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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Deus lhe pague, seu Moisés!

Estou pensando em Moisés dos Santos, em sua vida, em sua madrugada de preparação ao trabalho e se pensava que teria um fim como aquele algum dia

Por Juliana Borges 19 ago 2020, 20h55

Uma luta real desse reinício de semestre letivo: reajustar o relógio biológico. As madrugadas ficaram um pouco mais estendidas com a quarentena. O horário de melhor produção para trabalho e para as escritas se acomodou nas madrugadas. Fui iludida pelo meu corpo, que me fez acreditar que, hoje, seria o início de uma nova fase de horários e organização.

9h48: eu desperto. Mas eu deveria ter, mesmo, despertado às 8h05. Nenhum resquício de ter escutado o despertador. Em vez de sofrer, reorganizei a semana mentalmente e a aula de hoje vai ficar para a sexta à noite. Nem tudo está perdido.

9h57: horóscopo. E avisa: mais atenção ao corpo, cuidado mental, segurar a ansiedade. Não pegar mais trabalho do que deveria. E, puxa, me lembro que ontem, impulsivamente, fechei contrato com um job só para focar todos os ganhos dele em compras de cosméticos da Fenty by Rihanna. Mas, eu sei que você vai me dar um desconto sobre isso. Todas temos nossos pontos fracos e o meu é batom vermelho.

10h15: resolvo olhar e-mails, responder os necessários e atrasados.

10h43: começo a leitura de um romance para um trabalho (aqui como estilo de obra literária e não sobre amor, aliás sem nada de amor e sobre prisão, segurança e polícia). Me perco na leitura, que deveria durar apenas uma hora. Quando me dou conta, já são…

12h58: respondo algumas mensagens de whatsapp, principalmente as relacionadas a feitura do meu sonho de toda a vida – mas que só poderei contar para você daqui alguns dias.

13h25: organizo algo para comer, interajo um pouco com minhas irmãs e me organizo para uma reunião. Até aí, o dia ainda segue com alguma esperança de que não termine em grandes problemáticas;

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13h55: vejo uma notícia que muda todo o sentido do dia. Um trabalhador, Moisés dos Santos, faleceu enquanto fazia uma representação de vendas em uma loja do supermercado Carrefour, em Recife. Acometido por um infarto, seu corpo, ainda no chão, foi escondido entre caixas de papelão, engradados de cerveja e guarda-sóis, para que a loja seguisse funcionando “normalmente”. Seu corpo ficou ali, das 7h às 11h30, do dia 14, entre pessoas que realizavam suas compras um pouco curiosas sobre o que estaria atrás daquele amontoado de caixas. Segundo a loja, o SAMU foi acionado e eles “seguiram todos os protocolos de socorro e após o falecimento”. Seguir com a loja aberta e mantendo um corpo atrás de caixas é um protocolo?

Nos poucos minutos que restavam antes de eu entrar em uma reunião de trabalho, isso ficou martelando na minha cabeça. O que estamos fazendo com nossas vidas? No que estamos transformando nossas vidas, nossas relações e modos de ver o outro e o mundo? Qual a urgência de vendas diante de uma pessoa, uma vida que se foi? Apesar da minha capacidade de sempre teorizar sobre os processos, confesso que essa notícia não me deu brecha para isso. Eu apenas fiquei no chão, irritada, triste.

Por sorte (será?) a reunião foi objetiva e encerrada em 1h30. Das 15h41 até o momento em que escrevo essas linhas, estou pensando em Moisés dos Santos, em sua vida, em sua madrugada de preparação ao trabalho, no quê pensou antes de ir ao trabalho, no quê prospectava para a vida e se pensava que teria um fim como aquele algum dia. Alguma importância a gente ainda dá para o humano?

Lembrei de Chico Buarque e sua clássica “Construção” e do uso que ele faz do verbo “atrapalhou”, ao cantar a morte de um trabalhador de construção. Não sei se Moisés era casado e tinha filhos, porque meu choque com aquelas primeiras palavras de notícia sobre sua morte me paralisaram ali, naquele instante. E não sei se ele amou como a última vez, se “beijou sua mulher como se fosse a última”, se cada filho seu recebeu o beijo que ficará marcado como último. Não sei como atravessou a rua, se tímido ou altivo. Se tomou seu café da manhã “como se fosse um príncipe”, se pode dar sua última gargalhada antes do último sopro de vida. O que me logo vem à mente é que a letra, faz fino retrato ao homem que “agonizou no meio do passeio público”, em que pessoas seguiram incólumes suas vidas de vendas e compras porque o dinheiro não pode parar de girar.

A música, efabulação de 1971, se fez realidade, pura presença, naquela sexta-feira, 14 de agosto, em um supermercado de grande cidade. Sem poesia, com o alheamento de pessoas que se achavam ocupadas demais para respeitar memória. “Deus lhe pague”, seu Moisés.

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