Como uma jovem garantiu uma vaga em meio ao desemprego no Brasil?

Marina Bueno entrou via programa de aprendizes em uma rede de varejo aos 15 anos e hoje tem um cargo estratégico numa grande companhia

No Brasil de 13 milhões de desempregados, como a filha de um pedreiro e de uma cabeleireira garantiu o cargo de Coordenadora de Gestão de Pessoas no Magazine Luiza, uma das maiores redes varejistas do país? A história de Marina Bueno ensina que determinação aliada à capacitação tem grandes chances de dar certo. 

Inquieta, aos 15 anos ela tomou sozinha a iniciativa de ir até o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) de Franca, no interior de São Paulo, onde mora. Ali fez seu cadastro no Jovem Aprendiz, um programa regulamentado em 2005 a partir da Lei da Aprendizagem. Não demorou para que uma resposta positiva chegasse: ela integraria o time da rede para aprender o máximo que pudesse. 

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“Quando via a loja, não imaginava o mundo de oportunidades que existia atrás daquelas portas”, confidencia. Como jovem aprendiz, Marina foi para a área de RH da empresa e passou a trabalhar com profissionais da psicologia, contato que mudaria para sempre sua vida. “Conheci tanto psicólogos quanto estudantes. Fui lendo textos, me interessando pelo assunto, até que me apaixonei pelo tema. Depois que terminei o Ensino Médio, decidi cursar psicologia.”

Marina conseguiu uma bolsa de estudos na universidade que cobria cerca de metade do valor da mensalidade. A outra parte ela pagava com o salário que recebia. Gradativamente, foi crescendo dentro da empresa, formou-se e hoje, aos 26 anos, elenca o quadro de funcionários da rede.

Porta de entrada 

Sua trajetória assemelha-se a de milhares de outros jovens que garantiram uma ocupação remunerada graças ao Jovem Aprendiz. “O programa é a principal porta de entrada para o mercado de trabalho”, explica Rodrigo Dib, CEO do Instituto Proa. Há inclusive uma lei que determina que empresas reservem 4% de suas vagas a jovens e adolescentes. Para ser contratado, é preciso ter entre 14 e 24 anos. 

Para Rodrigo, a experiência que a iniciativa proporciona é transformadora. Isso porque há um acompanhamento durante o processo. “Não é simplesmente colocar o jovem para trabalhar. Há uma preocupação em qualificá-lo”, explica. Ao conseguir uma vaga por meio do programa, o beneficiário deve também comparecer a alguma entidade de aprendizagem, que irá fornecer orientação teórica acerca do mercado de trabalho.

Marina passou pela formação. “O curso ajuda o jovem a se localizar porque ele entra na empresa sem saber nada, então os instrutores auxiliam a entender e a como lidar com o ambiente corporativo”, afirma. 

Houve um aumento expressivo no número de contratados. Em 2010 eram 193 mil e em 2017, o número saltou para 383 mil. Mas o desafio ainda é grande: atualmente, mais de 7 milhões de jovens de 18 a 24 anos são subutilizados – ou seja, estão desempregados, desistiram de procurar emprego ou têm disponibilidade para trabalhar por mais horas na semana, mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (Pnad). 

Parte do problema pode ser explicado pelo desconhecimento acerca da iniciativa. Muitos adolescentes, jovens e mesmo os pais nunca ouviram falar do programa. Para o executivo, falta uma maior divulgação, que poderia ser feita inclusive dentro das escolas públicas.

Quem consegue raramente deixa a chance escapar. “O que não faltam são exemplos de jovens que entram em empresas por meio do programa, demonstram seu valor, conseguem ser efetivados, vão para a faculdade e depois iniciam um estágio em sua área de atuação. Isso acontece todos os dias. A partir do momento em que há oportunidade, o jovem agarra com todas as forças”, afirma Rodrigo.

Se é bom para o jovem, que aprende um ofício e se insere no mercado formal, é proveitoso também para a empresa, que pode incutir valores importantes da cultura da companhia, cultivando assim funcionários estratégicos para o negócio. Além, é claro, de movimentar a economia do país. “Ao gerar renda, gera-se consumo e mais oportunidades”, diz.   

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