A história real do futebol feminino que Ted Lasso resgata após décadas
A desigualdade nos campos foi construída por leis, federações e décadas de exclusão
Há exatamente um ano, quando a nova fase de Ted Lasso ainda era apenas uma promessa, escrevi nesta coluna em CLAUDIA sobre a importância de a série escolher o futebol feminino como centro de sua história. Naquele momento, a discussão era sobre o crescimento da modalidade, a desigualdade que ainda separa homens e mulheres e a capacidade da cultura pop de provocar uma mudança cultural.
Cinquenta anos de proibição
Agora, com a temporada no ar, uma informação mencionada quase de passagem ajuda a explicar por que o futebol feminino ainda precisa lutar tanto por espaço: na Inglaterra, as mulheres ficaram afastadas dos campos ligados à Federação Inglesa entre 1921 e 1971.
Foram cinquenta anos.
A frase parece uma curiosidade histórica, mas desmonta a ideia de que o futebol feminino teria menos tradição, público ou força comercial porque demorou a se desenvolver. Ele não demorou. Em muitos países, já existia e começava a crescer quando instituições esportivas e governos decidiram interrompê-lo.
Na Inglaterra, a modalidade ganhou força durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto os homens eram enviados ao conflito, as mulheres ocuparam seus lugares nas fábricas, formaram equipes e disputaram partidas que também arrecadavam dinheiro para causas beneficentes. Alguns jogos reuniram dezenas de milhares de espectadores.
Em 1921, porém, a Federação Inglesa declarou que o futebol seria inadequado para elas e proibiu os clubes filiados de ceder seus campos às partidas femininas. Árbitros ligados à entidade também não poderiam trabalhar nos jogos. Não era crime uma mulher tocar em uma bola, mas ela foi expulsa da estrutura necessária para que um esporte cresça: estádios, clubes, competições, investimento e formação de atletas.
Quem assistiu a
A League of Their Own talvez reconheça o mecanismo. No filme de 1992, com Madonna e Geena Davis, inspirado na liga profissional de beisebol feminino criada nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres são chamadas para manter o esporte vivo enquanto os homens estão no conflito. Atraem público e se tornam profissionais, mas precisam jogar de saias, frequentar aulas de etiqueta e provar que continuavam suficientemente “femininas”.
A oportunidade existia porque havia uma emergência, não porque a sociedade tivesse aceitado plenamente sua presença. Quando os homens voltavam, esperava-se que elas devolvessem empregos, campos e visibilidade. No futebol inglês, como a modalidade continuou crescendo, a resposta não foi incorporá-la, mas interrompê-la.
A exclusão também foi construída
No Brasil, a exclusão partiu do próprio Estado. Em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, um decreto estabeleceu que mulheres não poderiam praticar esportes considerados incompatíveis com as chamadas “condições de sua natureza”. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos incluiu expressamente o futebol entre as modalidades proibidas.
A proibição só foi revogada em 1979, e a regulamentação veio em 1983. Durante quase quatro décadas, o país que transformou o futebol em parte de sua identidade nacional decidiu oficialmente que esse símbolo não pertencia às mulheres. Depois, esperou que elas recuperassem rapidamente tudo o que lhes havia sido negado durante gerações.
Nos Estados Unidos, não houve proibição nacional semelhante, mas a exclusão apareceu na falta de acesso a equipes escolares, treinadores, campos, competições e bolsas universitárias. A transformação só começou em 1972, com o Title IX, que proibiu a discriminação sexual em programas educacionais financiados pelo governo federal e ajudou a construir uma base esportiva feminina.
A primeira seleção oficial surgiu em 1985. Seis anos depois, os Estados Unidos venceram a primeira Copa do Mundo feminina. A diferença não estava numa aptidão natural das americanas, mas na oportunidade.
A quarta temporada de Ted Lasso mostra já no primeiro episódio que o problema não ficou no passado: a nova equipe enfrenta pouco investimento, dificuldade para atrair público e a obrigação constante de provar sua viabilidade comercial. Esse cenário é real, mas chamá-lo simplesmente de rejeição esconde como o desinteresse também foi construído.
O público existe
O futebol feminino recebe menos divulgação, regularidade e estrutura. Atrai, assim, menos público e essa audiência menor é usada para justificar a continuidade do pouco investimento. É um círculo perverso: exige-se resultado comercial antes de oferecer as condições necessárias para produzi-lo.
Na Inglaterra, grandes jogos e partidas da seleção já demonstraram que existe público. O desafio é transformar o entusiasmo das finais em hábito semanal. No Brasil, chega a ser triste assistir pela televisão a partidas diante de arquibancadas quase vazias. As transmissões são uma conquista, mas transmitir não resolve a equação.
O público do futebol masculino foi construído durante gerações por campeonatos contínuos, programas diários, ídolos, rivalidades e histórias transmitidas dentro das famílias. Ninguém nasce conhecendo a escalação de seu clube: aprende porque aquela narrativa o cerca desde a infância.
O futebol feminino, ao contrário, ainda é apresentado como se estivesse sempre começando. Mudam-se horários e locais, calendários são interrompidos e jogadoras importantes permanecem desconhecidas. Depois, cobra-se que o interesse surja espontaneamente.
Há misoginia também. Parte do público compara a força e a velocidade das mulheres às dos homens para concluir que o jogo seria inferior. Ninguém, porém, exige que uma partida masculina das divisões inferiores tenha o mesmo nível da Champions League para merecer torcida, investimento e transmissão. As mulheres são comparadas apenas à versão mais rica e consolidada do esporte.
Durante muito tempo, o estádio e o domínio das regras também funcionaram como territórios de afirmação masculina. Quando jogadoras, técnicas, árbitras, narradoras, comentaristas e torcedoras ocupam esses espaços, algumas pessoas reagem como se elas estivessem invadindo algo que não lhes pertence, justamente a ideia que décadas de proibição ajudaram a construir.
Muito mais que um jogo
É por isso que a nova fase de Ted Lasso pode ser tão importante. A série sempre usou o futebol para falar de masculinidade, saúde mental, liderança, relações de poder e pertencimento. Ao colocar Ted diante de uma equipe feminina, não está apenas trocando jogadores por jogadoras. Está entrando numa história marcada por proibições, apagamentos e desigualdade institucional.
A cultura pop não substitui investimento, calendário, salários ou centros de treinamento. Mas pode oferecer rostos, conflitos, afetos e histórias, aproximando um universo que muita gente ainda observa de longe.
Assim, foi muito bom que a série tenha justamente começado com a contextualização necessária de lembrar que as mulheres não chegaram tarde ao futebol, apenas ainda estão correndo para recuperar o tempo, os campos e a história que lhes foram roubados.
A menos de um ano da Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira realizada no Brasil e na América do Sul, Ted Lasso e sua filosofia “lassoniana” chegam na hora certa. Para virar o jogo, talvez seja preciso começar mudando a maneira como contamos essa história. E nós acreditamos em Ted Lasso.
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