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Luiza Helena Trajano: “Não podemos tratar assédio como brincadeira”

Durante o Fórum CLAUDIA #EuTenhoDireito, presidente do conselho da rede Magazine Luiza apresentou pesquisa inédita sobre assédio sexual e moral no trabalho

Por Clara Novais Atualizado em 4 abr 2018, 18h16 - Publicado em 6 mar 2018, 15h24

Sempre em busca de iniciativas que ajudem a empoderar outras mulheres em suas carreiras, Luiza Helena Trajano, presidente do conselho da rede varejista Magazine Luiza, abraçou recentemente uma bandeira: o enfrentamento da violência contra a mulher. Em seu discurso no Fórum CLAUDIA #EuTenhoDireito, onde mais de 20 presidentes de empresas compartilham o palco, nesta terça-feira (06), em São Paulo, Luiza divulgou uma pesquisa inédita sobre assédio nas empresas.

Leia mais: Elas encontraram um caminho para discutir questões importantes

Tudo começou há cerca de 8 meses, quando Luiza ficou sabendo que uma gerente de 37 anos foi assassinada pelo marido dentro de casa. “Eu sempre falo: se for grave, me telefona na hora. No outro dia, eu já chamei o pessoal todo para conversar. Uma semana depois, montei um comitê. Eu fiquei muito assustada”, compartilhou.

A partir disso, a executiva, que já faz campanhas contra a violência doméstica dentro da empresa, decidiu focar em outro tipo de violência recorrente na vida de muitas mulheres: o assédio moral e sexual no trabalho. “A gente não conversa sobre isso. Vocês já repararam?“, questionou Luiza.

De acordo com dados do Tribunal Superior do Trabalho, foram registrados 22.574 novos casos de assédio moral nos dois primeiros meses de 2017. Segundo levantamento do Vagas.com em 2015, 40% dos profissionais não fazem denúncia formal por medo de perder o emprego.

Luiza defende que combater o assédio moral e sexual é tarefa de todos. Por isso, foi desenvolvida uma pesquisa com os funcionários do Magazine Luiza com o objetivo de melhorar o clima no ambiente de trabalho para todos.

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Ciente de que muitas pessoas não se sentem confortáveis em falar nesses assuntos, a participação dos funcionários foi compulsória. Por isso, 936 grupos responderam, tendo 18 mil colaboradores participando da pesquisa. Para ajudar a computar e analisar os dados coletados, Luiza convidou a agência de consultoria feminina Think Eva.

Percebeu-se que assédio moral e sexual não são compreendidos com a mesma facilidade e profundidade. O vocabulário usado pelos entrevistados para expressar seu entendimento sobre assédio moral foi amplo e bem distribuído. Já no caso do assédio sexual, algumas palavras específicas tiveram enorme incidência. Além disso, 0,9% não soube responder o que é assédio moral, enquanto 3% tiveram o mesmo problema para falar de assédio sexual.

A pesquisa concluiu que esse resultado é reflexo da forma como os temas são trabalhados no cotidiano. Enquanto assédio moral é previsto em lei, debatido nas empresas e trabalhado há mais tempo, assédio sexual segue sendo um tabu, encarado como “brincadeira” (essa foi a palavra mais usada para conceituar o comportamento) e sem ser tipificado pelo código penal.

FORUM CLAUDIA-LUIZA-TRAJANO1
Ricardo Toscani/CLAUDIA

“Ultrapassar o limite” é um conceito bastante citado para assédio sexual. No entanto, o entendimento sobre limite segue sendo muito vago. Além disso, notou-se que, ao conceituar assédio sexual, muitas pessoas responsabilizam a mulher.

“No Magazine Luiza, esse tipo de comportamento já era inaceitável”, defendeu. No entanto, a executiva disse que se surpreendeu com os resultados. “Até na nossa empresa [o assédio] é mais sério do que parece.” Por esse motivo, os líderes da empresa se reunirão todos os meses para discutir o assunto e pensar em boas práticas. Além do mais, Luiza pretende formatar um formulário para que outras empresas apliquem a mesma pesquisa a seus funcionários.

Antes de encerrar, ela propôs um pacto às mulheres presentes a fim de fortalecer uma mudança social sobre a forma que assédio sexual, moral e violência contra a mulher são vistos. “Vamos tomar muito cuidado com o nosso tipo de humor e com o dos outros”, disse. “Isso é muito sério. Não vamos mais aceitar a justificativa ‘é só brincadeira’. Se é brincadeira, então nem fala.”

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