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Perguntem às mulheres

“O feminismo renasceu quando as mulheres denunciaram com duas palavras – ‘eu também’ – o assédio sexual”, diz Rosiska Darcy de Oliveira

Por Rosiska Darcy de Oliveira 10 jul 2018, 10h00 | Atualizado em 23 jul 2020, 19h10
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 (Reprodução/Pinterest)
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Houve um tempo em que as mulheres, de repente, se perguntaram: “Afinal, o que é ser mulher?”. Tempos em que os ventos do feminismo semearam dúvidas, mudando os destinos não escolhidos que elas tinham aprendido a suportar. Vieram a luta pela autonomia econômica e o ocaso do homem provedor, a divisa “nosso corpo nos pertence” e a liberdade sexual, as passeatas e as leis contra a violência e recentemente o #metoo, mais que um vento, um ciclone que atravessou o mundo, derrubando mitos e abalando reputações.

O feminismo renasceu quando em todos os países ocidentais as mulheres denunciaram com duas palavras – “eu também” – o assédio sexual, que, banal e sem contestação, permeava o cotidiano delas na contramão das relações igualitárias que vinham tentando criar. Nem a respeitabilíssima Academia Sueca, que atribui o Prêmio Nobel de Literatura, escapou, abalada pelas denúncias de assédio entre seus muros. Na Suécia, a rebelião #metoo está sendo considerada tão importante na história das mulheres quanto o direito de voto.

As protagonistas e contemporâneas do #metoo são categóricas: doravante faz parte do ser mulher o recusar-se a ser objeto do desrespeito e do poder discricionário dos homens. E não nos venham mais com os álibis da galanteria. Sedução e agressão só rimam no papel.

Desde que as mulheres aprenderam a falar em primeira pessoa, não cabem mais na definição vazia da mulher como o avesso ou o contrário dos homens. Estão construindo a identidade feminina com o direito de escolha do que querem ou não na vida delas. Sim é sim, não é não.

Um verdadeiro problema para os homens, já que, daqui para a frente, eles terão que responder à pergunta o que é ser um homem, quando as certezas que herdaram da Idade da Pedra e que os autorizavam a tratar as mulheres como presas estão irrevogavelmente postas em questão.

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O que entra em pauta é a crise da identidade masculina, que até agora se construía à imagem e semelhança do caçador. O assédio foi um reflexo ancestral até que as presas se rebelaram e saíram do jogo. Como definir-se agora sem essa obrigação ou direito de ser constante e exímio predador? Abriu-se um vazio, que eles terão que preencher com boas doses de autocrítica e capacidade de reinvenção.
Os homens assediam por hábito, por cultura, por competição entre eles e pela vontade de se afirmarem como campeões nessa competição. Os mais toscos explicam e legitimam o assédio como supostamente motivado por um forte impulso sexual. Balela. O assédio tem menos a ver com o desejo que um homem sente por uma mulher do que com o espírito de competição face a outros homens. O prazer é contar a caçada e exibir um troféu. Para isso, usam as armas de que dispõem, sejam elas dinheiro ou hierarquia, e, sempre, o poder sobre o corpo das mulheres que a sociedade lhes confere. O assédio é uma história entre eles, em que entramos como um objeto indispensável. Não se trata de desejo, e sim da afirmação desse poder.

E agora? Como conquistar alguém sem agressões? Perguntem às mulheres, elas sabem.

Rosiska Darcy de Oliveira é membro da Academia Brasileira de Letras e autora de Pássaro Louco (Rocco), entre outros livros

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