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Ana Claudia Paixão A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

O efeito Martha Mitchell e sua relevância 50 anos depois

Julia Roberts dá vida à essa sulista sincerona na série Gaslit, já disponível no Brasil

Por Ana Claudia Paixão 29 abr 2022, 09h54

“Não fosse por Martha Mitchell, não haveria Watergate”. Quem fez essa afirmação foi o próprio Richard Nixon, em sua icônica entrevista à David Frost, em 1977. A conversa entre os dois virou uma peça teatral premiada e filme sensacional, em 2008, Frost/Nixon. Porém, se você não souber quem é Martha Mitchell não se sinta desinformada. Para nós, estrangeiros, seu nome foi jogado para as margens de um dos maiores escândalos políticos nos Estados Unidos, assim como mal aparece nas versões jornalísticas sobre o caso de Watergate, ainda menos no cinema. Mas nem mesmo com o reconhecimento do próprio Nixon sobre sua importância, ela nunca recebeu o crédito merecido.

Com a série Gaslit, da Starzplay, já disponível no Brasil, ninguém menos do que Julia Roberts dá vida à essa sulista sincerona, que era conhecida (e temida) pelos políticos americanos como a “mouth of the South”(a boca do sul, ironizando seu forte sotaque). Martha era assim, agradasse ou não, falava o que pensava. Alguma surpresa que tenha entrado para a história como louca? Pois é. Ela foi difamada, sequestrada e abusada pelo próprio marido na tentativa de abafar o caso de Watergate. Até hoje, o termo “o efeito Martha Mitchell” (the Martha Mitchell effect) é usado para as pessoas que “são chamadas de loucas pelo que falam e depois se descobre que estava dizendo a verdade”. Ou, o que já conversamos aqui na coluna de CLAUDIA, o filme À Meia-Luz, dos anos 1940s, que no original Gaslight virou a referência para o abuso psicológico no qual o manipulador distorce, omite ou inventa informações para fazer a vítima duvidar de seus sentimentos, suas percepções e sanidade. Por isso a série se chama, Gaslit.

Martha Mitchell em Gaslit
Martha Mitchell foi foi difamada, sequestrada e abusada pelo próprio marido na tentativa de abafar o caso de Watergate. Gaslit/Divulgação

Martha Mitchell foi uma socialite do sul dos Estados Unidos, conservadora e polêmica, casada com o procurador-geral do governo de Richard Nixon, John N. Mitchell e se tornou a primeira fonte do presidente a se voltar contra o governo quando estourou o escândalo de Watergate. Ela confirmou primeiro o envolvimento da Casa Branca no crime, no entanto, sua história foi praticamente excluída da narrativa geral. Em 2017, pós #metoo, o podcast Slow Burn recontou a história e chamou a atenção de Hollywood, que anda investindo alto em biopics e bioseries (filmes e séries biográficas) e descobriu um conteúdo perfeito para os oscarizados Julia Roberts e Sean Penn como os Mitchells.

Já era tempo. Sim, é mais uma série biográfica mudando os termos da História, 50 anos depois, só que nesse caso tem algo relevante para ser revisitado. Martha foi injustamente pintada como mentalmente instável por muitas décadas. Uma personagem incrível relegada a coadjuvante. No filme Nixon, de Oliver Stone, Martha foi interpretada por Madeleine Khan, e mostrava como o presidente tinha horror ao seu “sincericídio”. Ter uma estrela do calibre de Julia Roberts, uma das maiores do cinema dos últimos anos, é muito significativo. Na época da crise, em 1972, Martha liderava o Comitê para a Reeleição do Presidente (apelidado de CREEP, uma analogia para “medonho”, em uma tradução livre) e adorava um flash. Tida como indomável, ela trazia votos e notoriedade para o presidente, mas não seguia as regras de sua equipe, a colocando em uma posição de risco, como logo ficou claro.

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A biografia mais comum para Martha, mesmo depois de confirmar os fatos que revelou ANTES da reportagem do Washington Post (o filme sensacional Todos Os Homens Do Presidente, praticamente nem a cita), a reduz ao papel de mulher bêbada, instável, ansiosa por atenção e afetada pelas mudanças hormonais da menopausa. Claro que também ridicularizavam, como mencionei, seu sotaque sulista, suas roupas, penteados e sorrisos abertos. Martha foi destruída de todas as formas, mas nunca mudou sua posição. “Eu decidi há muito tempo que vou dizer como me sinto. E se isso não estiver de acordo com a mensagem do presidente, que assim seja. Se me banir do Air Force One [jato pessoal do Presidente], voarei comercialmente”, famosamente declarou em uma entrevista e a fala entrou na série. Nixon tinha razão para temê-la.

Martha Mitchell na série Gaslit
John N. Mitchell e Martha Mitchell na série Gaslit. Gaslit/Divulgação

Sua sinceridade, obviamente, em tempos opressivamente machistas, foi associada à histeria, tudo para descreditar a fonte. Martha e Nixon “disputavam” a lealdade de John, que vacilava entre sua paixão pela esposa e a fidelidade ao Presidente. Ter um Sean Penn completamente transformado fisicamente no Procurador-Geral tem Emmy escrito em toda parte. Embora biógrafos confirmem que John Mitchell amasse Martha, ele minou sua confiança e menosprezou seus comentários, tentando domar sua personalidade forte. Como sabemos hoje, Martha Mitchell, percebeu bem antes de seu marido que todos ao redor de Nixon estariam destinados a se tornar bode expiatório. Embora não necessariamente adepta a causa feminista, era perspicaz e desafiou o ambiente tóxico e machista de sua época.

Recontar a história de Martha, no ano em que Watergate completa 50 anos, é muito importante. Ela chegou a ser silenciada à força, em meio de um telefonema para uma repórter e confinada em um hotel, literalmente sequestrada por ordem do próprio marido. Tudo para não revelar que um dos invasores presos em Watergate era um dos seguranças pessoais dos Mitchells. Ninguém duvida que a motivação inicial de falar a verdade tenha sido o amor pelo marido. Martha queria defendê-lo, mas o desgaste foi fatal para relação dos dois. Depois que prestou depoimento sob juramento no processo civil movido pelo Partido Democrata contra o comitê de reeleição de Nixon, foi abandonada por John, que saiu de casa com o apoio da filha do casal, Marty. Por causa de seu envolvimento no escândalo, Martha foi desacreditada e abandonada pela maioria de sua família, exceto por seu filho Jay. Pouco depois, John Mitchell foi condenado por perjúrio, obstrução da justiça e conspiração por seu envolvimento no arrombamento de Watergate, servindo 19 meses em uma prisão federal. Ele e Martha nunca mais se viram.

O sequestro e ataque à Martha foi confirmado em 1975, pelo próprio segurança contratado por John. Segundo James W. McCord Jr., além do medo das informações que Martha estava relevando, assessores de Nixon tinham “ciúmes” da popularidade dela e procuraram maneiras de envergonhá-la. Depressiva, suicida e lidando com dependência química e de álcool, Martha Mitchel faleceu em 1976, em consequência de um câncer. Tinha apenas 57 anos. Para Julia Roberts, que tem cara de já estar entre as indicadas ao Emmy por sua atuação, seu silêncio forçado tem que ser corrigido. Por isso as fortes palavras das flores no seu funeral ganham outro contexto: “Martha estava certa”.

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