Como seria o cheiro do Brasil? 5 emoções viraram perfume
Projeto do Grupo Boticário convidou perfumistas a transformar sentimentos como saudade, amor e garra em fragrâncias
Como seria o cheiro do Brasil? A pergunta não tem uma única resposta, mas o Grupo Boticário decidiu transformá-la em experiência olfativa. Para isso, criou o Box do Sentir, projeto que reúne cinco fragrâncias inspiradas em emoções associadas às experiências vividas no país: saudade, garra, otimismo, euforia e amor.
Idealizada por César Veiga, perfumista do Grupo Boticário, a ação foi criada em celebração ao Dia do Perfumista e convidou profissionais de grandes casas internacionais de fragrâncias para interpretar cada sentimento. “As emoções são universais, porém as experiências são individuais”, explica César.
A proposta não era definir quais seriam as emoções que representam os brasileiros, mas entender como diferentes experiências no país poderiam ser traduzidas em perfume. “Longe da gente querer sintetizar todo o Brasil em apenas cinco emoções. A ideia era entender como esses afetos poderiam ganhar forma na perfumaria a partir das vivências de cada um”, afirma.
Cinco emoções, cinco fragrâncias
O projeto reuniu Yann Vasnier, da Givaudan, responsável pelo Otimismo; Natasha Côté-Mouzannar, da IFF, que criou a Euforia; Leslie Gauthier, da Symrise, responsável pela Garra; Véronique Nyberg, da MANE, à frente do Amor; e Honorine Blanc, da dsm-firmenich, que desenvolveu a Saudade.
A escolha dos profissionais levou em conta a relação que cada um construiu com o Brasil. “Nosso maior cuidado foi escolher perfumistas com uma conexão verdadeira com o Brasil. Queríamos fugir do clichê do brasileiro puramente festivo e do samba. O objetivo era capturar o que realmente os marcou enquanto viveram e trabalharam aqui”, diz César.
Apesar de trabalharem com a mesma matéria-prima da perfumaria, cada profissional partiu de uma interpretação diferente. “Cada perfumista recebe a mesma paleta de ingredientes — de rosas e jasmins à baunilha. A beleza está em como cada um interpreta esses elementos. É ali que nascem a assinatura, a vivência e o olhar único de cada criador”, explica.
Como transformar uma emoção em perfume?
Criar uma fragrância a partir de um sentimento envolve escolhas que vão além da seleção de notas. No caso do Amor, Véronique Nyberg decidiu não seguir o caminho mais associado à ideia de romantismo.
“Eu não queria uma interpretação literal, algo focado apenas no romantismo clássico. Passei a olhar para o amor sob a ótica da neurociência. Pensei em acolhimento, confiança, calor e conexão humana. Buscamos traduzir essas camadas em sensações”, conta.
A fragrância foi apresentada durante um jantar sensorial assinado pela designer gastronômica Simone Mattar. O Box do Sentir não será comercializado imediatamente e deve aparecer em experiências pontuais nas lojas flagship da marca.
Mesmo sem um lançamento comercial convencional, o processo de criação seguiu os mesmos critérios de desenvolvimento de uma fragrância. “O processo criativo é rigorosamente igual ao de qualquer grande lançamento. É uma construção artística, como compor uma música: ajustam-se acordes, doses e notas até atingir o equilíbrio perfeito”, afirma Véronique.
Pesquisa ajudou a definir as fragrâncias
A criação das fragrâncias também teve uma etapa de pesquisa. Antes do desenvolvimento dos perfumes, o Grupo Boticário ouviu 6 mil consumidores para entender como as pessoas relacionam memórias olfativas e emoções.
“Mapeamos essas percepções iniciais e, em seguida, partimos para testes de sensorialidade mais profundos”, explica Gustavo Dieamant, diretor executivo de P&D do Grupo Boticário.
Os consumidores também participaram das etapas seguintes de avaliação. Um exemplo foi justamente a fragrância do Amor. A primeira versão desenvolvida por Véronique já correspondia ao conceito, mas os testes apontaram que faltava uma sensação de afeto.
“A estrutura era belíssima, mas parecia rígida. Faltava aquela suculência de fruta vermelha, a doçura de uma calda de morango”, lembra Gustavo. A partir dos resultados, uma nota frutada foi acrescentada à composição.
Para o executivo, a pesquisa funciona como uma ferramenta de orientação dentro do processo criativo. “Nós não criamos a fragrância — o mérito artístico é do perfumista. Atuamos como um ‘nariz consultor’, garantindo que aquela obra converse com a alma e o gosto do brasileiro”, afirma.
No fim, porém, a experiência de um perfume continua sendo individual. Uma mesma combinação de notas pode despertar lembranças completamente diferentes em cada pessoa. É justamente essa relação entre fragrância, memória e experiência que está no centro do Box do Sentir.
Afinal, qual seria o cheiro do amor, da saudade ou da garra? Para César Veiga, a perfumaria pode ajudar a responder a uma pergunta que nem sempre cabe em palavras: “A perfumaria dá forma ao que por vezes nos faltam palavras para dizer. O que fizemos foi abrir espaço para que a emoção falasse por si.”
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