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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

A paz invadiu o meu coração

Deixamos o convite para você ler a reflexão de Juliana Borges sobre conexão com uma música, de fundo, que te proporcione paz

Por Juliana Borges - 9 set 2020, 20h34

São Paulo, 09 de setembro de 2020

Há muito que busco refúgios simples. Em geral, quando pensamos em fugir, a gente pensa em “outro lugar, baby”. Mas, como conseguir fugir para pacíficos em nós mesmos?

Primeiro, eu havia decidido pela meditação. Quando morava sozinha, era um pouco mais fácil tentar as meditações do Osho (mesmo que ele indicasse que, o melhor, era fazer em grupos). O máximo de desconforto que provoquei em alguém com as meditações do Osho foi em um dos momentos, em que devemos extirpar de nós os tormentos, e eu gritei ensandecida por 10 minutos e meu vizinho apareceu no portão para ver se estava tudo bem. Até hoje, a expressão no seu rosto é viva em minha memória, de total incompreensão sobre como era possível meditar com música, gritos e dança. Mas eu fiz das explicações mais plenas de minha vida, tamanha a carga de tensão que havia desalojado de mim. Agora, ao morar com minhas irmãs, fica um pouco difícil, já que o melhor momento para a meditação são as manhãs e, com a pandemia, os relógios biológicos estão totalmente desajustados: manhã virou madrugada.

Mas, avancei para outro estágio. Se a escrita é um dos meus refúgios preferidos, há outro que eu descobri: plantas. Eu sou capaz de passar horas cuidando de plantas. Já as amava e sempre vivi em casas com quintais ou apartamentos repletos de plantas. No último ano, juntei as minhas plantas e as de minha mãe – e, inclusive, um de seus lírios floresceu nesse final de tarde. E, por incrível que pareça, a quarentena e o isolamento não estavam garantindo que eu ficasse um tempo com plantas. Minha avó paterna, Dona Dolores, por exemplo, me ensinou que com planta a gente conversa, não apenas rega. A gente alisa e dá nome, a gente poda pedindo licença e elas ficam mais felizes assim. Há pouco tempo, consegui comprar mais adubos e decidi comprar novos vasos porque, se a gente gosta de roupa nova, planta também gosta de novos ares estéticos. E, assim, fui reencontrando a paz: nas manhãs com as plantas. Por conta do calor, minha maranta estava desanimada. Algumas horas de cuidado, água na dosagem certa, alguns papos e ela está belíssima e disposta.

Para alguns, pode parecer um papo “namastê”, e eu pouco me importo. Acho que falta muito em nós uma conexão com sistemas que também são parte de nós. A humanidade adquiriu essa ideia vazia e destrutiva que nos coloca como em par oposto à natureza, como não somos simples complementares, mas parte disso tudo. Quando falamos que a planeta está morrendo, me corrijo: nós é que estamos transformando nossa existência impossível aqui. Se tudo está vivo, de algum modo, alguma conexão pode ser realizada. Sei lá, você não sente mais paz, tranquilidade em lugares com verde, onde é possível ouvir o canto dos pássaros pela manhã, da cigarra no final da tarde e início da noite? Há quanto tempo você não vê um vaga-lume, não pisa na grama com os pés descalços e fica parada, só respirando aquele ar com cheiro de menta e vento de refresco?

Acho que essa quarentena tem me deixado com saudade desse mundo, para o qual eu sempre dava um jeito de fugir. O jeito foi tentar reconstruir um pedacinho dele no meu quintal. Tô tentando dar espaço à paz e ao sossego. Se o desafio do momento é darmos reexistências a muito do que amamos, acho que começar essa conexão comigo mesma é um belo começo. Afinal, só se entrega bem para o mundo, quem está bem consigo mesma.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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