E aí, comeu?

A violência sexual transita da consulta médica aos bastidores de Hollywood

Tenho lido sobre abusos sexuais. Muitos. Hollywood vive a síndrome de revelar os testes dos sofás, camas, sets… Os políticos saem de cena por causa de boquetes e bulinações. Nunca se viu tanta confissão, denúncia. Tem galã da TV Globo. Tem empresário de sucesso.

Achava que isso era coisa de prisioneiros de guerra –jovens violentadas, mutiladas, abusadas… Mas agora é no red carpet, no salão oval, no camarim, que se dá a revelação. Mas pensando com meus botões, quem é mulher levanta a mão e confessa: Você nunca foi violentada?

Os casos mais bizarros –envolvem pais, tios, parentes– têm o assédio na escola, na faculdade, no trabalho. Tem o médico tarado que te “examina”. Tem o motorista de Uber que tira o pau para fora e tem o usuário de ônibus que goza na tua coxa. No metrô e no trem, a piroca pica (péssimo trocadilho).

O pedreiro, na obra, coloca a mão no pênis e grita: “Lá em casa ia ter bate-estaca todo dia”. O feirante assobia e coça o saco enquanto te olha com desejo. O flanelinha coloca língua para fora e se insinua. O porteiro ajuda te comendo com os olhos… E assim caminha a existência feminina, lutando para não se sentir mercadoria e fugindo para não virar estatística.

E lá em casa a discussão é inflamada porque a minha filha mais velha é libertária e brada: #meucorpominhasregras e quer usar microssaias e camisetas sem sutiã porque o corpo é dela. E eu, macaca velha, fico feliz por ter gerado minha petite-revolucionaire, mas sei que lá fora a sociedade é machista, hipócrita, conservadora e imoral.

Estou adorando estas denúncias de tudo. Esse repúdio ao medo e ao silêncio, mas entra século, sai século, as estórias são as mesmas: estupros, pedofilia, incestos, abortos, assassinatos, mortes banais, violência extrema –sempre tendo a mulher como objeto de desejo.

No último relatório da OMS, uma mulher é violentada a cada 11 minutos no Brasil e o que me espanta é a criminalização da vítima. Ela pediu. Vadia. A sua roupa era um convite. Deu mole. E entre o nojo de quem legisla –homens em sua maioria– vamos rumando para o abismo do escárnio e da ridicularização da mulher que denuncia como se ela mesma fosse uma mentirosa.

Precisamos mudar as leis, precisamos aumentar nossa voz. Precisamos responsabilizar o agressor não importa o trabalho que dê. Uma das frases mais fortes que eu li é que o estupro é para sempre. Ele fica marcado na alma como tatuagem e a vítima leva consigo a agressão até o túmulo. Vamos falar mais sobre isso? 

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