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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Saudades de não gostar das segundas-feiras

"Senti saudades de me despedir do domingo para iniciar uma semana caótica", confessa a escritora em seu "Diário De Uma Quarentener"

Por Juliana Borges - Atualizado em 6 jul 2020, 19h48 - Publicado em 6 jul 2020, 15h37

São Paulo, 06 de julho de 2020

Se alguém me perguntar como foi meu domingo, eu diria que foi melancólico. Eu estava tão tomada pela nostalgia, que senti saudades dos meus tempos de tardes inteiras, rigorosamente todos os dias, na biblioteca Florestan Fernandes, da FFLCH-USP, preparando, ou tentando, traduções para as aulas de língua grega. Eu senti saudades até de não conseguir compreender a sintaxe de Demóstenes, um importante orador e político grego.

Para terem ideia da experiência traumática diante daquele texto, eu e meus amigos passamos tardes tentando decifrar aquelas letras organizadas juntos, até chegarmos em uma pretensa tradução, que mais tinha interrogações e vazios do que você possa imaginar. Na aula, que me lembro como se fosse hoje, o professor escreveu todo o período inicial do texto na lousa, para acompanharmos a tradução. A pergunta clássica em uma aula de grego antigo é “qual é o verbo principal?”. E o silêncio tomou a sala e seu total de 6 alunos. Depois de duas explicações, seguidas de “Viram como é simples?”, minha amiga, que sentava ao meu lado, caiu no choro. Mas deem um desconto. Éramos jovens de vinte e poucos, em um nível que já não era de iniciantes, e tentando aprender grego clássico. Vai ver, Demóstenes nem é tão ruim ou difícil assim. Mas, eu, pelo menos, não tenho como saber, já que decidi seguir por outros caminhos e fugi para os braços da Antropologia. Mas, minha nostalgia, a minha saudade de sentir saudade, me levou até esse momento, que já deve ter completado seus 15 anos.

Mas o que mais me afetou no dia de hoje foi sentir saudade de odiar as segundas-feiras. The Boomtown rats era minha trilha favorita, e óbvia, eu sei, das segundas. Eu senti saudades de me arrepender por ter ficado assistido filmes até mais tarde na noite de domingo e acordar xingando deuses, orixás e quem mais estivesse à frente. Eu senti saudades de me despedir do domingo para iniciar uma semana caótica. Eu senti saudades do metrô lotado das segundas. E das terças, quartas, quintas e sextas. Eu senti saudades dos memes reclamando das segundas. E dos memes dizendo que o problema não é bem um dia da semana, mas do capitalismo. Eu senti saudades das postagens de quem se irritava com a problematização entre quem odiava e reclamava das segundas e quem tentava julgar isso tudo para canalizar em luta sistêmica. Eu senti saudades da Tela Quente ter um quê especial porque, afinal, ela anunciava uma segunda-feira que estava acabando. Eu senti saudades de um Roda Viva, – e, aliás, o de hoje será sensacional! – que era o sinal de que eu já estava indo dormir tarde e que acordar na terça-feira seria uma luta. Mas, eu não me importava, porque era a segunda-feira terminando.

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Hoje, todos os dias estão parecendo as segundas. E isso fez tudo perder um pouco o brilho de odiar uma segunda-feira. Meu relógio biológico já não se importa com mais nada, e dita as regras. Ao que parece, meu despertador também já se conformou em ser ignorado todas as manhãs. Ele mesmo deve me dar um desconto todos os dias. E eu já me conformei com isso. Já não tem chocolate quente vegano com torta de chocolate cremoso vegana do Jardin do Centro. Quer dizer, o “Jardin” está lá, mas o isolamento social não me permite passar as tardes lendo alguma coisa, com pausas para olhar o movimento, escrever alguma ideia no caderno de anotações e talvez terminar a noite assistindo qualquer coisa que der vontade a partir do que está em cartaz no Espaço Itaú de Cinema ou no Reserva Cultural. Ai, que saudades da Blooks do “Reserva”…

O fato concreto é que sinto saudades de você, segunda. Prometo que nunca mais te chamo de desgraçada, que nunca mais te humilho nas redes sociais. Prometo que volto a te odiar devagarinho, aquele ódio que no fundo é amor intenso, sabe? Puxa, segunda, que ódio bom que a gente viveu.

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