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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

Como diferenciar fato de opinião e a importância de ensinar isso a jovens

"É necessário saber separar o discutível do indiscutível. Os acontecimentos das ideias pessoais". Veja as dicas de Stéphanie Habrich sobre como fazer isso

Por Stéphanie Habrich - Atualizado em 29 set 2020, 16h32 - Publicado em 29 set 2020, 18h00

No último texto da coluna falei sobre o significado da educação midiática e a importância dela na formação de crianças e adolescentes. Hoje, vou aprofundar um pouco mais esse conceito e tratar de uma questão muito abordada pela educação midiática: a habilidade de saber diferenciar fato de opinião.

Quando falamos que uma árvore caiu na Avenida Paulista ou que uma explosão ocorreu na capital do Líbano, estamos relatando fatos. Não há discussão em relação à sua natureza: temos provas de que eles aconteceram. Agora, se dizemos que a árvore era bonita ou que a explosão foi o incidente mais grave da semana no mundo, não estamos apresentando fatos. Estamos emitindo a nossa opinião a respeito de um determinado acontecimento.

Falando dessa forma pode parecer fácil distinguir acontecimentos de pontos de vista, mas, na prática, ainda temos muito o que avançar nesse quesito. Um relatório de habilidades de leitura feito pela Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2019, mostrou que apenas 10% dos jovens do mundo conseguem distinguir fato de opinião. No Brasil, a porcentagem dos que têm essa habilidade é de 2% – jovens de baixa renda não foram incluídos na amostragem.

Como a educação midiática pode ajudar a mudar esse cenário?  Não existe receita de bolo para ensinar a diferenciar fato de opinião. Mas a educação midiática propõe alguns caminhos para auxiliar educadores, pais e responsáveis nesse sentido.

Um deles é explicar para as crianças e adolescentes como o jornalismo funciona e como os jornalistas apuram os fatos. A ideia é fazer com que os jovens entendam que, para levar uma informação para o leitor/telespectador/ouvinte, o jornalista realiza uma ampla pesquisa. Isso inclui entrevistas com especialistas, checagem de dados e fontes, visitas a locais que têm relação com o assunto da matéria, entre outros pontos.

Assim, o jovem perceberá que para identificar e noticiar um fato é preciso fazer um trabalho minucioso, que não pode ser realizado sem uma checagem precisa dos elementos que compõem aquele acontecimento. Na internet, há vários conteúdos que se dizem jornalísticos, mas que, na verdade, são fruto de uma apuração rasa. É preciso que os jovens estejam conscientes disso para que não se deixem levar por tudo o que encontram na rede.

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Entre os mais novos, uma forma de levá-los a entender como o jornalismo profissional funciona é promover encontros com jornalistas. No Joca, jornal para crianças e jovens que fundei há quase dez anos, periodicamente realizamos oficinas em que os nossos jornalistas conversam com crianças leitoras do jornal. Assim, elas tiram dúvidas e aprendem sobre os processos de produção de um periódico – como as pautas são escolhidas, como é feita a checagem dos fatos, como os textos são editados, entre outros aspectos.

A partir desse entendimento, crianças e adolescentes passam a ter mais recursos para formar a própria opinião a partir dos acontecimentos que lhes forem apresentados. Ou seja, eles verão um fato no jornal e saberão que aquilo aconteceu – não há dúvidas, porque aquela informação foi checada por uma equipe de profissionais. Em posse desse conhecimento, e a partir do seu próprio exemplo, os jovens passam a compreender a diferença entre fato e opinião.

No Joca, muitas vezes, ao lado de uma notícia, inserimos um recurso chamado “O que eu penso sobre…”. Nele, jovens opinam sobre o fato que está sendo noticiado. Dessa forma, fica claro para o leitor que, de um lado, está o texto que narra o que aconteceu e, de outro, uma opinião.  Esse recurso também é uma forma de ensinar às crianças e adolescentes que fatos e opiniões não são a mesma coisa. Um aprendizado a ser levado pela vida: quando estiverem diante de conteúdos publicados em sites, redes sociais ou até mesmo outros jornais, esses jovens terão mais condições de identificar o que estão lendo, ouvindo ou assistindo.

Enfim, não há nada de errado em ter uma opinião sobre determinado fato. Pelo contrário. Essa prática estimula o senso crítico e ajuda a formar cidadãos mais conscientes. No entanto, é necessário saber separar o discutível do indiscutível. Os acontecimentos das ideias pessoais.

Abaixo, seguem algumas dicas de como ensinar os jovens (e até mesmo nós, adultos, por que não?) a diferenciar fatos de opiniões. Confira:

  • Verifique se há o nome de alguém ligado àquela opinião. Nos jornais, por exemplo, há seções em que colunistas apresentam o seu ponto de vista sobre assuntos variados. Os nomes dos colunistas geralmente aparecem em destaque. Nesse caso, aquele texto reflete a opinião da pessoa que escreveu a coluna, e não o ponto de vista do jornal como um todo.
  • Cheque se aquele veículo é uma fonte confiável, ou seja, se tem uma equipe profissional de jornalistas por trás dele. Veículos de pouca credibilidade tendem a misturar com mais frequência fatos com opiniões. Muitas vezes, utilizam esse artifício para levar as pessoas a adotar determinada maneira de pensar.
  • Tudo que é baseado em dados matemáticos ou científicos têm credibilidade, pois foi testado e comprovado muitas vezes, seguindo protocolos e procedimentos rígidos de checagem.
  • Cuidado com teorias conspiratórias. Muitas vezes, elas são apresentadas de forma passional, com a intenção de mexer com as emoções das pessoas. Sempre desconfie quando estiver diante de um conteúdo com forte apelo emocional.

Espero que essas dicas tenham ajudado! Vamos juntos construir um mundo em que os fatos e as opiniões não sejam confundidos. Quem sabe, assim, daqui a alguns anos, os relatórios de habilidades de leitura da OCDE não tragam resultados mais animadores?

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