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Kika Gama Lobo Por Atitude 50 Focada na maturidade como plataforma pessoal, a jornalista Kika Gama Lobo escreve sobre as sensações e barreiras que as mulheres de 50 anos vivenciam

Me abrace, me escute

A melhor vacina que temos atualmente é a solidariedade, então, te convido a ligar para uma amiga e ouvir como ela está. Só isso

Por Kika Gama Lobo - Atualizado em 1 set 2020, 21h09 - Publicado em 1 set 2020, 18h00

Desde que me transformei em influencer da maturidade (será que sou isso mesmo?), meu ouvido virou igreja. Ouço tantas falas da mulherada 50+ que poderia criar uma nova enciclopédia com verbetes e denominações para um existir jamais vivido.

Estamos aproveitando para ressignificar nossa existência e irmos mais e mais à luta do que desejamos. Tem delírios irrealizáveis, mas até nos sonhos estamos mais assertivas. Menos morar em Paris e mais organização financeira. Menos plástica no pescoço e mais sessões de análise.

Dia desses uma amiga cinquentona me disse que estava com saudades de ser filha. Achei forte. A mãe, esquecida em sua nova condição de demência, não tratava mais sua cria como mãe. A filha, espantada com esse partir em vida, me contava da dor de ver os olhos vazios e a expressão bege de sua querida mãe, aquela da vida toda, sempre ativa, presente, enérgica e agora pálida e praticamente muda.

É foda essa condição de não cognição, esse despedir-se da mente frente às lembranças, frente a um ritmo de vida, frente a uma existência toda. E minha amiga lá, meio pateta, com a mãe na frente dela, não se sentia mais filha. Aquilo me deu uma dor na alma. Quantas de nós passamos e iremos passar por essa dor? Com a régua da vida mais longa, vive-se mais, porém com que qualidade? E eu, ali ouvindo aquilo, pensei: como posso ajudá-la em sua dor? Não me ocorreu nada melhor do que um abraço. Longo. Mesmo de máscara, nesta pandemia que impôs uma nova etiqueta sanitária, apertei seu corpo contra o meu. E assim ficamos uns 5 minutos.

Quis me parecer com um útero. Com uma ursa. Com uma concha. Não falamos nada. Não choramos. Não rimos. Só respiramos juntas, num só pulmão que naquele momento trouxe de volta um calor ao coração dela. Meu convite, daqui pra frente, neste novo anormal, é que você ligue para uma amiga. Procure saber como ela está. Só isso. Ouça através da escuta ativa, pois a melhor vacina que temos atualmente é a solidariedade. Maduras, uni-vos.

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