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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

O problema é esse, mas também é outro

Juliana Borges traz uma reflexão sobre ciência, racismo e política a partir da repercussão do caso de Carlos Alberto Decotelli

Por Juliana Borges - Atualizado em 30 jun 2020, 20h41 - Publicado em 30 jun 2020, 20h17

São Paulo, 30 de junho de 2020.

Para começar: não estou defendendo quem turbine currículo e acredito que gestores públicos, principalmente em cargos chaves como de Ministro da Educação, devem ter cuidado sobre essa matéria, afinal serão os responsáveis pelos currículos acadêmicos de milhões.

Tempo de pandemia tem se mostrado tempo de trazer à tona questões há muito existentes no país. Muitas foram as figuras políticas que passaram pelo escrutínio público. Não se trata aqui de dizer que houve silêncio. Mas o barulho, de certo, foi, e tem se mantido, moderado a depender da pigmentação dos ministros ou pleiteantes ao cargo.

Ao que parece, o clima é de festejo. Seja porque recolocaram o que-foi-sem-nunca-ter-sido em seu devido lugar no sistema de castas raciais brasileiro, seja porque, ao que parece, ter sido detonado em praça pública e batido em retirada, possa ter “melhorado” seu currículo. Ironias e brincadeiras à parte, a última piada me parece de mau gosto. A mim, reaviva a ideia bizarra que alguns negacionistas defendem ao falar que olham o lado cheio do copo, quando afirmam que a escravidão até pode ter tido lá suas benesses, já que tirou africanos de África, continente que todos os racistas consideram um “não-mundo”. Claro, cristalino como a luz da branquitude, esse argumento se esquece que a situação de desastre político, étnico e econômico do continente africano é consequência direta da ação europeia e supremacista no território.

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Já dizia a intelectual Grada Kilomba que a construção do outro é produto colonial, para projetar as próprias monstruosidades. Assim, a brutalidade do colonialismo é jogada como responsabilidade do que será oprimido por esse sistema, que será tido como bruto. Mesmo que a violência e a atitude bestial seja do que oprime, tortura e violenta. O escritor James Baldwin compreendia esse processo, em diálogo com um importante filósofo africano, Franz Fanon, como a ação de tanto afirmar no outro a monstruosidade tem como resultado transformar em monstro o que acusa. Ou seja, a vítima do processo de opressão se transforma em algoz e o agressor, nesse caso, se transforma em vítima, como se precisasse se defender do indivíduo brutalizado que ele próprio criou. O que quero dizer com isso? Em bom e velho português popular: da cara de pau de quem faz piada com a atual situação como se tivesse, em verdade (mesmo que apenas a própria verdade), ajudado o-que-foi-sem-nunca-ter-sido.

Nessa história toda, que tomou os noticiários e os debates cotidianos nos últimos dias, eu só vejo desgraça. A desgraça de um território recheado de gente que ainda tem muito a explicar sobre o currículo, seja para Yale ou para o doutorado constitucional pela fé. Mas de uma problemática que está para além disso. Fosse isso, seria fácil e em 2022 a gente viraria a página. Mas estou falando de uma cultura encrustada até o último fio de cabelo brasileiro, que transcende governos e siglas partidárias, ou até mesmo poderes constituintes da República. Casos de turbinagens de currículo não são novas entre membros alçados ao poder da capital brasileira, de tucanos a petistas, chegando a radicais de direita e fundamentalistas religiosos.

Não é a minha intenção aqui instituir caça às bruxas, muito menos pessoalizar questões. Eu não acredito em punitivismo, muito menos em criminalizar e lançar mão da esfera penal nesses casos; muito menos em saídas individualizantes. Estou falando de uma cultura.

Uma pesquisa, divulgada ano passado pela consultoria DNA Outplacement, indicava que 75% dos brasileiros turbinam o currículo. Mais comum: salário do último trabalho e nível do inglês (48% no primeiro caso; 41% no segundo). Dentre os que turbinavam cursos e escolaridade encontram-se 10%. Um dado importante: a prática não é privilégio nacional, ou seja, não se explica apenas com o “jeitinho brasileiro”. Na Colômbia, a marca chegou a 85%; enquanto que a 72% dos currículos chilenos. Se você fizer uma busca no google agora, verá uma série de links dando dicas de “como turbinar o currículo”. Obviamente, muitos deles irão lhe levar a matérias que falam de fazer cursos em universidades, de ter prática ativa na sociedade com voluntariado e diversas outras questões que não envolvam falar que você sabe mais de inglês do que realmente saiba. Mas pense em um país que cada vez mais demanda que as pessoas saibam inglês, mesmo que para funções em que esse conhecimento será desnecessário na prática, quando uma pesquisa do British Council, divulgada ano passado, apresentou que apenas 5% dos brasileiros falam inglês e apenas 1% tem MESMO fluência.

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Aliás, pense em quantas vezes você foi fazer seu currículo e falaram para você deixá-lo mais “atrativo”, para você colocar que “compreende bem” inglês, quando você escuta “my way’ do Frank Sinatra e acha uma música belíssima, quando a letra, na verdade, é sobre um cara que está falando que não está nem aí pro mundo e que o que importou mesmo foi fazer as coisas do jeito que ele gostava. Na tradução de um trecho, fica algo como: “Pois o que é um homem, o que ele tem?/ Se não é ele mesmo, então ele não tem nada/ Para dizer as coisas que ele realmente sente/ E não as palavras de alguém que se ajoelha/ O registro mostra que eu levei os golpes/ E fiz do meu jeito”. E eu adoro Sinatra e eu escuto essa música nas alturas. Ou quando você fala que é fluente em espanhol (afinal, portuñol está aí) e não consegue pronunciar a parte rapidinha de Shakira em “estoy aqui” – aliás, ela diz isso aqui: “entre fotos y cuadernos/entre cosas y recuerdos/ que no puedo comprender/estoy enloqueciéndome/cambiándome un pie/por cara mía/ esta noche por el día y que…”.

Explico: eu não estou aqui dizendo que precisamos deixar fulano ou beltrano dizer o que quer, muito menos que não é preciso checar as coisas quando pessoas vão ocupar uma função tão central e que vai impactar na vida de todos nós. Nada disso. Aliás, chega a ser um pouco cômico o fato de um espaço político que tanto nega a ciência ter a necessidade de reafirmar tantos títulos, mesmo que eles se desmanchem no ar – ou em tweets de reitores, como o da Universidade de Rosário/Argentina. Estou querendo que pensemos em duas coisas: nas mãos mais pesadas quando há um nome que não atende bem ao tom da melanina esperado no país em que todo mundo afirma que tem racismo, mas que ninguém assume que é racista, mas que na primeira oportunidade a gente percebe que existem dois pesos e duas medidas. Outros continuam esbanjando seu poder por aí, com discursos ativos e exaltados de perseguição aos que pensam diferente. E a outra coisa é que a gente tente perceber essas diferenças no trato e nas medidas demandadas sobre, mas também que pensemos como conjunto, de modo sistêmico, enquanto sociedade, assumindo que temos uma série de desigualdades que precisam ser resolvidas. E, incluindo uma terceira coisa: que a gente aprenda, de uma vez por todas, que negar a ciência nunca é um bom negócio.

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