CLIQUE E RECEBA EM CASA A PARTIR R$ 14,90/MÊS
Sofia Menegon Sofia Menegon é feminista, idealizadora da podcast Louva a Deusa e consultora em relacionamento e sexualidade

Fui traída, e agora?

"Se eu não tivesse aprendido que os relacionamentos são parte da minha identidade enquanto mulher, nunca teria carregado o fardo da culpa"

Por Sofia Menegon Atualizado em 16 set 2021, 16h18 - Publicado em 16 set 2021, 16h17

“A traição do meu marido foi a melhor coisa que aconteceu para a nossa relação”, disse uma conhecida à minha mãe, quando eu ainda era criança. Aquela frase permaneceu guardada em algum lugar da minha memória. Seria injusto dizer que isso me levou a ter relacionamentos em que era frequentemente traída, mas de certo foi um temperinho para que eu estivesse sempre em busca desses homens que traem.

Tive nove namorados até aqui. Fiquei sabendo de pelo menos quatro que me traíram. Alguns não se preocuparam em esconder, mas eu fazia de conta que não sabia.

Veja também: Bill Gates assume ter traído Melinda com funcionária da Microsoft

Foi preciso tempo, muita terapia e coragem para que essas feridas parassem de guiar minhas escolhas amorosas. Porque embora eu buscasse de alguma forma, e por vários motivos, esse tipo de companheiro, cada vez que a traição vinha à tona trazia com ela uma boa quantidade de medo, insegurança e incerteza.

Escrevo sobre isso, expondo minha história, porque elas ainda pedem para ser trabalhadas aqui dentro. E poderia ser diferente?

Sim. Acredito profundamente que, não fosse o conjunto de crenças formuladas a partir da monogamia compulsória, da influência cristã e de uma sociedade ainda tão mergulhada na ideia de posse, eu não estaria escrevendo sobre esse tema aqui. Não haveria uma cicatriz coçando dentro de mim.

Continua após a publicidade

Se eu não tivesse aprendido que os relacionamentos são parte da minha identidade enquanto mulher, que a responsabilidade sobre as relações é minha e que “o homem só procura lá fora o que não encontra em casa”, nunca teria carregado o pesado fardo da culpa.

Talvez, se não tivesse ouvido que deveria encontrar em uma única pessoa o colo, conchinha na hora de dormir, o tesão, as risadas e alguém para dividir as contas, não me sentiria tão incapaz de suprir todas essas necessidades dos meus parceiros. E então, não chamaria de traição as trocas entre eles e seus afetos.

Mas a verdade é que eu ainda me sinto traída porque os acordos rompidos eram outros e rompimentos nunca são brandos. Quando a confiança é violada, somos postas frente a frente com a possibilidade de não termos o controle da situação. Não controlamos o que sentimos e muito menos o que o outro sente. Diante dessa afirmação incômoda, é inevitável sentir-se nua e vulnerável.

E, mais uma vez, não aprendemos a encontrar conforto nessa posição. É provável mesmo que não exista conforto aí e esse seja justamente o segredo das grandes transformações.É essa sensação de desconforto que se faz presente aqui desse lado e me convence a tocar nas cicatrizes para que me familiarize com elas e um dia as reconheça como parte. Não porque me tornarão melhor, mas porque já não causarão dor.

Não posso te responder o que fazer a partir da traição. Essa é uma jornada iniciada sem mapa. Ainda estou desenhando o meu enquanto caminho. Posso apenas esperar que nos encontremos naquele ponto onde a liberdade já possa ser avistada. Até lá, seguimos.

  • Continua após a publicidade
    Publicidade