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Juliana Borges Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

“Let them talk!”

Sobre “lugar de fala” e meu encontro com Patricia Hill Collins

Por Ju Borges - 11 ago 2020, 21h06

Um pouco engraçado, mas muito se fala sobre “lugar de fala”. Em todas as vezes que pessoas brancas buscaram falar sobre isso, se prenderam ao termo e pouco deram atenção ao que foi escrito sobre ele. As deturpações ocorrem aos montes e há, até, a esdrúxula repetição de “lugar de cala”, que nem existe, já que os movimentos e intelectuais que formulam sobre o reconhecimento de diversas perspectivas na arena pública nunca passou por calar ninguém, mas sempre por permitir que mais vozes falem. Mas, eu sugiro que, caso você tenha interesse REAL nesse debate, que você leia de peito aberto essas formulações, que advém de vários debates como dos pós-estruturalistas, com Jacques Derrida; passando pelos pós-coloniais, como de Gayatri Spivak; chegando a formulações do pensamento feminista negro com Patricia Hill Collins, Luiza Bairros; aos estudos decoloniais, com Gloria Anzaldua. A questão do direito de falar dos grupos subalternizados sempre teve um importante significado.

Primeiro, porque significa um rompimento com o silenciamento sistemático pelo qual grupos que foram marginalizados pelos sistemas de poder e dominação colonial e seus fundamentos de classificação por raça, classe e gênero foram submetidos. Ora, já lá para as sociedades antigas, a fala, a nomeação de problemas, a verbalização era o significado de existência. Só existe o que é nomeado. Só existe o que fala. Então, o reconhecimento de que esses grupos subalternizados, como mulheres, negros e negras e indígenas, sempre produziram conhecimento e tem cosmovisões particulares passou a ser demanda para garantir uma riqueza e complexicidade do debate na arena pública da Política, a fim de construir as resistências e projetos político-programáticos condizentes com as complexas teias das opressões e de sistemas de poder.

Ao falar em “standpoint theory” jamais uma intelectual negra disse que isso significaria interdição do debate, mas o contrário: quanto mais plurais as vozes, mais perspectivas são garantidas e mais cobertos estaremos na produção de outros mundos, mais igualitários e equânimes. E, sim, isso significa exercer a escuta. Uma escuta ativa, em que um compreende o outro e saídas potentes podem ser construídas. Em que cada um percebe o seu papel na luta contra as estruturas de opressão – que não são iguais e nem devem ser. Mas que podem ser complementares ao invés de antagônicos.

Um dos pontos-chave das formulações de mulheres negras, principalmente de perspectiva decolonial, é a construção de coalizões. Porque a perspectiva hegemônica até agora tem construído sob uma ideia de universalidade pautada em paradigmas que, em verdade, exclui diversidades. Então, se falamos em construir coalizões, por que repetem que estamos dividindo, que estamos querendo falar ao passo que calamos? Porque ao compreender outras perspectivas no debate, significa que muitos outros falarão e que os que falam desde sempre terão que falar menos. Não significa que não falarão, mas é inevitável que escutem mais. Não há, nessa nova dinâmica proposta, os que falam sempre e os que escutam sempre, aliás, os que são silenciados sempre. Porque a dinâmica atual é uma política que apaga a perspectiva do outro. Apaga a minha perspectiva, a de minha mãe, a de minhas avós e de minhas bisavós. E isso é insustentável. E isso causa desconforto em quem sempre falou. Pudera: nós, mulheres negras, sempre soubemos que se trata de um jogo de poder. E quem quer perder poder? Quem quer abrir mão de espaço para que outros também participem e falem? É difícil. Mas há posturas várias para enfrentar essas dificuldades: podemos enfrentá-las juntos ou podemos seguir nesse falso debate e que, em verdade, esconde o medo (é essa palavra mesmo) de perder o espaço sempre garantido. Estamos falando, portanto, de perda de privilégios.

Quando encontrei com Patrícia Hill Collins, em sua primeira vinda ao Brasil, eu jamais imaginei que teria um tempo para conversar com ela. Para falar com ela. Eu queria apenas escutá-la, exercer a escuta, absorver suas formulações e refletir sobre elas. E uma foto também, claro. Mas enquanto eu era apresentada a ela por minha amiga, a filósofa Djamila Ribeiro, Patricia Hill Collins estava empolgada e nos convidou para um café. Mas o café não foi o bastante e esticamos para um jantar. Depois de falar por duas horas, Patricia Hill Collins queria ouvir, queria praticar escuta. Porque sempre soube do seu lugar na geopolítica do conhecimento, quando pensamos na relação de produções do Norte global em relação a produções do Sul global. Ela queria que falássemos das nossas pesquisas, dos projetos, de nomes de outras intelectuais negras, para além dos que ela já conhecia, sobre os cenários políticos, sobre as possibilidades de construir coalizões. Houve diálogo, porque ela também apresentava suas perspectivas. Mas houve uma postura ao saber que, mesmo em sendo uma mulher negra, ela é uma mulher negra estadunidense. E a escuta ativa era necessária para caminharmos juntas e sem hierarquias naquele jantar. As horas passaram rápido, infelizmente. As trocas foram ricas e animadoras.

Ao final daquela maravilhosa noite, eu não consegui me segurar, eu precisava perguntar a ela sobre a “standpoint theory”. E lhe expliquei como havia um desconforto na sala diante da teoria da perspectiva, que ficou comumente conhecida no Brasil como “lugar de fala”, sobre o direito ao discurso e a produção de conhecimento em pé de igualdade e enquanto sujeitas na arena política. O desconforto já era imenso e a grita constante. Textos e mais textos pululavam em colunas de jornal sobre o temido “lugar de fala” que “não mais” permitia que os que sempre falaram continuassem falando por todos, como se todos os outros grupos não existissem. Patricia Hill Collins escutou calmamente minha apresentação do cenário e minhas inquietações.

Eu não podia acreditar que esvaziassem dessa forma uma produção tão rica de mulheres indianas, latinas e negras, uma formulação que acredito ser importante se defendemos uma arena política democrática. Radicalmente democrática e não apenas uma representação democrática. Muitos não sabem, mas há artigo da mesma falando que uma das questões que a inspiraram a escrever sobre “standpoint theory” foram as discussões e formulações marxistas sobre “consciência de classe” – touché! Patrícia suspirou, como se já estivesse cansada e já soubesse de cabo a rabo sobre como rolava esse script e se acionavam os “mecanismos de defesa do ego branco”, como tão bem formularam Paul Gilroy e Grada Kilomba. Depois de me ouvir calmamente, Patricia pegou nas minhas mãos, até então inquietas, me olhou nos olhos e disse “my dear, let them talk! You have to do your work. You have a ancestral task. Don’t waste your time with them. Focus. And let them talk” (tradução: minha querida, deixe que eles falem! Você tem que fazer o seu trabalho. Você tem uma tarefa ancestral. Não perca o seu tempo com eles. Foco. E deixe que eles falem).

Se há um ensinamento prático radical dessa conversa que tive com Patricia Hill Collins foi esse momento: que eles falem. Não queremos que ninguém se cale, mas que nos respeite. Que falem, sabendo que, como dizia Lelia Gonzalez: o lixo (também) vai falar, e na boa.

 

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