipulado odiosamente por aqueles que você sabe quem. Mas ela não se intimidou, não, não… Discutiu, brigou, bateu pé, voltou para Paris e reuniu depoimentos positivos e elogiosos de escultores e críticos europeus sobre sua obra. Até Rodin mandou carta sobre ela !!! Mas pouco adiantou. Dizem que o problema é a presença de mulheres em destaque em suas obras. As comissões dizem que isso não condiz com a soberania masculina. Dizem que ele é “feminista… até em gesso”.

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Isso pode ser verdade. Sinto que sua admiração por Camille Claudel é muito maior que a que nutre por Rodin. Trouxe até uma estatueta de Camille na mala e a mantem em pedestal majestoso. De Rodin não tem nada lá. 

20 de agosto

Tem sido tudo muito intenso e inusitado no ateliê da senhorita Julieta. Moço pelado ainda não apareceu por lá e mesmo se aparecesse não seria o centro das atenções de ninguém. Nem da minha. Só temos olhos para as mãos de Julieta. Ela molda, corta, esfola, lixa, cava, cutuca, calca, forja, lavra, esgueira, delineia, talha, ajusta, norteia, regula, adequa, desfaz, retoma, arredonda, plana, abre, estrita, arrebenta, pulveriza, dança sustentada pelo pó e desliza por nossas retinas. 

25 agosto

Minha mãe ficou muito feliz com o presente que trouxe. Uma estatueta feita por mim. É uma florzinha murcha e bizarra, “mas já é algo”, segundo Julieta. Ela foi tão generosa quando contei que minha mãe acreditava que eu era uma espécie de assistente artística aprendendo escultura e que minha mãe estava cobrando uma obra feita por mim.

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Pensei que perderia o emprego da limpeza. Primeiro, porque não limpo quase nada, segundo porque confessaria a mentira. Mas ela riu e soltou “já imaginava algo do tipo”. Depois de um intimidador “sabemos que você não tem vocação para a limpar, vejamos se tem para esculpir”, sentamos juntas e ela me deu instruções simples, as quais não consegui cumprir direito e a flor deu no que deu. Desflor. Mas aquele tempo juntas esculpiu minha alma. Ela me deixou ali e foi trabalhar em um monumento encomendado. Fiquei por lá, ouvindo a batida da lâmina na pedra. 

Resolvi retribuir a ajuda e finalmente comecei a arrumar e limpar o lugar. Em sua mesa de trabalho vi um livro de capa de couro com o título Souvenir de ma carrière artistique. Abri. Não era um livro. Não era um diário. Não era um álbum. Mas era tudo isso ao mesmo tempo. Ali Julieta guardava recortes de jornais, críticas, cartas, fotografias, diplomas, depoimentos de artistas, críticos, jornalistas e amigos sobre sua obra. Tudo organizado cronologicamente.

Lendo um a um, conheci sua história contada por ela. Não tinha uma palavra escrita por ela, mas a seleção e a ordem dos escritos formavam um texto seu. Uma escultura de palavras. Não sabia que as palavras poderiam ganhar materialidade de monumento. É isso que quero esculpir, quero forjar pessoas com palavras. Amanhã mesmo vou até O Malho oferecer um artigo meu sobre a obra de Julieta de França. Se não aceitarem continuarei tentando. Quem sabe um dia, nem que seja daqui cento e dez anos, meu texto seja um Souvenir para Julieta. 

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Venho escrevendo histórias de mulheres ficcionais com forte vínculo com a realidade vivida por todas nós. Na coluna, “Elas, Nós”, escrevo histórias de mulheres reais com a fina eletricidade da ficção para inscrevê-las como um nós. São histórias extraordinárias, mas que permanecem silenciadas. Cercadas de injustiças e violências enfrentadas, muitas vezes, até a morte. Esse enfretamento me interessa, pois daí podemos retirar um ensinamento valioso: nunca desistir de ser quem somos.

A escultora Julieta de França (Belém, 1872-Rio de Janeiro, 1951) e outras artistas brasileiras extraordinárias, que apesar de permanecerem na invisibilidade, abriram caminho para Anita Malfatti, Djanira, Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Tomie Ohtake, Lygia Pape, Beatriz Milhazes, Abigail de Andrade, Adriana Varejão. Para saber mais, leia a obra de Ana Paula Cavalcanti Simioni, Profissão Artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: FAPESP, 2008. A qual foi fonte dos dados históricos aqui livremente ficcionalizados. O Souvenir de ma carrière artistique está no Museo Paulista, da USP.

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