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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Autores negros importam?

A escritora Juliana Borges aborda a importância do consumo de obras escritas por autores negros

Por Juliana Borges 20 jul 2020, 21h42

São Paulo, 20 de julho de 2020

Há poucos dias, vários autores negros norte-americanos lançaram o manifesto pela “Equidade racial na representação literária” (Racial equity in literary representation). O texto, já assinado por mais de 900 escritores negros e negras, é endereçado a James Daunt, da Barnes and Noble; Brian Murphy, da Harper Collins; John Sargent, da Macmillan Publishers; Johnathan Karp, da Simon & Schuster; e Madeline McIntosh, da Penguin Randon House. A demanda é bem objetivo: como lutar contra o racismo se o mercado editorial reproduz barreiras para que a literatura e a produção literária, seja de ficção ou de não-ficção, produzida por negros e negras chegue às pessoas?

O manifesto “Black authors matter” questiona quais têm sido os limites de uma postura antirracista, em um momento de levantes no país diante da morte de George Floyd e em que muitas pessoas pedem dicas sobre o que ler e como ter uma postura antirracista. Eu sei bem o que é isso. Com os protestos lá e a onda que chegou ao país – apesar de ter se limitado a ocupações de perfil, ao menos por enquanto – percebi um aumento substancial de pessoas no meu perfil no Instagram. E eu não estou reclamando disso. Mas estou realmente reflexiva sobre como as pessoas têm buscado aprender e tentando desconstruir o racismo.

Há pouco tempo, eu traduzi e repostei um trecho da ativista e escritora Rachel E. Cargle que assinalava o seguinte lembrete: “Luta anti-racismo não é espaço para auto-aperfeiçoamento de pessoas brancas. Se proteger e empoderar vidas negras não está no centro do seu trabalho, etão você não está aqui por pessoas negras – você está só fazendo movimentos para o seu ego branco se sentir melhor.”. Como a gente diz, porrada né, mana? É. Pouco depois, também traduzi e compartilhei uma postagem da escritora Layla F. Saad que dizia que não podemos mais aceitar pessoas brancas dizendo que não tem informação e que não sabem por onde começar a desconstruir o seu racismo e ela dava uma série de dicas de termos de pesquisa (santo Google, não?). E, depois, eu ainda fiquei pensando no quanto é uma postura confortável seguir um perfil que produz conteúdo gratuito para que você desconstrua o seu racismo.

Uma coisa importante em um processo de aprendizado é: não se aprende com tweets, pequenos textos de Instagram e de Facebook. As redes sociais desempenham um importante papel de fazer espraiar e amplificar vozes, e isso eu jamais vou negar. Mas, também é importante pontuar os limites de interações que ficam apenas em redes sociais. O conteúdo que produzo naqueles espaços são apenas a ponta do iceberg, resultados de muitas leituras, de horas de pesquisa e de tentar condensar algo que não faça você achar que está tudo ali, que só aquele conteúdo é o suficiente, mas de buscar autores, referências negras, livros, de mudar seu modo de pensar de que é preciso consumir autores negros, é preciso consumir de produtores negros. Você pode estar dizendo que o meu texto está trabalhando com a realidade americana, tentando impor a dinâmica estadunidense no Brasil, que nós publicamos sim autores negros. Será?

Segundo a pesquisa “Personagens brasileiros”, da pesquisadora da UnB Regina Dalcastagne,  entre 2004 e 2014, apenas 2,5% dos autores publicados no Brasil não eram brancos e apenas 6,9% das personagens retratadas nos romances eram negras – sendo que apenas 4,5% delas eram protagonistas. Entre 1990 e 2004, as ocupações das personagens negras foram: bandido, empregada doméstica, escravizado, profissional do sexo e donas de casa. Apesar da pesquisa apresentar e admitir uma melhora na publicação de mulheres, ela também aponta que a situação dos negros no mercado editorial brasileiro permaneceu estagnada.

Outra pesquisa, a “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, de 2012, dialoga com a anterior. Foram analisados 258 romances e que foram publicados por 3 grandes editoras, entre 1990 e 2004. Vamos aos dados: 93,9% dos autores eram brancos; 72% do sexo masculino; e 68% do eixo Rio-São Paulo. Em 61% das vezes em que negros foram retratados como personagens, representavam assassinos. Bom para você?

Se estamos falando de mudanças de paradigmas e que devemos deixar a postura de negação e recusa do racismo, que devemos nos instrumentalizar para desmantelar esse sistema em nossa sociedade, como faremos isso sem a produção intelectual negra brasileira que é vastíssima?

Nos últimos anos, a maior presença da produção literária negra no mercado editorial não se deu pelas grandes editoras, mas pelas pequenas editoras, pequenas livrarias e círculos literários, muitas produções negras independentes. Na maioria das vezes, para serem publicados, autores e escritores negros precisam lançar mão de seu parco capital ou somar em iniciativas coletivas e independentes, como é o caso da coleção em que meu primeiro livro está publicado, a Feminismos Plurais, fruto da iniciativa da intelectual Djamila Ribeiro. E quando negros e negras conseguem ser goteiras que ultrapassam as barreiras do mercado editoral e, então, são publicados em grandes editoras, suas produções são tidas como nicho. E quando vemos um aumento da publicação de autores e escritores negros, somos inundados pela literatura estrangeira que, queremos sim, mas também queremos ver as vozes brasileiras nesse processo. Certo?

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É preciso ser extraordinário para ser reconhecido, diante de um mar de mediocridade, mas que tem espaço e reconhecimento para a voz por seus marcadores de gênero, raça e classe. Ou nos jogam nesse lugar de apenas sermos úteis para falar de racismo. Sim, nós produzimos vastamente sobre a opressão que nos aflige, mas somos muito mais do que ativistas, somos produtores de conteúdo, de discussões intelectualizadas, de arte, música e literatura. Por que alguém deve ser considerado universal? Por que não compreendemos que todas as vozes tem perspectivas e que ninguém é nicho, já que todo mundo tem reconhecido seus modos de ver e exercer suas visões pela literatura sobre o mundo?

Assim, eu termino o diário de hoje, com uma mini-versão de manifesto. Mini porque será curto, mas também porque não se faz manifesto de uma pessoa só. Mas eu não poderia esperar. Como diz Bernardine Evaristo, uma escritora inglesa que eu amo e você bem que poderia conhecer, estamos em um momento em que todos querem falar de racismo ou, ao menos, se mostrar antirracistas. Um momento em que muitos querem abrir espaço para escritores negros. Mas não podemos agir como se isso fosse apenas uma onda que pode passar e vamos ter perdido oportunidades. Isso dever ser permanente. Só assim se derrubam as barreiras do racismo no mercado editorial. Ou como diz o antropólogo Rodney William, “isso não é um momento, é um movimento” e que pretende vir para ficar.

Manifesto brasileiro: autores negros importam

Desde os protestos nos Estados Unidos, em decorrência do assassinato de George Floyd, a pauta antirracista ganhou um novo impulsionamento. Mas essa luta, contra o racismo, não é nova. As resistências no Brasil acontecem desde o primeiro navio aportou no país com africanos sequestrados de suas culturas e sociedades, a fim de serem escravizados e submetidos a um sistema de classificação e exploração baseado na ideia de raça. Mas esse novo propulsor tem estabelecido desafios ao momento. Pessoas negras têm sido demandadas por informações para pôr fim ao racismo, para um primeiro passo rumo ao fim do racismo. De fato, essa é uma luta sistêmica e que não será desmantelada de uma hora para outra. Assim, todos nós temos um papel a desempenhar nesse processo, se queremos uma sociedade, verdadeiramente, equânime e em que todas as vozes sejam reconhecidas.

A literatura e o mercado editoral tem um importante papel nesse momento, já que não queremos mais ser apenas uma ou duas prateleiras, no máximo uma estante, em livrarias, muito menos as exceções de um ou dois, com sorte 10, em catálogos de dezenas de escritores e escritoras. Livros são uma potente ferramenta, das mais incríveis já produzidas pela humanidade, para distribuir conhecimento, dar voz, projetar mundos, questionar sistemas, fortalecer pensamento crítico e ampliar perspectivas. E diante da vasta e histórica produção de artistas e intelectuais negros brasileiros sobre a história de nosso país, a distribuição dessa produção pode ser um importante, se não fundamental, aporte educacional e pedagógico, artístico e cultural, para que caminhamos rumo a uma representação – e não apenas representatividade – equânime e democrática.

Há imensas dificuldades enfrentadas por escritores negros para que suas produções ecoem. Muitos acabam sendo forçados a buscar caminhos independentes, sendo os responsáveis pela produção e pela venda, em pequeníssima escala, de seus escritos. Essas barreiras são mantenedoras de privilégios e, muitas vezes, encerradoras de sonhos. E, em muitas vezes, a produção de negros e negras foi descartada, ou sequer considerada, ao passo que a produção sobre um mesmo tema acabou por ser contemplada por serem produzidas por não negros. E isso diz muito sobre um padrão sistêmico e mantenedor de ideias de superioridade racial que precisamos tanto desconstruir para avançarmos enquanto sociedade de direitos.

Todas essas barreiras têm sido sustentáculos do silenciamento de nossas vozes e do ocultamento da contribuição negra ao país e do próprio país. Ao ser a parede que só permite infiltrações, como dizia Florestan Fernandes, o que você faz é ser reprodutor e parte ativa no silêncio e na cultura da excepcionalidade.

O sucesso de diversas iniciativas independentes mostra que há demanda para que essa produção seja consumida e para que essas vozem se pronunciem. Há desejo por mudança e por conhecimento. Seja parte dessa mudança.

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Todas as mulheres podem (e devem) assumir postura antirracista:

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