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Alinne Moraes sobre celibato voluntário: “Beijar na boca não é o importante”

Alinne Moraes detalha sua trajetória, a polêmica personagem Vanessa e compartilha reflexões sobre maternidade, beleza e suas escolhas

Por Lorraine Moreira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 set 2026, 10h00 | Atualizado em 11 set 2026, 10h39
Mulher de cabelos castanhos claros e ondulados, com um anel dourado no dedo anelar, olhando para a frente com a mão perto da boca, em fundo desfocado de escada e folhagem
Alinne Moraes estrela capa de setembro da Revista CLAUDIA (Maria Magalhães/CLAUDIA)
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Alinne Moraes sobre celibato voluntário: “Beijar na boca não é o importante” Priorizar nos meus resultados Google

Vanessa é uma mulher de certezas. Vestida de branco, com batom vermelho e mechas loiras, ela defende que pobres não deveriam ter filhos. A empresária sabe que criar uma pessoa não é barato e, na lógica dela, há quem possa pagar essa conta e quem deveria ficar de fora. Vanessa foi escrita para ser uma vilã. Para surpresa de Alinne Moraes, que a interpreta na novela Por Você, parte do público não a enxerga assim.

“Pensei que ia existir uma repulsa sobre essa frase, mas concordaram com ela. É como se o dinheiro mandasse nos sonhos das pessoas ou todo rico tivesse condições, vocação, para criar uma criança”, reflete a artista. “As pessoas se identificam mais com a elite do que com a maioria da população, da qual, geralmente, elas próprias fazem parte.”

Alinne olha nos olhos. Mesmo pela tela do computador, nada foge de seu alcance. A atriz está se recuperando de um terçol e, numa das raras brechas de uma agenda disputada, distribui os sorrisos que a tornaram íntima do público brasileiro. 

“Mocinha ou vilã faz de dez a doze horas por dia, de segunda a sábado, e decora 30 páginas para a manhã seguinte”, explica a rotina atribulada. “Às vezes, eu dou uma chorada para poder espairecer, porque, depois de doze horas de trabalho, não entra mais nada de texto. Eu realmente preciso chorar para aliviar o corpo.”

Não é à toa que Alinne sai de casa seis vezes por semana, passa metade do dia gravando e empresta a voz a uma personagem com quem não concorda. Aos 43 anos, depois de três décadas de sucesso diante das câmeras, ela pode se dar ao luxo de escolher seus trabalhos. E escolheu Vanessa porque quer criar discussões. “Logo que li o roteiro, entendi que ela faria o espectador pensar, e provocar debates é o mais importante.” 

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Alinne Moraes escolhe personagens que provocam debates

Mulher loira com coque, vestindo camisa jeans escura aberta e calça jeans, apoiada em um corrimão branco, olhando para frente. Ao fundo, vegetação verde e um céu claro.
Jaqueta e calça Fendi; Joias Renata Bernardo (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Faz sentido dada a variedade de mulheres que ela já levou à TV. Alinne fez de Clara, em Mulheres Apaixonadas, a primeira personagem lésbica aceita na televisão; em Além do Tempo, encontrou a alma de duas mulheres doces e corajosas, separadas por vidas diferentes; em Duas Caras, levou um papel que nasceu comum a ser o grande nome da novela.

Ao deixar de ser Alinne e se entregar às personagens, com todas as suas falhas e dores, a atriz encontra uma maneira de provocar o espectador. Nenhuma, porém, fez o Brasil se emocionar tanto quanto Luciana, de Viver a Vida.

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A modelo que depois de um acidente se tornou tetraplégica mobilizou o país a acompanhar, capítulo a capítulo, a reconstrução de sua vida. “25% da população têm algum tipo de deficiência. Onde estão essas pessoas? A gente não as enxerga”, comenta a atriz. 

Para ela, a trajetória de Luciana, da revolta após o acidente à não aceitação, passando pelo desejo de morrer até a descoberta de um novo sentido para a vida, foi também uma experiência de transformação. “É uma morte e um renascimento”, diz. “Pude me aperfeiçoar também como atriz. Por muito tempo, a personagem não tinha nenhum movimento. Eu só tinha o meu olhar para contar essa história.” 

A infância de Alinne Moraes e o início da carreira como modelo

Mulher loira de cabelo preso, vestindo um suéter creme de manga larga, sentada na cama com lençóis brancos e cabeceira de madeira escura, olhando para frente com expressão séria
Tricô Louis Vuitton; Joias Renata Bernardo (Maria Magalhães/CLAUDIA)
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Antes de emprestar o corpo a mulheres tão diferentes na dramaturgia, Alinne teve em casa duas grandes referências. Sua mãe engravidou na adolescência e, durante a infância da filha em Sorocaba, interior de São Paulo, conciliava o trabalho com os estudos. “Quando acordava, ela não estava em casa. Quando ia dormir, também”, lembra.

Quem cuidava da menina era a avó, benzedeira, cuja porta de casa costumava receber filas de pessoas à espera de uma bênção. “Ela tinha um olhar molhado, um olhar para o mundo. Ela me ensinou a enxergar o outro”, pontua. 

Da mãe, Alinne herdou a determinação. “Durante anos, eu a vi como uma irmã mais velha. Mas ela me deu a firmeza necessária para eu desejar ser uma mulher independente, sair de casa e seguir meus sonhos. É como se ela me preparasse para guerrear”, diz. “Fui criada por duas mulheres. Desde sempre, tudo me pareceu possível.”

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Aos doze anos, começou a trabalhar como modelo. Seu primeiro cachê, por uma campanha da Ellus, equivalia a dez vezes o salário da mãe, que vendia produtos Avon e doces de porta em porta. A carreira a levou ao Japão, à Espanha, à Alemanha, aos Estados Unidos e à França. Na adolescência, comprou a casa da família.

“Foi uma conquista, mas também deixei de lado parte da minha infância”, reflete. “Nos momentos em que não trabalhava, me juntava com algumas modelos da mesma idade e ainda brincávamos de boneca.”

Aos 17 anos, na volta de uma temporada em Paris, foi chamada para um teste na Globo. Pediram que contasse sua história, e Alinne se emocionou ao falar sobre ter sido criada por uma mãe solo.

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O diretor Ricardo Waddington, então, disse: “Vou te entregar um papel que tem tudo a ver com a sua história. É uma adolescente que mora em uma república e se torna mãe solteira. Acho que a arte pode ajudar nessa compreensão da sua vida. Talvez você tenha coisas para trocar com a gente, com o público”.

Enquanto chorava, Alinne falou: “mas eu não sei fazer isso, nunca fiz isso na minha vida, eu não sou atriz’”. Ricardo respondeu: “eu sei, eu conheço, tenho certeza de que você é atriz.”

Como Alinne Moraes chegou às novelas e conquistou a TV

Mulher loira de cabelos ondulados, vestindo um longo vestido creme com amarrações laterais, posa em meio a folhagens verdes escuras, olhando para baixo e segurando a barra do vestido
Vestido Helo Rocha (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Quando a novela Coração de Estudante foi ao ar, a artista descobriu que o diretor estava certo. “Senti na hora que sabia fazer aquilo, que falava a mesma língua dos atores.” Embora tenha conquistado seu espaço também no cinema, no teatro e nas séries, as novelas continuam ocupando um lugar especial em sua trajetória.

“Novela é um patrimônio que a gente tem. O papel da novela é fazer a sociedade se questionar, enxergar coisas para as quais, às vezes, a pessoa ainda não está preparada”, diz. Mas reconhece as dificuldades que o formato enfrenta, com tantas possibilidades de entretenimento, do streaming às redes sociais. “A gente precisa reconquistar o público, deixar de fazer novela com a pretensão de ser cinema ou série. A gente gosta do novelão.”

Alinne Moraes fala sobre não estar beijando desde que se separou, em outubro de 2025

Mulher de cabelos loiros ondulados, vestindo um longo vestido branco translúcido, sentada em um chão de azulejos vermelhos e brancos com padrões geométricos. Ela olha para a frente com uma expressão séria
Vestido Guto Carvalho Neto; Joias Renata Bernardo (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Alinne preserva o que acontece da porta de casa para dentro, mas o público também se interessa pela mulher-camaleão que se dobra e desdobra para dar vida a personagens tão diferentes. Não à toa, suas declarações costumam viralizar. Em uma entrevista recente, contou que não beija desde o fim do relacionamento de 14 anos com Mauro Lima, em outubro de 2025. Bastou para que seu chamado celibato voluntário virasse assunto. 

“Quis dizer que beijar na boca não é o importante para mim, não de forma literal, mas não é o mais importante [em uma relação]”, diz à CLAUDIA. “Talvez essa seja minha grande dificuldade em dar entrevistas. Sempre estão buscando alguma coisa que chame, que seja sensacionalista, para vender. Não quero falar sobre a cor da minha calcinha, sabe? Existem coisas mais importantes.”

Não foi a primeira vez que uma fala sua ganhou vida própria. Numa outra entrevista, disse não ter religião e ser seu próprio Deus. A frase vinha de uma peça que havia acabado de fazer, O Incrível Diálogo Entre Krishna e Arjuna.

“Arjuna perguntava para Krishna: ‘Quem é Deus?’ E ele falava: ‘Deus é tudo. É o cabelo, é a luz, é o mar, é o outro, é seu vizinho, é você’. Então eu disse que Deus era o que você acredita. Nós somos vítimas do que nós acreditamos. Se eu acredito que vai acontecer, vai acontecer.”

A declaração ajudou a criar a imagem de uma Alinne ateia, o que ela desmente. “Tenho muita fé, porque acredito na semente, nessa coisa boba de que, se você planta aqui, vai colher depois.”

Alinne Moraes reflete sobre beleza, vaidade e envelhecimento

Mulher de cabelos loiros cacheados, vestindo regata branca e calça jeans, sentada descalça em uma escada de azulejos decorados, tocando o brinco enquanto olha para a câmera. Ao fundo, folhagem verde
Regata e calça Calvin Klein; Joias Renata Bernardo (Maria Magalhães/CLAUDIA)

À medida que se expõe, o público reivindica uma espécie de propriedade sobre a vida dela. “Quanto mais você se mostra, se coloca, está nos holofotes, mais as pessoas acham que são donas da sua vida, do seu corpo e da sua estética.” A atriz não está disposta a se submeter a esse olhar. “Não me importo com o que falam sobre minha aparência, porque não quero ser vítima e nem me vitimizar. Eu não sou casada com a beleza.”

Uma memória antiga explica o porquê. Pouco depois de vencer um concurso de moda que a lançou no mercado, deixou a sétima série para seguir a carreira de modelo. Na despedida, uma das professoras de quem mais gostava lhe disse: “Alinne, não se esqueça: beleza é passageira, sabedoria é eterna”.

“Tinha doze anos e não esqueço disso. Era só um momento que eu ia viver”, comenta a atriz, que concluiu o ensino médio entre as viagens da carreira de modelo e, depois, investiu em cursos livres de teatro e interpretação.

Isso não significa que tenha abandonado a vaidade. “Claro que eu sou vaidosa, mas a minha vaidade me faz bem, ela está num outro lugar.” Faz exercícios, cuida da pele, é adepta dos lasers. O que não pretende é travar uma batalha contra o tempo. “Já vi comentários de que estou velha. Graças a Deus, estou com 40, mas quero ir até os 100. Me imagino nessa idade olhando para mim, agora, e me achando uma garota”, diz a artista.

“Quero envelhecer e, para isso, preciso estar aberta. Então, me acostumo rápido com uma ruga nova, um vinco, uma celulite. Dou boas-vindas porque isso também é uma ferramenta de trabalho.” 

Alinne Moraes revela como controla o uso da internet pelo filho

Mulher de cabelos longos e ondulados, sorrindo, sentada em uma cadeira de madeira escura, vestindo um suéter bege de tricô com botões nos ombros, com as pernas dobradas e as mãos próximas ao rosto, unidas, com unhas pintadas de vermelho. O fundo é uma parede de pedra clara
Alinne Moraes fala sobre o perigo de deixar crianças usarem o celular sem supervisão dos pais (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Há questões do presente que mobilizam Alinne com uma urgência maior. Seu filho, Pedro, tem doze anos e, como tantas mães do século 21, a atriz se preocupa com a internet. “Entregar um dispositivo como o celular, a internet, nas mãos de uma criança sem supervisão é como deixar o seu filho solto na Avenida Paulista, às 3h da manhã, sozinho”, comenta.

A atriz deu um celular para Pedro recentemente, com tempo de uso controlado e acesso apenas a plataformas voltadas para crianças. “O que você consome é o que você se torna também.” 

É o começo da vida de Pedro como espectador de novelas, agora que chegou à idade permitida pela classificação indicativa. No primeiro capítulo, não entendeu que a história continuaria no dia seguinte. “Ele falou: ‘mas acabou na morte da personagem. E agora?’ Eu respondi que não era um episódio, era um capítulo da novela. Amanhã continuava da morte.” Até então, ele assistia a séries infantis de episódios independentes, como Detetives do Prédio Azul. 

Aos domingos, com Pedro e os amigos, Alinne encontra algum descanso. “Comprei um karaokê aqui em casa, que é o que tem me deixado mais tranquila.” Nos outros dias, volta à Vanessa, uma personagem que, para ela, ainda pode mudar. “Acredito na melhora das pessoas. Não estou falando sobre psicopatia, mas não gosto de fechar a porta. Novela é viva.”

A artista construiu a carreira procurando as contradições por trás das personagens que interpreta. A história mais interessante, porém, está do outro lado do espelho. A menina que saiu de Sorocaba aos doze anos, a modelo que conheceu o mundo, a atriz que foi mocinha, vilã, mãe e uma pessoa com deficiência, a mulher que se casou, se separou e não quer fazer da beleza um compromisso.

Ao longo de três décadas, Alinne mudou de papel muitas vezes. Assim como sua carreira, ela mostra que uma mulher pode ser muitas. Às vezes, todas ao mesmo tempo.

Créditos

  • Styling: Bruno Pimentel
  • Beleza: Carla Rodrigues 
  • Direção de arte: Mariana Manini  
  • Locação: Santa Teresa Hotel RJ – MGallery
  • Light designer: Felippe Costa 
  • Produção de moda: Renan Bernardo e Vitória Veloso 
  • Hairstylist: Maiara Salsa 
  • Retouch: Leonardo Miguel

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