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Kika Gama Lobo Por Atitude 50 Focada na maturidade como plataforma pessoal, a jornalista Kika Gama Lobo escreve sobre as sensações e barreiras que as mulheres de 50 anos vivenciam

Deixem as grisalhas em paz

Quando me perguntam por que resolvi deixar de pintar o cabelo, respondo: porque eu quis. Não é suficiente?

Por Kika Gama Lobo - Atualizado em 16 set 2020, 11h22 - Publicado em 16 set 2020, 13h30

Olho-me no espelho e sou um ser prateado. A cabeça já está bem grisalha, mas ainda naquele processo de transformação com resquícios da minha tintura loura. Entre os questionamentos dos outros que odeiam o fato de eu ter deixado meus fios brancos e a liberdade de nunca mais ter que passar uma hora com aquela tinta na cabeça, retocando mensalmente o topo do cucuruto, percebo que existe muito preconceito contra o envelhecimento voluntário da mulher de meia idade.

Tenho 56 anos, mas parece que o mundo me quer com 36, uns 20 anos a menos. Também parece que precisamos esticar a aparência ok até quando não pudermos mais parecer tão jovens. E qual é essa data? Tenho amigas com 80 que dou 68. Outras com 35 que dou 50. Bora deixar a mulherada em paz? Vocês acham medonho cabelo branco? Qual o problema deles me digam? Eu já confessei aqui que engordei demais na pandemia. Ando pesadona, sem muito trato. Esse isolamento me trouxe muitas neuras. Grana; DRs em casa; planos adiados; vida em suspenso.

No quesito beleza, pra economizar uns reais, eu mesma faço a unha da mão (faço o pé a cada dois meses com uma manicure que vem em casa), a depilação de meia perna engano com aquelas folhas Veet (não consigo fazer virilha e axila então faço de três em três meses com a tal manicure caseira) e, por fim, decidi cortar o cabelo num salão que cobra por um bom corte 67 reais incluindo a lavagem + secagem, o Leo Lopes em Ipanema. É a beleza enxuta. Mas as varizes estão gritando, a flacidez deu as caras e preciso urgentemente de um clareamento dental e facial. Porém decidi que farei como o esquartejador, por partes.

Estou naquele momento do balanço do estrago de seis meses sem trabalho, seis meses comendo sem parar, seis meses bebendo aquele vinho de lei, seis meses enrolando, esperando que o novo normal vingue. Odeio andar de máscara, pois meus óculos embaçam, odeio passar álcool gel a toda hora (mas gosto imenso de lavar as mãos) e estou de saco cheio desde que o mundo deu ruim. O que aprendi? Sei lá. Fiz tanto curso online que já embaralhei os saberes. As meditações eu tento entrar no modo zen, mas quando vejo perdi a hora marcada para relaxar. Não é estranho colocar no planner: relaxar?

Tá vendo que ando meio amarga? Então, quando me perguntam por que eu deixei os cabelos brancos, respondo: porque eu quis. Não é suficiente? Tem que ter um motivo maior? Tem que atender aos desejos de alguém? Cheguei a ser questionada se alguma marca de tinta tinha me oferecido ficar grisalha para eu ser a cara da mulher madura. Não, amiga, não sou famosa. Podem me deixar em paz? Podem deixar as cinquentonas em paz? Só queremos seguir em frente com saúde, alguma grana, mudando o que queremos e sendo fiéis aos nossos desejos. Lá na frente tem uma linha de chegada. Desculpa se estraguei seu momento Barbie dando spoiler, mas a vida tem fim.

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