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Por Ana Carolina Coelho. Feminista, mãe, escritora, poeta, dançarina, plantadora de árvores, pesquisadora e professora universitária
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Tempos de (Des)Amaternares

As pessoas estão revelando suas incapacidades de viverem em comunidade de maneira responsável, equilibrada, sensata e afetuosa

Por Ana Carolina Coelho
27 abr 2023, 10h20

Estou apavorada. Confesso que passei a semana, talvez como todas as mães e pais, lendo, escrevendo, buscando informações, alternativas, explicações, formas de proteger as crianças, chorando, pensando em voltar para o home office, desistindo cinco minutos depois dessa ideia (por lembrar de todo prejuízo causado pelos tempos de pandemia), refletindo, tensa ao deixar as crias na escola, querendo uma solução para esses ataques absurdos que estamos vivendo nas instituições de ensino. Me desesperei com as notícias de morte, me solidarizo com as famílias, passei mal ouvindo as reportagens e fiquei atônita com os níveis de requintes de maldade demonstrados. O que estamos vivendo coletivamente?

Para mim é um tempo de (des)Amaternares, em que as pessoas estão revelando suas incapacidades de viverem em comunidade de maneira responsável, equilibrada, sensata e afetuosa. Estamos no epítome do afeto neoliberal, dedicado apenas para quem conhecemos e cuidando somente de quem selecionamos. Nossos olhares se voltaram com tanta intensidade para o espetáculo do eu, como diria Paula Sibilia, que vivemos em um show produzido, estrelado e ovacionado apenas pelos nossos gostos.

O adoecimento do outro não nos traz compaixão, as mazelas vividas por outrem são no máximo toleradas, desde que fiquem restritas “cada um em sua casa”. Comunidade é exatamente o oposto disso. É amar em um fluxo constante de atenção, cuidados e forças em demandas físicas ou emocionais que não são as nossas; é buscar compreender uma realidade que não fazemos parte e respeitar as limitações de cada pessoa, sabendo que nem sempre será divertido ou agradável. Comunidade tem a ver com esse espaço comum, obviamente com regras de convivência e igualmente com espaço para a inclusão e respeito daqueles momentos em que todas as normas precisam ser repensadas em prol de novas pessoas e suas necessidades. 

Clamamos pelas regras de convivência apenas quando elas nos convêm e, principalmente, em uma sociedade adoecida e altamente limitadora para as crianças isso é uma bomba relógio para a carência das mesmas. Cobramos delas um controle emocional que sequer temos e, estamos comunitariamente perdendo a capacidade de nos afetarmos com as diversas emoções que intensamente povoam o corpo de todas as pessoas. A vida em “comum” se tornou uma robotização da felicidade contida que não permite excessos, muito menos manifestações de sentimentos negativos. Choro, tristeza, nostalgia, luto, dores, trauma, são elementos que precisam ser banidos do “bom convívio social”. 

Aqui em casa, por vários motivos, nunca escondemos os nossos sentimentos. As crianças e adultos transbordam quando precisam. Somos uma família bem intensa e não sei se isso é bom ou ruim. Só o tempo dirá. Mas minhas filhas sempre oferecem ajuda para as pessoas na rua, repartem a comida e se preocupam com o próximo. Lembrei-me do dia em que minha flor mais velha escreveu uma carta para o Prefeito dizendo que era simples resolver os problemas da cidade, afinal, era só limpar as ruas direitinho, dividir a comida, empregar as pessoas já que tem muitas lojas e indústrias, colocar as crianças na escola para estudar e aumentar o número de ônibus para todo mundo ir sentado. E ela ainda terminou dizendo “Sr. Prefeito, por que o senhor não consegue?” Foi um dia em que eu ri e chorei ao mesmo tempo.

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Nesse tempo de (des)Amaternares, os afetos parecem ser tão restritos que temo um dia ser criminalizada pelo meu choro intenso ou por uma gargalhada enorme. Estamos muito adoecidos pela falta de compaixão. Apenas quando pudermos recuperar nossa capacidade de amar como um valor social “comum”, conseguiremos uma comunidade respeitosa e sensível. Isso é uma verdadeira convivência plural, em que nem tudo é um “mar de flores”, mas estamos em união coletiva efetivamente. Essa me parece ser a principal arma que temos para a atual  “doença da indiferença” de uma comunidade forjadas apenas por conveniência, cujos efeitos podem ser sentidos, entre outros espaços em manifestações de violências com tantos indícios de individualismo exacerbado e requintes de crueldade. Dias melhores certamente virão! E vamos juntas! É possível sermos melhores, sempre!

Vamos conversar?

Se quiser entrar em contato comigo, Ana Carolina Coelho, mande um e-mail para: ana.cronicasdemae@gmail.com – e no Instagram: @anacarolinacoelho79

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