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Natália Dornellas Conversa de Vó Natália Dornellas é jornalista, podcaster e ativista da longevidade. Procura por avós e avôs para prosear e histórias de #avosidade para contar. É criadora do podcast Conversa de Vó e cofundadora da plataforma 40+ AsPerennials

Velho é lindo e namora, sim!

Uma campanha de Dia dos Namorados que comprova o potencial da "bela velhice"

Por Natalia Dornellas Atualizado em 28 Maio 2022, 00h21 - Publicado em 28 Maio 2022, 08h01

Venho de um trimestre de reuniões infrutíferas. Todos os que conhecem a minha militância da “Bela Velhice” admiram, elogiam e convidam suas mães e avós para seguirem nas redes sociais (@nataliadornellas), se conectarem comigo de alguma forma, mas pouquíssimos, aliás, ninguém, tem a coragem de mergulhar junto.

Ouvi de uma grande marca que, se ela colasse nas avós (jeito marqueteiro de falar), estaria correndo o risco de empoeirar o produto e pararia de vender para quem está chegando ao mercado consumidor agora. Ou seja, velhos são lindos, mas no banco da praça, infelizmente, é o que ouço nas entrelinhas.

Há dois anos faço uma verdadeira caçada por fotógrafos e profissionais que veem a velhice de outro jeito, ou melhor, do jeito que eu vejo, do jeito que Mirian Goldenberg, a maior autoridade no assunto pela perspectiva antropológica e social, enxerga. Sem ignorar as perdas, optamos por olhar para o lado belo, e, sim, acreditamos e provamos semanalmente, em posts de collab, que pode ser lindo.

Como já disse aqui, acredito sem pestanejar que um dos caminhos para a aceitação da velhice no país do bumbum perfeito e dos cabelos de Gisele é a beleza, a ressignificação das rugas, por isso nutro uma quase obsessão pelas boas imagens. Minha busca incessante é pela beleza da imperfeição, pelas manchas na pele, pelas marcas do tempo, pela falta de melanina dos fios.  

Tudo isso para dizer que os velhos lindos deste Brasil agradecem à Reserva – marca com a qual não tenho nenhuma relação comercial – pela campanha que tomou as redes, na noite da última quinta-feira. Para falar de Dia dos Namorados, a grife carioca preferida do meu sobrinho de 15 anos teve a coragem (é preciso muita, e isso eles têm) de escolher casais reais de idosos (entre eles, Solange Nakad e seu parceiro, @arabe5350, que estão juntos há 55 anos) e os vestir com roupas íntimas – sim, lingeries! – numa interação sexy e em preto e branco, a velhice é recorrentemente enxergada assim ainda, clicada por Maurício Nahas.

campanha reserva dia dos namorados
Casais foram clicados com lingeries da marca. Reserva/Maurício Nahas/Divulgação
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Sem dúvida uma das campanhas mais lindas que já vi e fiz na Reserva. Quando me perguntaram se precisei de coragem para fazer, respondi que precisaria de coragem para não fazer. Ainda que algumas figuras insistam em reproduzir hábitos ultrapassados, o etarismo, esse preconceito relativo à idade, ainda existe. Estamos quebrando um tabu nessa campanha”, disse Rony Meisler, o CEO da marca.

Para não ficar só nas imagens, a Reserva criou ainda duas iniciativas contra o etarismo (preconceito contra pessoas mais velhas, especialmente, mas que também discrimina os mais novos num preconceito reverso, assunto pra outro dia). A primeira é uma página no site da marca em parceria com a plataforma Vagas.com com posições disponíveis para pessoas 50+, e a segunda é o projeto “Cara e Coroa”, que emprega na própria empresa pessoas que são jovens há mais tempo.

campanha reserva dia dos namorados
Mostrar a beleza que existe nas rugas ainda é raro em campanhas brasileiras. Reserva/Maurício Nahas/Divulgação

Me alonguei nos parágrafos porque de fato acredito que essas imagens são uma importantíssima virada de chave para a causa da velhice no Brasil, aliás, para mim são o maior gol que já vi no segmento, desde que resolvi explicar para as pessoas o que é essa palavra longa chamada LONGEVIDADE.  

Como não poderia deixar de ser, ouvi também a minha parceira de Bela Velhice, a antropóloga Mirian Goldenberg, sobre o que a campanha lhe trouxe. A fala dela, sem edição, vem a seguir. 

 “O que eu venho observando é que as marcas, empresas, instituições, finalmente, começaram a enxergar o potencial da beleza da velhice, e a beleza da velhice está justamente nessa diversidade enorme de prazeres, de corpos, de sexualidades, de tesões. Porque o tesão está não só no sexo, mas está também naquilo que te dá vontade de viver, e é o que nos temos falado na Revolução da Bela Velhice, de enxergar a velhice não apenas nas suas perdas, fracasssos, que é o que tem sido até o momento. 

Nós estamos enxergando, eu há mais de 30 anos, como a velhice é o momento de florescer, como as mulheres dizem: ‘é a primeira vez que eu posso ser eu mesma, nunca fui tão livre, nunca fui tão feliz, é o maior momento de toda a minha vida’. Finalmente eu vejo que as as marcas estão começando a tirar os óculos do preconceito, da feiura, das perdas e colocando uma lente muito mais verdadeira para o que é a beleza da velhice, em todos os sentidos, no sentido do florescimento do potencial de ser eu mesma, é isso que eu estou enxergando no material que você me enviou.” 

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