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Flavia Viana Bailarina e jornalista, ou jornalista e bailarina. Tanto faz. A coluna fala sobre métodos, histórias, entrevista pessoas, mostra tendências, espetáculos, entre outros assuntos relacionados, mas colocando em tudo isso o mais importante: seu grande amor pela dança

O mês do ballet “O Quebra-Nozes”

O espetáculo é uma tradição natalina ao redor do mundo, inclusive no Brasil

Por Da Redação - Atualizado em 7 jan 2020, 13h28 - Publicado em 19 dez 2019, 17h23

Entre tantas tradições natalinas realizadas em todo o mundo, no da dança em especial, está a do ballet ‘O Quebra Nozes’. Em São Paulo, há 36 anos, sempre em clima de Natal, esse clássico de Tchaikovsky é interpretado pela Cisne Negro Cia de Dança dirigida pela veterana e fundadora da cia dona Hulda Bittencourt. “Contamos com um elenco brilhante e lapidado a mais de 3 meses, bailarinos renomados e jovens talentos extraordinários no palco. A riqueza está no material humano, de muito aprimoramento técnico e artístico. Alguns figurinos e coreografias foram revisitados para a cada ano trazer mais qualidade cênica”, explica ela.

As apresentações da Cia vão até o dia 22 de dezembro no Teatro Alfa, na capital paulista, com bailarinos e elencos variados inclusive de convidados como os brasileiros Marcelo Gomes e Cícero Gomes. A decoração e as apresentações dos corais que antecedem o início do espetáculo no foyer do Teatro são realmente encantadores.

“O público espera por esse momento mágico e festivo todos os anos. É amor e uma paixão profunda”, finaliza dona Hulda.

Para quem ainda não conhece, o ballet ‘O Quebra Nozes’ é encenado em dois atos, e conta a fantasia de Clara, uma menina que na noite de Natal ganha muitos presentes, mas se encanta de uma maneira especial por um deles, um boneco quebra-nozes. Quando todos vão dormir, Clara vai à sala para brincar com seu novo presente, adormece e entra no mundo da fantasia – os brinquedos ganham vida, dançam, lutam, viajam para O Reino das Neves e Reino dos Doces, onde Clara e seu príncipe são homenageados com danças típicas de vários países e com um gracioso grand pas-de-deux da Fada Açucarada. Criada em 1891 pelo compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky, a versão da Cisne Negro Cia de Dança tem direção artística de Hulda Bittencourt e Dany Bittencourt.

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Para os amantes da dança e especialmente desse ballet, a minha parceira e influenciadora de dança Milena Pontes do Blog Tutu4love é também uma apaixonada por esse repertório, assim como eu, por isso, através de algumas pesquisas nas centenas de livros que a Milena possui em seu acervo, trouxemos para vocês algumas curiosidades e informações a respeito desse ballet cheio de encantos e conhecido nos quatro cantos do mundo…

Heloisa Bortz/Reprodução

‘O Quebra Nozes’

‘O Quebra Nozes’

Um conto alemão, um compositor russo, a importante contribuição de um coreógrafo francês e O Quebra Nozes se tornou universal. Quando o descrevemos como um ballet para todos, não estamos falando apenas do público trata-se de uma obra muito rica também em estilos coreográficos o que oferece oportunidades para muitos tipos de bailarinos, e obviamente o público só tem a ganhar. 

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Este foi a primeira história em formato de ballet a ter a casa de uma família comum como cenário, e não mais se florestas, palácios e seres etéreos, isso estabeleceu uma relação imediata com o público da época. 

Inspirado no conto de E.T.A. Hoffmann, O Quebra Nozes celebra momentos com as quais muitas famílias, independentemente da religião ou tradições natalinas podem se relacionar nesta época do ano. É um mundo mágico de crianças, brinquedos, árvore de Natal, flocos de neve, doces e muito mais com a pontuação abundante e perfeita da música de Tchaikovsky que se tornou tão famosa quanto a própria história.

 Para muitos ‘O Quebra Nozes’ é a primeira experiência de ballet, e talvez de qualquer outra arte ao vivo de muitas pessoas. Essa é uma introdução importante para todas as idades, mas especialmente para crianças que tem sua representatividade na trama. A primeira bailarina a interpretar a personagem de Clara tinha apenas 12 anos, e seu partner o príncipe quebra nozes17 anos.

Aliás, incluir as crianças em grandes produções era algo muito comum nos Teatros Imperiais. O grande coreógrafo George Balanchine foi uma dessas crianças, e mais tarde estreou sua própria versão no New York City Center que desde então é um enorme sucesso e contribuiu muito para tornar o espetáculo uma tradição anual não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Balanchine baseou sua versão de O Quebra Nozes na produção que dançou na Russia, sua terra natal, restaurando muitas das características que algumas produções haviam modificado desde então como contar a aventura de Clara sendo real. Enquanto as diferenças com a produção russa, por exemplo, ele mudou o nome da personagem principal de Clara para Marie ficando muito próximo das produções soviéticas onde a heroína é chamada de Masha, algo como o diminutivo de Maria em russo. E retratou o quebra nozes como o sobrinho de Drosselmeyer assim como ele é na história que inspirou o ballet.

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 Um dos momentos mais esperados pelo público – a variação da Fada Açucarada também foi modificada e transferida para o início do segundo ato. E para o final Balanchine colocou Marie (ou Clara como somos familiarizados) e o soldadinho deixando a Terra dos Doces voltando para casa em um trenó puxado por uma rena voadora.

Na primeira produção em 1892, a história de Clara com o quebra nozes na batalha contra os ratos e toda sua jornada foi uma verdadeira aventura. E terminava com os personagens sendo coroados como os novos governantes da Terra dos Doces. 

Foi só na produção de Alexander Gorsky em 1919 que muitas das tradições modernas que assistimos hoje começaram, inclusive o final, pela primeira vez a aventura de Clara no mundo mágico foi retratada apenas como um sonho, sua produção terminou com Clara acordando em sua casa e o quebra nozes acabou sendo apenas um boneco comum.

Outra curiosidade é que quando foi convidado para coreografar o ballet, Marius Petipa considerou que o tema proporcionava poucas chances de ser uma obra brilhante e dançante e não viu em Marie uma personagem para uma primeira bailarina. Uma de suas preocupações quanto ao enredo era em que parte colocaria seu grand pas de deux e esta questão foi solucionada com a criação da personagem Fada Açucarada, que hoje em dia é tão celebrada quando Clara ou Marie.

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Na estréia, a valsa original dos flocos de neve foi realizada por mais de cinquenta bailarinos e incluiu padrões especiais de grupo de formas variadas e esta foi a parte mais elogiada pelos críticos da época há 127 anos. A idéia para essa valsa veio de outro pequeno ballet A Filha das Neves, que apresentava uma parte intitulada Dança dos Flocos de Neve. Em algumas produções modernas esta cena apresenta papéis solistas, como Fadas da Neve, Fada dos Ventos, Reis da Neve e Rainha da Neve.

Outra parte muito popular é a Valsa das Flores que deve muito de seu sucesso a música que se tornou tão conhecida quanto o ballet. A versão original foi dançada por vinte e quatro casais do corpo de baile usando um vaso de flores douradas, e oito solistas. As flores representadas na valsa foram alteradas em inúmeras produções modernas, mas na produção do Ballet Imperial, as flores eram margaridas e por um motivo muito pessoal. Quando Evgenia Petipa, filha de Marius Petipa morreu, tais flores subitamente cresceram no jardim de seu pai, então as flores representadas na Valsa das Flores eram uma homenagem à filha amada de Petipa. Em alguns escritos também relatam que a valsa faz referências a bombons famosos da época que eram embalados como se fossem flores. O que não muda é que essa continua sendo a parte favorita de muitos espectadores. 

Entre as curiosidades além de assistir ao espetáculo existe um bom motivo para ter um boneco quebra nozes em casa, pois segundo o folclore alemão, eles trazem boa sorte a família e protegem a casa. Dizem que um quebra nozes representa poder e força, sendo um mensageiro de boa sorte e boa vontade servindo como um cão de guarda que protege contra o perigo. Normalmente tem os dentes pintados a mostra para espantar os maus espíritos. E há muito tempo atrás, quebra nozes raros ou incomuns faziam parte da tradição de refeições sociais servindo como utensílio para que os convidados continuassem à mesa desfrutando de guloseimas sem casca, como nozes e avelãs.

Para quem quiser assistir a uma das versões mais populares do ballet eis a dica… ainda dá tempo…

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Heloisa Bortz/Divulgação

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