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Ana Claudia Paixão

A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood
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A Rainha que inspirou Rhaenyra Targaryen em ‘House of the Dragon’

Em 1153, a imperatriz Matilda começou a guerra civil que durou quase 20 anos para recuperar a Coroa da Inglaterra

Por Ana Claudia Paixão
30 set 2022, 08h11

O escritor George R. R. Martin é fã do que ele chama de “História popular”, que não tem narrativa acadêmica e que foca no drama humano. Em especial, ele gosta do período medieval, com batalhas, castelos e cavaleiros que discutem “honra” quando lutam por poder. Ele notoriamente usou elementos reais para inspirar sua complexa trama da franquia Game of Thrones. Para contar a história que virou a primeira série da franquia na HBO, o escritor citou o conflito da Guerra das Rosas como fonte, eternizado na cultura pop pelas peças de William Shakespeare. O conflito entre os Lancasters e os Yorks nasceu da disputa da ordem sucessória ao trono. Como sabemos, falou de sucessão? Tem drama garantido.

Basicamente, os elementos “reais” da Guerra das Rosas que estão em GOT são as famílias lutando pelo trono, com seus lemas e símbolos, alternando quem estava com a coroa. Chamada assim porque a Casa York usava a rosa branca como bandeira e os Lancasters, uma rosa vermelha, a disputa acabou com a derrota do Rei Ricardo III – um York – e a ascensão ao trono de Henry VII – um Tudor, lutando pelos Lancasters. Como George R. R. Martin explica no podcast oficial de House of the Dragon, ele não reconta a história em detalhes, apenas pega emprestado o elemento dramático que motivou o conflito.

Rhaenyra Targaryen, de 'House of the Dragon'
Assim como Rhaenyra, Matilda, foi ou teria sido (dependendo da análise), efetivamente a primeira rainha britânica. (HBO Max/Divulgação)

Como a fórmula deu certo em Game of Thrones, não seria diferente para House of the Dragon, onde ele volta a usar a história medieval britânica como fonte. A semente da Guerra das Rosas começou muitos anos antes, em um curto período conhecido como A Anarquia, que foi quando os nobres ingleses se uniram para impedir que uma mulher – herdeira legítima – subisse ao trono. A Imperatriz Matilda, é uma das figuras femininas conhecida como “she-wolf”, “loba” na tradução literal, mas “mulher predatória” no conceito patriarcal. Tudo porque ela lutou por seus direitos. Mas estou me atropelando. 

Matilda, foi ou teria sido (dependendo da análise), efetivamente a primeira rainha britânica, mas entrou para a os livros como uma das mais ferozes mulheres de todos os tempos. Os elementos da trajetória que o escritor usou desse período histórico em House of the Dragon são primordialmente dois: o da ordem sucessória questionada para evitar a ascensão de uma mulher e o da guerra civil que o impasse gerou. De alguma forma até podemos dizer que Rhaenyra Targaryen existiu.

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Quem foi Matilda? Neta de Guilherme, o Conquistador, e filha de Henry I, Matilda só entrou na linha sucessória quando seu irmão mais velho, William, se afogou em um evento conhecido como o desastre do Navio Branco, no ano de 1120. Sem outros filhos homens, Henry I fez de sua filha oficialmente a sucessora. Sua ousadia não foi bem recebida pelos nobres. A aristocracia era firme em acreditar que seu gênero – uma mulher! – a fazia incapaz de assumir a responsabilidade do título porque frequentemente os Reis eram obrigados a literalmente lutar para manter sua posição, como ela faria isso? Mas, com medo do Rei, ficaram quietos e aceitaram. Há exatos 895 anos, em uma cerimônia oficial em Westminsters Hall, os nobres se juntaram e juraram lealdade à Matilda (a cena foi copiada no primeiro episódio de House of the Dragon).

Herdeira ou não, como todas mulheres de seu tempo, o destino de Matilda era decidido pelo seu pai. Foi casada pela 1ª vez quando tinha apenas 8 anos, como parte de uma aliança política. Ficou viúva aos 23 (no ano em que foi anunciada como próxima Rainha), mas, como era jovem, foi novamente casada à força, desta vez com Geoffrey Plantagenet, um jovem de 15 anos. A ideia de Henry I era de que sua coroa fosse para um filho homem de Matilda e parecia ser um bom plano porque em 1133 nasceu Henry II.

Porém, quando o Rei morreu apenas dois anos depois, em 1135, a imperatriz estava grávida de novo e, como vivia na Normandia com o marido, não pôde viajar imediatamente para sua coroação. Um primo – Stephen de Blois – se aproveitou. Afirmou que Henry I tinha mudado de ideia em seu leito de morte e o reconhecido como seu sucessor no lugar da filha. Os nobres nem questionaram a veracidade da conversa, felizes de manter a ordem das coisas. Todos subestimaram a reação de Matilda. Indignada, ela se recusou a aceitar o golpe e decidiu lutar pela coroa, deflagrando uma guerra civil que durou 19 anos, com batalhas e cercos nos quais ambos lados se revezavam entre vitórias e derrotas.

imperatriz que inspirou Rhaenyra Targaryen, de 'House of the Dragon'
A Imperatriz Matilda, em quadro entitulado ‘The Lady of the English’. (Print Collector/Getty Images)

(SPOILER: para quem não leu o livro, House of the Dragon terá algo parecido). Em determinado momento, Stephen foi capturado, mas libertado por Matilda em uma troca de prisioneiros. Ela chegou a ter a coroa, mas ficou pouco tempo no trono pois uma rebelião provocada por traidores entre seu círculo a forçou a fugir de Londres. Quem leu a trajetória de Rhaenyra, vê todos os paralelos que ainda virão acontecer na série, mas um dos fatos mais conhecidos de Matilda nem a ficção ousou copiar. Quando esteve sitiada por 3 meses no Castelo de Oxford, no inverno de 1142, ela aproveitou uma noite gelada de dezembro, se enrolou em uma capa branca e se esgueirou desapercebida pelas linhas inimigas. Segundo consta, porque estava de branco e havia uma espessa nevasca, ninguém a viu fugir. Há a versão que ela foi além: usando patins de gelo, fugiu pelo rio Tâmisa congelado até a segurança do Castelo de Wallingford. Pena que Rhaenyra não viverá algo parecido (outra personagem vai).

George R. R. Martin também gosta de deixar claro em seus livros, em especial Fogo e Sangue, que quando o narrador é homem, o texto é forçosamente machista e aqui está um dos lados interessantes da obra, pois o autor nos lembra o tempo todo para desconfiar de quem conta a história. Isso também é uma inspiração na lenda de Matilda que foi retratada como uma mulher orgulhosa e arrogante, mandona e mimada quando tentava fazer as mesmas coisas que um homem faria. Mesmo impopular entre seus súditos, ela não desistiu de seus direitos. Em 1153, assinou um tratado de Paz com Stephen, estabelecendo que seu filho Henry II seria o sucessor. Stephen aceitou e, curiosamente, menos de um ano depois, morreu.

Dessa vez, como o herdeiro era homem, não houve golpe. Henry II deu início à linha dos reis plantagenetas, uma linhagem que acabaria justamente na Guerra das Rosas. Tecnicamente, Matilda não venceu as batalhas, mas sem dúvida venceu a guerra. Viveu até 1167, desfrutando de mais de 10 anos do reinado de seu filho antes de morrer. Claro que a vida de Henry II, casado com outra mulher mal falada na História, Eleanor de Aquitaine, também gerou contos de traições, guerras e sangue, eternizadas em peças teatrais, livros e filmes. Mas é o espírito de Matilda que está em todas as cenas de House of the Dragon, espelhando seu destino em Rhaenyra Targaryen. Mesmo conhecendo a História de Matilda, há margem para surpresas, nem tudo foi spoiler aqui. A série da HBO fica ainda mais interessante com esse paralelo, aposto!

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