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Tradição familiar: a jornada de Rafaela Stedile na Bontempo

Filha de um dos fundadores, começou na produção aos 17 anos, sem privilégios, e se prepara para comandar a fabricante de móveis de alto padrão

Por Carol Castro 2 nov 2026, 13h00
Mulher de cabelos castanhos, sorrindo e olhando para a direita, vestindo blazer branco sobre blusa preta de gola alta e colar com pingente. Ela está em um ambiente com parede e coluna de concreto.
Conheça a trajetória de Rafaela Stedile, que começou no chão de fábrica e hoje dirige o mercado da empresa familiar Bontempo (Wesley Diego Emes/Divulgação)
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Tradição familiar: a jornada de Rafaela Stedile na Bontempo Priorizar nos meus resultados Google

A fábrica da Bontempo, em São Marcos, no Rio Grande do Sul,  era um parque de diversões para Rafaela Stedile. Ela brincava pelos escritórios, se escondia entre os móveis do showroom, e transformava em carrinho as vagonetas que levavam a madeira pelos trilhos na linha de produção. A família vivia tanto por ali que uma das primeiras fotos dela é com os pais no jardim da empresa.

“Eu nem entendia o que a Bontempo era ainda. Era um lugar aonde eu ia para me divertir”, relembra Rafaela.

É que desde sempre a Bontempo acompanha a história de Rafaela. Aos 19 anos, o pai, Rudimar, abriu a empresa ao lado dos irmãos Rosmar e Rudinei. Eles produziam guarda-sóis, almofadas, cadeiras e estantes coloniais. 

A produção de móveis não era bem uma novidade na família. A tradição começou com o tetravô de Rafaela, ainda no fim do século 19 – ele trabalhava em uma oficina de cadeiras no norte da Itália, antes de partir com a família para o Rio Grande do Sul. Aqui, retomou as atividades. 

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O ofício passou de geração em geração até chegar ao lançamento da Bontempo (o nome é uma homenagem aos móveis de jardim feitos por Remy, avô de Rafaela), em 1978. E ali floresceu: os irmãos expandiram o portfólio da fábrica, passaram a vender em lojas multimarcas Brasil afora, até montarem a sua própria marca de franquia, em 1990. 

Mulher loira, de blazer branco, blusa preta e calça cinza, em pé sobre um piso de concreto, olhando para cima com expressão séria. A luz do sol cria uma sombra diagonal no canto superior direito.
Rafaela Stedile começou como auxiliar de produção na Bontempo e hoje é diretora de mercado da empresa fundada pelo pai e pelos tios (Wesley Diego Emes/Divulgação)
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“Meu pai sempre trabalhou muito. Cresci vendo ele trabalhar sempre. Minha mãe é enfermeira, também foi professora universitária. Ela é PhD, sou muito fã. Eu via o trabalho como uma fonte de realização muito grande para eles. E sempre quis que fosse assim para mim também”, conta Rafaela.

Quando Rafaela terminou o ensino médio, em 2007, a Bontempo já não era a fábrica de guarda-sóis do começo. Era uma marca consolidada no país todo – e começava a fabricar móveis planejados de alto padrão. E foi nessa nova Bontempo que Rafaela fez sua estreia. Mas o pai a avisou: não teria privilégios, começaria pelas primeiras funções, como qualquer outro funcionário.

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Chão de fábrica

Rafaela começou como auxiliar de produção. Em dois anos, passou por todas as etapas da fábrica: ajudou nas máquinas de corte, colou bordas, trabalhou na prensa que fixa a lâmina na chapa, lixou e pintou peças, revisou acabamentos. Tinha hora para chegar e para sair, não podia faltar, e respondia a um supervisor. À noite, cursava comércio exterior.

O pai levou a regra a sério mesmo em casos de doença. Um dia, Rafaela, que já havia tido episódios de pressão baixa, passou mal na fábrica. Correram para chamar o pai que, prontamente, perguntou: “o que vocês fariam com qualquer outro funcionário? Façam exatamente isso”. 

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“Acho que ele foi muito sábio. Foi assim que eu me apaixonei pelo processo da empresa, pelo produto que a gente faz, e não só pelo que a empresa pode gerar”, diz ela. 

Ela saiu da fábrica e entrou para o escritório, como auxiliar administrativa. Mas ainda não tinha definido de vez qual seria seu caminho profissional. Trocou o curso de comércio exterior por moda – e a área administrativa pelo marketing da Bontempo. 

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“Quando as pessoas me perguntavam qual área da moda eu gostava, com qual eu queria trabalhar, sempre respondia que queria ter uma empresa. Até que percebi: quero ter uma empresa, mas eu já amo a empresa onde trabalho, para que vou sair? Abandonei o curso de moda e me formei em administração.”

Da indústria à marca

Mulher de cabelos castanhos claros, sorrindo e olhando para a direita, vestindo blazer branco, blusa preta de gola alta e calça cinza, em frente a uma parede de concreto com uma coluna à direita
Rafaela Stedile idealizou a Casa Bontempo, inaugurada em São Paulo em 2025, que reúne arquitetura, design, arte e gastronomia (Wesley Diego Emes/Divulgação)

O marketing que Rafaela encontrou era pequeno e dialogava mais com a fábrica do que com o mercado. Como tantas empresas, a Bontempo tinha crescido de olho na matéria-prima e na qualidade. Ela entendeu que a empresa poderia ir além: se fortalecer ainda mais como marca, não apenas como indústria. 

“Comecei a entender, junto com a equipe, que a gente não era só uma indústria, a gente era uma marca. E, para chegarmos onde queríamos, precisávamos nos entender enquanto marca, ter uma proximidade muito maior com o mercado. Quais são as necessidades do mercado e como a gente se adapta, enquanto indústria, a elas para seguir relevante a esse público?”

Em 2010, a empresa começou uma pesquisa pelo Brasil inteiro. O estudo levou três anos e virou a Bontempo do avesso: mudou o posicionamento da marca, a linha de produtos, as máquinas e os processos da fábrica. Em 2013, chegou às lojas o resultado: móveis em qualquer largura, altura e profundidade, na cor que o cliente quisesse. “Eu já tinha carinho pela empresa. Mas ver uma ideia sair do papel, planejar lá na frente e ver acontecer, isso me fez me apaixonar ainda mais pelo trabalho.”

Enquanto isso, ela subia: de assistente a analista e depois a responsável pelo marketing. Quando o irmão seguiu o sonho de ser fisioterapeuta, ela entendeu que o futuro da empresa estaria mesmo em suas mãos. Seguiu uma lista traçada pelo pai e pelos tios para se preparar: cursos, setores para conhecer, áreas para assumir, entregas para fazer.

“Não foi fácil. As pessoas esperavam que eu soubesse tudo, por ser herdeira do negócio. E eu não sabia. Por anos, me questionei se eu daria conta. Mas eu me preparei: entendi que precisaria estudar muito, trabalhar muito. Tinha certeza que era aquilo que eu queria”, conta.

No comando

A lista foi sendo riscada. Do marketing, Rafaela passou ao desenvolvimento de franquias, com a missão de fazer os treinamentos da rede. Em 2017, começou a desenhar com a equipe um programa de gestão da rede: manuais com tudo o que cada loja precisa fazer para entregar a mesma experiência Bontempo e uma avaliação a cada três meses, que dá vantagens às franquias mais bem colocadas. Hoje são 55 unidades: 50 no Brasil e cinco no exterior.

“Essa forma diferente de analisar a nossa rede de franquias é uma das coisas mais legais que eu trouxe para dentro da Bontempo. Não é uma coisa que aparece, mas é o que dá muita base para a empresa, é muito voltado para resultado, manutenção de resultado e perpetuação do negócio. Então a gente tem um acompanhamento das nossas franquias.”

O projeto mais visível também nasceu com ela. Em 2018, começou a defender um espaço em São Paulo que não fosse loja, mas a marca materializada, com uma mistura de arquitetura, design, arte e gastronomia, aberto a clientes, parceiros e até a eventos de outras marcas. Convencer um conselho de administração a investir alto em algo que não gera faturamento direto exigiu costura. A Casa Bontempo abriu as portas sete anos depois, em 2025.

Rafaela segue atualmente como diretora de mercado da Bontempo, enquanto o pai, aos 67 anos, ainda rege o ofício familiar como CEO e presidente do conselho. E a fábrica continua sendo o parque de diversões das novas gerações. 

“Quando meus dois sobrinhos menores vêm nos visitar, aos finais de semana, vamos na fábrica. E eles adoram. Cada um vai para uma sala e liga para o outro. Minha sobrinha mais velha, que está terminando o ensino médio, disse que será diretora da Bontempo”, brinca Rafaela.

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