Oferta Relâmpago: Revista Impressa por R$ 9,90/mês e ganhe descontos e cashback.
Imagem Blog

Ana Claudia Paixão

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

A história real do futebol feminino que Ted Lasso resgata após décadas

A desigualdade nos campos foi construída por leis, federações e décadas de exclusão

Por Ana Claudia Paixão 9 ago 2026, 17h00
Um homem sorridente com bigode, óculos de sol e viseira branca, vestindo uma camisa polo vermelha, ao lado de uma mulher séria de cabelo preso, usando jaqueta azul marinho com os braços cruzados, em um campo aberto
Ted divide a comissão técnica da equipe feminina com uma nova treinadora, interpretada por Tanya Reynolds, personagem apresentada na quarta temporada (Apple TV/Reprodução)
Continua após publicidade
A história real do futebol feminino que Ted Lasso resgata após décadas Priorizar nos meus resultados Google

Há exatamente um ano, quando a nova fase de Ted Lasso ainda era apenas uma promessa, escrevi nesta coluna em CLAUDIA sobre a importância de a série escolher o futebol feminino como centro de sua história. Naquele momento, a discussão era sobre o crescimento da modalidade, a desigualdade que ainda separa homens e mulheres e a capacidade da cultura pop de provocar uma mudança cultural.

Cinquenta anos de proibição

Elenco de Ted Lasso em close-up, com Ted sorrindo no centro, rodeado por outros personagens com expressões variadas. O logotipo da Apple TV+ e o título TED LASSO em branco estão na parte inferior.
Jason Sudeikis retorna como Ted Lasso na quarta temporada da série, agora à frente da recém-criada equipe feminina do AFC Richmond (Apple TV/Reprodução)

Agora, com a temporada no ar, uma informação mencionada quase de passagem ajuda a explicar por que o futebol feminino ainda precisa lutar tanto por espaço: na Inglaterra, as mulheres ficaram afastadas dos campos ligados à Federação Inglesa entre 1921 e 1971.

Foram cinquenta anos.

Continua após a publicidade

A frase parece uma curiosidade histórica, mas desmonta a ideia de que o futebol feminino teria menos tradição, público ou força comercial porque demorou a se desenvolver. Ele não demorou. Em muitos países, já existia e começava a crescer quando instituições esportivas e governos decidiram interrompê-lo.

Na Inglaterra, a modalidade ganhou força durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto os homens eram enviados ao conflito, as mulheres ocuparam seus lugares nas fábricas, formaram equipes e disputaram partidas que também arrecadavam dinheiro para causas beneficentes. Alguns jogos reuniram dezenas de milhares de espectadores.

Continua após a publicidade

Em 1921, porém, a Federação Inglesa declarou que o futebol seria inadequado para elas e proibiu os clubes filiados de ceder seus campos às partidas femininas. Árbitros ligados à entidade também não poderiam trabalhar nos jogos. Não era crime uma mulher tocar em uma bola, mas ela foi expulsa da estrutura necessária para que um esporte cresça: estádios, clubes, competições, investimento e formação de atletas.

Quem assistiu a

Continua após a publicidade

A League of Their Own talvez reconheça o mecanismo. No filme de 1992, com Madonna e Geena Davis, inspirado na liga profissional de beisebol feminino criada nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres são chamadas para manter o esporte vivo enquanto os homens estão no conflito. Atraem público e se tornam profissionais, mas precisam jogar de saias, frequentar aulas de etiqueta e provar que continuavam suficientemente “femininas”.

A oportunidade existia porque havia uma emergência, não porque a sociedade tivesse aceitado plenamente sua presença. Quando os homens voltavam, esperava-se que elas devolvessem empregos, campos e visibilidade. No futebol inglês, como a modalidade continuou crescendo, a resposta não foi incorporá-la, mas interrompê-la.

A exclusão também foi construída

Pessoas assistem a um jogo em um estádio. Um homem de óculos e camisa de beisebol branca e vermelha aponta para frente. Ao lado, uma mulher loira de boca aberta e uma jovem loira de blusa amarela e minissaia preta olham para cima. Outros torcedores aplaudem ao fundo, incluindo um homem de bigode e camisa polo listrada
Keeley Jones acompanha uma partida nas arquibancadas ao lado de Rebecca Welton e Ted Lasso em uma das cenas da nova temporada (Apple TV/Reprodução)
Continua após a publicidade

No Brasil, a exclusão partiu do próprio Estado. Em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, um decreto estabeleceu que mulheres não poderiam praticar esportes considerados incompatíveis com as chamadas “condições de sua natureza”. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos incluiu expressamente o futebol entre as modalidades proibidas.

A proibição só foi revogada em 1979, e a regulamentação veio em 1983. Durante quase quatro décadas, o país que transformou o futebol em parte de sua identidade nacional decidiu oficialmente que esse símbolo não pertencia às mulheres. Depois, esperou que elas recuperassem rapidamente tudo o que lhes havia sido negado durante gerações.

Continua após a publicidade

Nos Estados Unidos, não houve proibição nacional semelhante, mas a exclusão apareceu na falta de acesso a equipes escolares, treinadores, campos, competições e bolsas universitárias. A transformação só começou em 1972, com o Title IX, que proibiu a discriminação sexual em programas educacionais financiados pelo governo federal e ajudou a construir uma base esportiva feminina.

A primeira seleção oficial surgiu em 1985. Seis anos depois, os Estados Unidos venceram a primeira Copa do Mundo feminina. A diferença não estava numa aptidão natural das americanas, mas na oportunidade.

A quarta temporada de Ted Lasso mostra já no primeiro episódio que o problema não ficou no passado: a nova equipe enfrenta pouco investimento, dificuldade para atrair público e a obrigação constante de provar sua viabilidade comercial. Esse cenário é real, mas chamá-lo simplesmente de rejeição esconde como o desinteresse também foi construído.

O público existe

Homem branco de bigode, camisa azul clara, gravata escura e calça cáqui, pulando com os braços abertos em frente a uma casa com número 1236 na fachada, sob um céu azul
Antes de voltar à Inglaterra, a temporada mostra Ted em Kansas City, sua cidade natal, retomando parte da vida que deixou para trás (Apple TV/Reprodução)

O futebol feminino recebe menos divulgação, regularidade e estrutura. Atrai, assim, menos público e essa audiência menor é usada para justificar a continuidade do pouco investimento. É um círculo perverso: exige-se resultado comercial antes de oferecer as condições necessárias para produzi-lo.

Na Inglaterra, grandes jogos e partidas da seleção já demonstraram que existe público. O desafio é transformar o entusiasmo das finais em hábito semanal. No Brasil, chega a ser triste assistir pela televisão a partidas diante de arquibancadas quase vazias. As transmissões são uma conquista, mas transmitir não resolve a equação.

O público do futebol masculino foi construído durante gerações por campeonatos contínuos, programas diários, ídolos, rivalidades e histórias transmitidas dentro das famílias. Ninguém nasce conhecendo a escalação de seu clube: aprende porque aquela narrativa o cerca desde a infância.

O futebol feminino, ao contrário, ainda é apresentado como se estivesse sempre começando. Mudam-se horários e locais, calendários são interrompidos e jogadoras importantes permanecem desconhecidas. Depois, cobra-se que o interesse surja espontaneamente.

Há misoginia também. Parte do público compara a força e a velocidade das mulheres às dos homens para concluir que o jogo seria inferior. Ninguém, porém, exige que uma partida masculina das divisões inferiores tenha o mesmo nível da Champions League para merecer torcida, investimento e transmissão. As mulheres são comparadas apenas à versão mais rica e consolidada do esporte.

Durante muito tempo, o estádio e o domínio das regras também funcionaram como territórios de afirmação masculina. Quando jogadoras, técnicas, árbitras, narradoras, comentaristas e torcedoras ocupam esses espaços, algumas pessoas reagem como se elas estivessem invadindo algo que não lhes pertence, justamente a ideia que décadas de proibição ajudaram a construir.

Muito mais que um jogo

É por isso que a nova fase de Ted Lasso pode ser tão importante. A série sempre usou o futebol para falar de masculinidade, saúde mental, liderança, relações de poder e pertencimento. Ao colocar Ted diante de uma equipe feminina, não está apenas trocando jogadores por jogadoras. Está entrando numa história marcada por proibições, apagamentos e desigualdade institucional.

A cultura pop não substitui investimento, calendário, salários ou centros de treinamento. Mas pode oferecer rostos, conflitos, afetos e histórias, aproximando um universo que muita gente ainda observa de longe.

Assim, foi muito bom que a série tenha justamente começado com a contextualização necessária de lembrar que as mulheres não chegaram tarde ao futebol, apenas ainda estão correndo para recuperar o tempo, os campos e a história que lhes foram roubados.

A menos de um ano da Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira realizada no Brasil e na América do Sul, Ted Lasso e sua filosofia “lassoniana” chegam na hora certa. Para virar o jogo, talvez seja preciso começar mudando a maneira como contamos essa história. E nós acreditamos em Ted Lasso.

18 unhas decoradas para a Copa do Mundo que vão além do óbvio

 

Assine a newsletter de CLAUDIA

Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters:

Acompanhe o nosso WhatsApp

Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp

Acesse as notícias através de nosso app 

Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.

As receitas de CLAUDIA Cozinha na sua mão

Receitas práticas e saborosas para qualquer hora do dia! Seja para um ocasião especial ou até para um jantar rápido e saudável. O aplicativo de CLAUDIA Cozinha com nossas melhores receitas está disponível para iOS e Android.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Básico

Moda, beleza, autoconhecimento, mais de 11 mil receitas testadas e aprovadas, previsões diárias, semanais e mensais de astrologia.
De: R$ 14,99/mês Apenas R$ 2,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 52% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Receba Claudia impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 12,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).