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Dos dois lados da mesa: ex-diretora do WhatsApp cria ONG para combater Big Techs

Ex-diretora do WhatsApp Brasil, Daniela da Silva explica sua saída da Meta e como criou a Control Z para combater o poder das big techs

Por Carol Castro 13 jul 2026, 12h44
Mulher de pele clara, cabelo castanho preso, vestindo um elegante macacão azul royal sem mangas e brincos de argola dourados, sentada e sorrindo levemente para a câmera. Ela tem uma tatuagem de folhas no braço esquerdo. Ao fundo, um banner branco com detalhes em vermelho e amarelo
Daniela da Silva deixou a Meta por discordar da política "anti-censura" de Zuckerberg (Divulgação/Divulgação)
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A breve história de Daniela da Silva com a Meta acabou em janeiro de 2025. Ela não deu conta de engolir as ideias “anti-censura” de Mark Zuckerberg, CEO da Meta. Donald Trump assumia, pela segunda vez, a Presidência dos Estados Unidos e Zuckerberg afirmou que a empresa havia passado por uma “inflexão cultural”. 

Na prática, ele acabou com os sistemas de checagem de fatos realizados por agências independentes – eram elas que colocavam selos de “fake news” em posts mentirosos. E, como se as redes fossem capazes de se autorregular, transferiu a responsabilidade para os próprios usuários, que denunciam e apontam possíveis mentiras nas postagens.

A decisão de Zuckerberg foi o estopim que faltava para abandonar a direção do departamento de políticas públicas do WhatsApp no Brasil. “Eu sentia que a gente tinha pouca capacidade de influenciar mudanças mais sistêmicas. Existe o mito de que toda inovação será boa. Então, primeiro a gente constrói, depois a gente entende quais são as consequências daquilo no mundo real”, conta. 

“E eu representava a política, os estados, as pessoas, o mundo jurídico, as leis. Era frustrante ter que lidar com essa tensão constantemente. E poucas vezes a segurança dos usuários era o princípio mais importante a ser levado em conta.”

Antes de bater a porta, Daniela fez questão de tornar pública a razão da saída. Poucos meses depois, atravessaria o balcão mais uma vez, agora no sentido inverso: fundaria a Control Z, organização criada para enfrentar as big techs no Brasil.

Do outro lado

Mulher de cabelo preso, blusa azul sem mangas e calça azul, sentada em um banco de madeira, sorrindo para a câmera. Ao fundo, um banner vermelho com a frase NO QUE VOCÊ DARIA CTRL+Z? em letras amarelas e brancas
Ela fundou a Control Z para enfrentar as big techs no Brasil (Divulgação/Divulgação)

Formada em jornalismo, Daniela entrou na editora Abril. Mas não como repórter – como analista de tecnologia. “Sempre gostei de trabalhos mais criativos, mais disruptivos. Por isso, a internet me chamou a atenção. Essa interação entre tecnologia, internet, política e sociedade foi algo que transpassou minha carreira inteira”, relembra.

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Lá, ajudou a fundar o site Planeta Sustentável, uma das primeiras marcas digitais da editora, num momento em que a própria linguagem de vídeo na internet ainda era novidade. Para se ter ideia, o YouTube tinha acabado de nascer. Passaria depois pelo Universia, Editora Moderna, e TV Cultura – sempre dentro da área multimídia.

Enquanto ainda iniciava a trajetória profissional, Daniela começou a circular por comunidades de blogueiros e de software livre. Entrou, então, em um mestrado na faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. E a dissertação tinha tudo a ver com a escolha profissional dela: como as tecnologias de informação e comunicação reconfiguram a transparência no campo político.

Nos anos seguintes, Daniela ajudou a fundar a Casa da Cultura Digital, na capital paulista, um coletivo que reunia gente de fotografia, vídeo online e ativismo digital. Lá, ela tocava uma pequena startup chamada Esfera, dedicada à transparência pública – o grupo teve papel ativo na articulação da Lei de Acesso à Informação, aprovada em 2011. Foi quando ganhou o mundo, com convite para dar palestras e prestar consultorias.

“O Brasil era protagonista nessa agenda, tínhamos aprovado o Marco Civil da Internet, por exemplo. A forma multissetorial de governança da internet, que não é privada, chamava a atenção das redes internacionais. Entre palestras e consultorias que fiz no exterior, me conectei com a Open [Society Foundations].”

Essa conexão rendeu a ela um convite para ser gestora de projetos na Open Society – rede filantrópica que financia projetos voltados à defesa dos direitos humanos, democracia, justiça e transparência governamental. 

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Achou que fosse ficar uns dois anos por lá e só. Ficou quase dez – os dois primeiros morando em Nova York e o restante no Rio de Janeiro. Nesse longo período trabalhou com tudo: tecnologia cívica, direitos digitais, combate à vigilância em massa e à desinformação. 

Por mais que gostasse do trabalho, Daniela sentia que estava sempre um passo atrás – num esforço de tentar influenciar decisões que já haviam sido tomadas há muito tempo pelas empresas. E, lá dentro, poderia influenciar ainda mais pessoas. Foi aí que a proposta do WhatsApp a conquistou.

“O WhatsApp tem 200 milhões de usuários no Brasil, eu pensei: ‘vou ter lugar de fala para influenciar essas milhões de pessoas. Aceitei também pelo plano de carreira. Não tem como uma pessoa preocupada e apaixonada pelo campo da tecnologia não trabalhar em uma big tech, para conhecê-las por dentro”, justifica.

Não deu tão certo quanto imaginou. Frustrada, Daniela saiu da empresa, sem saber qual seria o próximo destino. “Eu falei para os meus colegas que queria dar um tempo longe da política pública. Falei que eles nem ouviriam mais falar de mim, que eu não voltaria para a sociedade civil. Talvez eu abrisse até uma confeitaria.”

Da frustração à criação

No período quase sabático, Daniela se encontrava com colegas para tomar um café. Queria saber quais eram os planos profissionais deles – sem qualquer intenção de retornar ao trabalho tão cedo. Mas um desses encontros mexeu com ela, a ponto de chegar em casa e comentar com a mãe: ‘acho que vou virar ‘ongueira’.”

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O papo transformador era com Pedro Telles. Ele contou sobre um grupo que tentava estruturar um projeto de enfrentamento às big techs no Brasil, havia mais ou menos um ano. Mas não conseguiam tirá-lo do papel de vez porque todos estavam focados em seus empregos. 

“Eles tinham esse projeto desenhado, mas não tinha ninguém que fosse lá e transformasse em algo real. Aí ele me disse: ‘com você saindo da meta, da forma como saiu, pode ser que você possa ser a pessoa à frente desse projeto. Saí muito mexida desse café”, relembra.

Ela topou. No caminho, encontrou velhos conhecidos entre os profissionais envolvidos com o projeto. Luã Cruz, então diretor de litigância estratégica no Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), havia participado de ações contra a Meta. E Tatiana Dias, sua colega de faculdade, que fazia parte da equipe do Intercept Brasil, e investigava as big techs havia anos.

O nascimento da Control Z

Juntos, os três deram vida à Control Z. E definiram suas frentes de atuação. A primeira é investigação: a organização colocou no ar a “Vaza Big Tech”, plataforma acessível via Tor, um navegador que garante anonimato, para receber denúncias e documentos de quem trabalha ou trabalhou no setor de tecnologia, sem expor a identidade da fonte.

A segunda é litigância estratégica: ações judiciais que buscam responsabilizar plataformas por danos causados a usuários. Um dos casos em andamento envolve a Gazeta de Várzea Grande, jornal comunitário de quase 50 anos que teve a página no Facebook suspensa depois de anunciar uma vaga de emprego. A Meta classificou o anúncio como fraude. Uma liminar já determinou a reativação da página, mas, segundo Daniela, a Meta segue descumprindo a decisão.

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A terceira frente é mobilização: transformar o tema num debate público, não restrito a advogados e reguladores. Por isso a escolha de ocupar as redes que tanto criticam e outras menos populares, como a Bluesky e Mastodon.

No dia 10 de abril deste ano, a Control Z foi oficialmente lançada. E, do lado de cá do jogo, se reencontrou com seus propósitos – que nunca se encaixaram com a Meta. “Não me arrependo de ter ido, mas entendi que não é o que eu quero fazer para o meu futuro. Eu quero continuar trabalhando com propósito”, conclui.

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