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A solidão da amante no Dia dos Namorados: “Não ganhava nem uma flor”

Enquanto casais trocam declarações, presentes e fotos, há mulheres que enfrentam uma data marcada pela espera e por sentimentos contraditórios

Por Beatriz Lourenço 12 jun 2026, 05h30
Homem de suéter marrom e jeans, com as mãos entrelaçadas, olha para baixo enquanto uma mulher de casaco bege e cabelo liso escuro o encara, em um corredor claro com portas e um cabideiro ao fundo
Descubra o impacto invisível de amores escondidos, especialmente no Dia dos Namorados, para mulheres que vivem na sombra (Pexels/Reprodução)
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O Dia dos Namorados é uma das datas que mais reforçam o ideal do amor romântico. Mas existe um grupo de mulheres que costuma atravessar esse período em silêncio. Para esta reportagem, CLAUDIA ouviu mulheres que viveram ou vivem relacionamentos extraconjugais. Para preservar suas identidades, todos os nomes foram alterados.

A amante invisível

Quando Ana Carolina* conheceu Renato*, ambos estavam solteiros. Eles ficavam de vez em quando e, mesmo quando ele começou a namorar outra pessoa, procurava Ana e costumava dizer que “largaria tudo para ficar com ela”.

“No Dia dos Namorados, eu acompanhava postagens e declarações dos dois. E eu não ganhava nem uma flor murcha, muito menos uma mensagem. Era como se esse fosse um dia qualquer”, revela Ana, frustrada. “Em contrapartida, havia momentos em que ele dizia que eu era a melhor pessoa. Me valorizava.”

Em um mundo onde o amor é cada vez mais exibido na esfera pública e nas redes sociais, viver uma relação secreta pode intensificar sentimentos de invisibilidade. A data especial se transforma, portanto, em um marcador emocional que evidencia ausências, promessas não cumpridas e a distância entre expectativa e realidade.

Quando Renato se separou e reencontrou Ana Carolina, voltaram a ficar. Tempos depois, ela soube que outra mulher estava saindo com ele. Não houve explicações e agora é ela quem não quer mais. 

Para a psicóloga Magda Tartarotti, o desfecho da história de Ana Carolina não é incomum. “Quem desiste, geralmente, é a mulher. Isso porque a cada dia ela tem sua esperança frustrada. E nessas datas comemorativas ela tem um choque de realidade e sente que sua dor está sendo pisoteada. É um relacionamento abusivo. A solidão escancara a regra do vínculo”.

A hora de ir embora

Quando Bianca*, outra mulher ouvida pela reportagem, encontrou Marcelo* no escritório, sentiu atração. A identificação foi crescendo e as conversas seguiam cada vez mais intensas. Mesmo casado, ambos se apaixonaram.

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“Os aniversários, festas de fim de ano e todas as comemorações são ruins porque não há a possibilidade de fazer algo em público”, diz Bianca. Para ela, a solidão não foi algo óbvio: “Ele passou o Dia dos Namorados comigo, ficamos em casa e trocamos presentes. A tristeza vinha na hora de dormir, quando ele tinha que ir embora.”

Caroline Apple nos convida a refletir sobre a hora de deixar um relacionamento ir embora.
(Dumitru Ochievschi (Getty)/Reprodução)

Ficar às escondidas

Para entender como é viver uma relação que nunca pode ser assumida, Magda Tartarotti volta na história social e relembra que o casamento se inicia por acordos políticos e procriação. Nesse sentido, o adultério sempre foi proibido – desde que fosse cometido pela mulher. O homem, por sua vez, era comumente incentivado a procurar casos extraconjugais para se divertir.

“Vale lembrar que o amor traz consigo sentimentos não muito louváveis. Ele gera dependência, abnegação, submissão, entre outros tantos”, explica. “Há quem fique com alguém comprometido por medo da solidão, carência, necessidade de paixão, descompromisso, necessidade de sexo, atração física – e até por dinheiro.” 

A esperança da exclusividade e o peso de viver de migalhas

Por alguns meses, Marisa* ficava esperando receber mensagens de Felipe*, que só conseguia enviá-las quando estava longe de sua esposa. Por mais que fosse bem-sucedida profissionalmente, independente e confiante, ela encontrava dificuldade para reconhecer suas necessidades emocionais e estabelecer limites afetivos.

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“Quem está como amante costuma acreditar que o casamento do parceiro está falido e que não há relação conjugal. Já os homens acreditam que suas amantes são fiéis. É curioso porque, mesmo na infidelidade, há a crença da fidelidade”, comenta Magda. “O infiel discursa todos os atributos de sua amante até ela acreditar que é única em sua vida.”

Segundo a especialista, a situação parece mais fácil à primeira vista pois o casal está longe do esforço de administrar a vida cotidiana, como o cuidado com os filhos, contas a pagar e a própria organização do lar, por exemplo. 

Stephanie Habrich reflete sobre o quão profundo pode ser o luto pelo término de uma relação.
O quão profundo pode ser o luto pelo término de uma relação (Justin Paget (Getty)/Reprodução)

Mulher traída também sofre

Embora a figura da amante concentre grande parte da atenção quando se fala em relações extraconjugais, existe outra pessoa atravessada por essa história: quem foi traído. A descoberta de uma infidelidade pode desencadear sentimentos profundos de rejeição, humilhação, perda de confiança e até questionamentos sobre a própria identidade. 

O impacto emocional é comparável ao de um luto, já que a pessoa precisa lidar não apenas com a quebra da confiança, mas também com o fim da relação que acreditava existir. 

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“Nessa história, alguém é enganado dentro do acordo firmado. É um processo de violência porque o outro submete sua própria vontade. Também há uma transgressão feita em relação ao acordo feito pelos pares. É uma relação de poder que não leva a ética em consideração”, finaliza Magda.

“No caso da amante, a vida pode se resumir a migalhas e ilusões. Nem sempre a contrapartida é a mesma, já que elas podem oferecer muito e continuar vivendo na sombra.”

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