Um oásis nos trilhos

"Criemos nossos próprios vagões silenciosos, momentos de concentração e conexão com as nossas ideias que desejamos tanto e é tão difícil no dia a dia"

Dou um beijinho no filhote que ainda dorme, saio correndo de casa para o metrô, faço baldeação para o trem Nova York-Washington D.C. Hoje tem reunião com clientes às 11:00 da manhã lá e vou fazer um bate-e-volta. Ainda estou com sono, mas felizona por pegar o trem das 7:03 da manhã. Serão 3 horas de viagem. E ainda haverá mais 3 horas da viagem de volta no final do dia. Ansiosíssima. Pode parecer, mas não enlouqueci de vez.

Faço esse trajeto num trem chamado Acela, que seria um trem como outro qualquer, não fosse o maravilhoso vagão silencioso. Quiet car é o nome de um dos vagões desse trem, onde é proibido conversar, falar no telefone e fazer qualquer barulho. Um oásis nos trilhos, uma dádiva e benção na vida de uma mãe. E ainda tem ar-condicionado e wi-fi de graça. Três horas de pura concentração e produtividade, sozinha com meu computador e minha playlist -nos fones de ouvido, é claro. O que mais a pessoa pode querer numa terça-feira de manhã? Entendeu por que eu fico felizona?

É bem sinalizado, com plaquinhas para chamar a atenção dos desavisados que, mesmo assim, muitas vezes não prestam atenção e rapidinho são convidados a mudar de vagão com seus celulares que não param de tocar ou com seus colegas de trabalho com quem não param de conversar sobre aquele gráfico no Excel.

Afinal, o vagão ao lado tem até mesas onde as pessoas podem fazer reunião, dar uma risada bem alta, comprar e comer de boca aberta uma batata chips bem crocante (acabei de me dar conta que o ato de mastigar aqui nos Estados Unidos é algo que merece um artigo exclusivo).

Voltando ao assunto aqui, é tão sério o valor do silêncio neste vagão que outro dia um senhor adormeceu e começou a roncar tão alto -aquele ronco com apneia, seguido de tosse, que você não sabe se a pessoa vai morrer engasgada ou morrer porque você vai atirar um sapato na cabeça dela- que um outro senhor, muito gentilmente, foi lá acordá-lo: “- Meu camarada, este aqui é o vagão silencioso e infelizmente o seu sono está atrapalhando o silêncio que buscamos aqui”. Agradecimentos silenciosos dos demais passageiros, um suspiro de alívio e um sorriso no canto da boca. Não seria daquela vez que não conseguiria aproveitar o presente do silêncio.

Minha vida sempre foi corrida. E ficou mais ainda depois que me tornei mãe. Vida de mãe, né? Vamos combinar, é uma doideira. Mãe que trabalha fora, mãe que trabalha em casa, mãe que trabalha de casa, meio período, período inteiro, 2-3 turnos. Cada vida louca de um jeito, cada uma administrando suas prioridades como acha melhor. Aliás, quem foi que inventou esse absurdo de dizer que existe mãe que não trabalha? Me apresenta uma que dou um prêmio. Independentemente do formato, é um luxo ter silêncio e tempo para si mesma.

Na minha rotina, por exemplo, estou sempre falando e tem sempre alguém falando comigo. É de manhã em casa aprontando filho pra escola enquanto passo a maquiagem e me arrumo pro trabalho. Grito lá do banheiro: “- Meu filho, já terminou o cereal? Se veste! Vem escovar os dentes! O quê? Tá de pijama ainda???” Depois de deixar ele na escola, onde passo 30 minutos toda manhã na sala de aula brincando e conversando com ele, seus colegas, professores e outros pais, falo ao telefone com minha família e amigos no Brasil a caminho do trabalho para saber como estão as coisas. Chego ao escritório para uma média de 6 reuniões por dia entre conversas presenciais, por telefone e apresentações via videoconferência.

O dia inteiro dando opiniões, apagando incêndio, conciliando as pessoas e fazendo as coisas funcionarem. Tudo com as palavras, falando e ouvindo sem parar. No final do dia, alguns dias por semana, dou mentoria por Skype para mulheres que estão no mundo inteiro, do Líbano ao Rio de Janeiro. Ou converso com a minha coach que mora na Irlanda ou minha mentora que mora em São Paulo. Volto pra casa, a mesma coisa. A famosa briga pelo controle remoto, dar jantar pra criança, inventar uma brincadeira no banho da criança e contar duas histórias na hora de dormir – ler um livro seguido de uma história de quando a mamãe era criança, já com a luz apagada.

As viagens no vagão silencioso me fazem pensar como esses momentos são importantes pra mim. Independente se é para trabalhar e produzir em paz, para relaxar, meditar ou para não fazer absolutamente nada. São momentos em que fico comigo mesma e aproveito minha companhia para organizar as ideias. T

Toda vez que conto sobre o vagão silencioso para as amigas mães, a reação é sempre a mesma: “- Ahhhh Lau, que luxo! Também quero!”. De alguma forma, a gente vai colocando um monte de coisas na frente de nós mesmas na listinha de prioridades. Os itens relativos à família e ao trabalho lá em cima, itens relativos aos amigos, à casa e por aí vai. Parece que estarmos na prioridade é um luxo, um sonho, ou um crime previsto no código penal.

Fico pensando que socialmente quando as pessoas falam sobre uma mãe equilibrar a vida profissional e pessoal, o pessoal quer dizer exclusivamente a atenção aos filhos – e ao parceiro(a), quando a mulher é casada. E acabou aí a vida pessoal. Pera aí, como assim? Sai pra lá, que a vida é muito mais que isso e os nossos interesses pessoais merecem a mesma atenção e protagonismo.

Criemos nossos próprios vagões silenciosos, momentos de concentração e conexão com as nossas ideias que desejamos tanto e é tão difícil no dia a dia. Num café da rua ao lado, de madrugada, num parque ou numa casinha de sapê. Somos capazes de tantas coisas que podemos ser capazes de nos dar esse presente.

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