Adestramento de mulheres

"O cara passa dos limites, comete barbaridades e a gente volta. Volta na esperança que ele vai mudar"

Tenho um cão, o BUD. É um vira-lata bem carioca, malandro, espaçoso, mal-educado. Castrei tarde e mesmo depois da libido a zero, ele faz misérias. Tem uma energia de policial, um latido de labrador, a beleza de uma pantera. É negro, lustrado, imponente.

Diante das bizarrices de pular em todo mundo, criar caso com muitos vizinhos e querer atenção full time, contratei um adestrador. O profissional chegou chegando. Palavras de ordem. Estímulos e punições. Coleiras e mini choques.

Eu, que não sou a dona do cachorro, só convivo, não participei de todas as sessões, mas, eis-me que, de férias, pude assistir – neste comecinho de ano – a uma aula corretiva. Ouvi vários comandos. Senta. Não lata. Quieto. Junto. Muito bem. Errado. Não. Parabéns. E nessa, fiz uma analogia entre as relações homem-mulher. Não sei se foi por causa da onda de feminicídio, o ódio contra nós, punições e violências letais, mas escutei aquele professor de cães como se ouvisse meus ex-maridos, ex-namorados, relações antigas e algumas nem tanto, numa onda lisérgica. Eu seria a cadela. O adestrador, meu companheiro.

Quem nunca ouviu: isso só por cima do meu cadáver. Exijo respeito. Vagabunda. E relendo a entrevista que a Luiza Brunet deu sobre seu então marido, agressor que a espancou, destaco algo que ela fala, que é muito verdadeiro: O cara passa dos limites, comete barbaridades e a gente volta. Volta na esperança que ele vai mudar. Como uma poodlezinha volta para seu dono. Au-aus em meio a Ai-ais. Basta! 

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