Meu filho faz dinheiro

Aqui nos Estados Unidos, tema faz parte natural dos assuntos discutidos no cotidiano da escola

“Larga as moedas, menino!” Eu e o Fabio, meu ex-marido, sempre fomos chatos sobre o meu filho ficar com cédulas de dinheiro e moedas na mão. Aprendemos que dinheiro é sujo, passa por muitas mãos e lugares, não gostávamos que o nosso filho ficasse segurando por muito tempo e sempre fizemos com que ele lavasse as mãos depois de manusear as moedinhas que ganhava dos avós para colocar no cofrinho. Mas que sujeira é essa? Eis que eu paro pra pensar se não temos um natural preconceito e aversão a dinheiro na nossa sociedade. Se talvez o “dinheiro sujo” seja mais do que simplesmente a sujeira física, mas a sujeira da nossa cultura que tem tanta dificuldade em falar sobre dinheiro e quase o enxerga como tabu.

Essa ficha caiu no último ano pela vivência escolar do meu filho aqui nos Estados Unidos e como o dinheiro faz parte natural dos assuntos discutidos no dia-a-dia das crianças na escola. Nos mudamos para Nova York após eu ter aceitado uma proposta de trabalho para dirigir uma agência de publicidade por aqui. Mas o grande motivador que nos trouxe foi a ideia de viver uma realidade cultural diferente, que iria impactar positivamente quase todo o nosso estilo de vida. É sobre esta realidade de estilo de vida, a maternidade e a vida executiva que eu pretendo compartilhar experiências nesta coluna para a qual fui gentilmente convidada pelo time de CLAUDIA.

Voltando às moedinhas do meu filho. Desde que começaram as aulas, ele passou a estar envolvido em um bocado de atividades relacionadas a dinheiro. Os alunos da classe dele tem entre 6 e 7 anos e estão aprendendo matemática usando dinheiro. Fazem exercícios e jogos de adição, subtração, multiplicação e divisão usando moedinhas e aplicando esse conhecimento em diversos temas da rotina, como fazer as compras no supermercado, comprar um presente ou ir aos correios.

Falando em correios, nestas últimas semanas eles passaram a investigar o sistema americano de correios e, depois de uma visita a um posto e uma palestra com o carteiro, empreenderam o sistema de correio interno da escola. Um correio elegante 2.0. Criaram as caixas de correio, planejaram a distribuição das cartas e foram divididos em 8 diferentes tipos de responsabilidades para fazer o correio funcionar. Dentre elas, podemos encontrar aqueles que coletam as cartas, que separam, entregam ao destinatário; aqueles que produzem (criam e desenham com canetinhas e lápis) os selos, os envelopes e os cartões-postais; e aqueles que atendem o público e vendem. Todas as manhãs, entre as 8:30 e as 9:00, crianças e professores são encarregados de duas lojinhas do correio da escola em diferentes andares, vendendo selos, cartões-postais e envelopes aos pais e aos alunos de toda a escola. Elas devem receber o pedido, calcular o valor, pegar o dinheiro, calcular e entregar o troco aos clientes. Lembrando que as crianças tem entre 6 e 7 anos de idade e estão em fase de alfabetização. Tem sempre gente na fila, então a coisa precisa funcionar de forma eficiente.

Os pais também têm sua participação com relação à cultura financeira das crianças na escola. Todos os anos, pais dos alunos de 6-7 anos são responsáveis por criar, planejar e executar uma grande festa de rua em nome da escola. Os profissionais da escola apenas acompanham e auxiliam o que os pais precisam, mas todas as decisões em relação ao evento é feita pelos pais, inclusive como utilizar a verba para a realização, as atrações, negociação com fornecedores, compra, recebimento, preço das atividades, fluxo de caixa, montagem e desmontagem da festa. Os pais são responsáveis por absolutamente tudo e as crianças são muito bem vindas em acompanhar todas as suas atividades. Eu montei 200 kits de pom-pom para a barraca de artesanato e coordenei a enlouquecida fila para a pintura facial. Meu filho foi modelo da pintura de Halloween, que foi um sucesso. Preparei um relatório com os aprendizados para buscar uma melhor rentabilidade dessa área da festa para o próximo ano, que será realizada pelos pais dos alunos que hoje tem 5-6 anos.

O dinheiro arrecadado pelos correios, pela festa de rua e por muitas outras atividades desta turma vai para a escola, que é uma fundação sem fins lucrativos e está em processo de expansão. Isso acontece aqui na maioria das escolas, públicas e privadas, que trabalham com a sua comunidade para alcançar seus objetivos que, no fim do dia, beneficiam a todos. É possível, por esta experiência, enxergar o processo educacional de alfabetização de crianças de 6 e 7 anos de uma forma mais ampla, caminhando também para a alfabetização financeira e _por que não_ sobre o que significa trabalho, compromisso e responsabilidades do indivíduo e também de toda a comunidade.

Um bom jeito de colocar a diferença cultural em relação ao dinheiro é que nos Estados Unidos as pessoas falam “we make money”, ou nós fazemos dinheiro. No Brasil falamos “nós ganhamos dinheiro”, ganhamos de alguém. Nós realmente ganhamos? Acho que para grande parte da população que trabalha de sol a sol, “fazer dinheiro” caberia muito bem, você não acha? Uma maneira bem diferente, e na minha opinião muito mais positiva, de enxergar a relação com dinheiro.

 

 

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