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Crônicas de Mãe Por Ana Carolina Coelho. Feminista, mãe, escritora, poeta, dançarina, plantadora de árvores, pesquisadora e professora universitária

Mamãe, você vai morrer também?

"Há tantas mortes acumuladas e tantos “adeus” de longe, via wi-fi, sem abraço, respeito e dignidade", reflete a colunista

Por Ana Carolina Coelho Atualizado em 16 set 2020, 10h23 - Publicado em 1 set 2020, 16h30

Todos os dias agora são funerais não velados para mim. Eu engoli essa frase o quanto eu pude, mas para variar, ela explode exatamente na fala de quem eu achei que estava “protegendo” ao me silenciar. Reduzimos as notícias de jornais pela televisão e tentamos encontrar algum tipo de equilíbrio em uma casa que agora é, simultaneamente, toda a cidade que habitávamos. Entremeadas nos nossos cotidianos estão as minhas tarefas diárias de professora e pesquisadora, que incluem lecionar, orientar, escrever, palestrar, produzir, participar de bancas e muitas outras atribuições administrativas. Em outras palavras, eu trabalho o dia inteiro, que avança noite adentro, além do óbvio e crescente trabalho de cuidados domésticos e familiares. E grande parte do meu ofício inclui falar com outras pessoas. Há mais de um mês minha rotina consiste em dormir tarde, acordar cedo, colocar as “coisas da casa” em mínima ordem e dar pêsames para alguém: parentes, pessoas amigas próximas, discentes e docentes que noticiam a perda de mais um familiar, de mais uma vida abreviada. As lágrimas me acompanham em meus sentires. Lágrimas são sentimentos que precisam chover em nós, como uma barreira dissolvida que permite ao corpo viver o que o cognitivo racionaliza. É um pedaço de arco-íris em nossos olhos que nem sempre representam o fim da tempestade, mas que nos avisam que os próximos raios de dor estão a caminho de nossas almas. Chorei por todas as mães, pais, filhas e filhos que estão nesse velar distante em tempos pandêmicos. Quando uma mãe sofre, todas nós deveríamos sentir: as perdas em uma comunidade são sempre coletivas. E somos, hoje, uma sociedade enlutada.

Uma grande amiga historiadora e antropóloga, Andreia Vicente, publicou recentemente um texto no qual ela fala dos efeitos culturais e sociais desse “não velar” os mortos. E eu achei que chorando baixinho, ficaríamos imunes aqui em nossa casa. No entanto, Clara, a Rosa da casa, um dia ao me ver respondendo mais uma dolorosa mensagem de “meus sentimentos”, disse com o ar sério e genuinamente aflito: “Mamãe, você vai morrer também?”

As lágrimas escorreram como uma avalanche acumulada de palavras líquidas. Há tantas mortes acumuladas e tantos “adeus” de longe, via wi-fi, sem abraço, respeito e dignidade. A cada dia que passa há mais palavras e menos espaço para dizê-las. Eu abracei minha grande pequena criança e disse: “Sim! Todos nós iremos morrer um dia, filha. Eu também irei morrer”. E acrescentei, com a mais autêntica das esperanças, como uma oração e um bendizer: “Eu não pretendo que isso aconteça tão cedo, filha. Eu estou fazendo tudo que está ao meu alcance para que a morte venha me visitar apenas quando eu estiver bem ‘velhinha’, e vocês já adultas, felizes e saudáveis”. Ela me abraçou forte e se acalmou. Disse que espera que demore muito mesmo e que me ama. O que eu não disse a ela é que eu não tenho certeza alguma de nada, e que meu controle da situação é mínimo.

Eu disse a verdade, porque é um valor que considero fundamental na maternagem, e sei que a dimensão de poder das palavras de uma mãe é como um decreto nessa idade: tem força e poder de lei. A linguagem tem a força e o peso de quem a profere. E dessa vez, eu realmente espero que tenha. Os funerais são ritos, cuja semântica e semiótica se entrelaçam em uma mensagem simples e dolorosa: a morte precisa ser honrada em homenagem à vida que foi arrancada de nossos convívios e afetos.

Este ano tem sido de muitas dores, sonhos e vidas ceifadas. Estamos em lutas e lutos constantes, em funerais cotidianos nesses tempos de pandemia. E os sepultamentos não velados doem porque enterram toda benemerência de nossas despedidas. A morte, mesmo sendo a única certeza de nossas existências, é uma visita bastarda e desaventurada.

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