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Isadora Cruz: “Meu propósito é representar a força da mulher”

Com orgulho das próprias raízes, Isadora Cruz aproveita sua trajetória e suas personagens para fazer um convite à liberdade e à força de ser quem se é

Por Carol Castro 12 jun 2026, 08h00 | Atualizado em 12 jun 2026, 12h29
Mulher de pele morena, cabelos castanhos longos e ondulados, vestindo uma blusa cinza-clara de gola alta, olhando para a direita com expressão séria
Isadora Cruz, de "Coração Acelerado", compartilha sua trajetória na arte, da infância à Globo, e o uso de seus papéis para o empoderamento feminino (Maria Magalhães/CLAUDIA)
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Lá pelos oito ou nove anos, Isadora Cruz começou a levar um nécessaire com kit de limpeza para todo lado. Chegava na escola, colocava álcool em um paninho e passava na carteira. As amigas riam, sem entender nada. Ela nem ligava, seguia firme com os tiques. Antes de usar o banheiro, pegava o álcool de novo e limpava toda a pia. Manteve aquele ritual por algumas semanas.

Não era um tique dela. Era o tique de Ray, uma menininha de oito anos, controladora, fria como um adulto, e hipocondríaca. Interpretada por Dakota Fanning, Ray é a personagem do filme Grande Menina, Pequena Mulher, um clássico das comédias, lançado em 2003. 

“Eu tinha essa coisa de ficar imitando as atrizes dos filmes de que gostava. Assistia e passava a semana toda fingindo ser elas. E eram sempre personagens diferentes”, relembra. “Passei um tempão imitando ela [a Ray], e ninguém fazia ideia do porquê. Era um jogo que eu tinha comigo mesma. Já era uma artista querendo desabrochar. Mas ainda não compreendia isso.”

Mulher de cabelos castanhos ondulados, vestindo camisa azul-marinho e saia de franjas bege, posa com expressão séria contra fundo azul
“Eu tinha essa coisa de imitar as personagens dos filmes que eu gostava. Já era uma artista querendo desabrochar. Mas eu não compreendia isso” (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Quem compreendeu primeiro foi o pai da paraibana. Aos 16 anos, depois de obter uma ótima nota no Enem, entrou precocemente no curso de administração da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Quis o destino que a faculdade entrasse em greve e o pai a aconselhasse: “Isadora, por que você não faz um curso de cinema enquanto as aulas não voltam? Às vezes, você passa as tardes vendo filmes.”

Lá foi ela com a mãe, Rachel Cruz, para a cidade de São Paulo, fazer suas primeiras aulas de teatro. Em um mês, entendeu: largaria a graduação careta e trabalharia com arte. Doze anos depois, ela colecionaria, em pouco tempo, vários papéis de protagonista na rede Globo — o último deles é o da cantora Agrado Garcia, que brilha na atual novela das 7, Coração Acelerado.

Haja coincidência

Não veio do nada a ideia de se meter no meio artístico. Veio de uma experiência mágica em sua primeira peça — totalmente improvisada e amadora. A tarefa dada pela professora era: em 30 minutos, os alunos, divididos em grupos, precisariam montar uma cena, decorar as falas e interpretar os papéis. 

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Era pouco tempo, a turma era inexperiente. Isadora sabia que a missão era difícil. Mas ela soube se virar bem. Sugeriu ao grupo escrever cartas que simulavam trocas sobre saudade, amor e traumas entre um soldado, que estava na guerra, e sua esposa. Em vez de decorar falas, ela leu a correspondência, como se escrevesse na hora, enquanto os colegas interpretavam o que ela narrava.

A encenação acabou e a plateia permaneceu em silêncio, que só foi interrompido por aplausos efusivos quando as luzes se acenderam. “Foi um desses dias que marcam, mudou minha vida para sempre. Eu já tinha um encanto muito grande pelo cinema e pelo teatro, mas nunca tinha vivido isso na pele. Aquele foi o meu chamado”, diz.

Não sabia se seria atriz ou se exerceria outra função naquele meio, mas uma coisa era certa: não ficaria de fora da magia das artes cênicas. Ligou para os pais e avisou que abandonaria a faculdade — mesmo se fosse para vender ingresso nos cinemas.

“Eu queria estar naquela mágica para trabalhar no que fosse, fui contagiada por aquela magia.” Deixou a intuição guiá-la. E deu certo. As coincidências a ajudaram a iniciar aquele sonho — até com a ajuda de sonhos, no sentido literal, de terceiros. 

Mulher de cabelos castanhos, com expressão séria, vestindo um terno xadrez cinza, camisa branca e gravata preta desamarrada. Ela está de pé, com as mãos nos bolsos da calça, em um fundo cinza claro
“Me sinto muito grata por minhas personagens estarem alinhadas ao meu propósito, que é representar a força da mulher e a importância de buscar sua liberdade, sua voz” (Maria Magalhães/CLAUDIA)
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Ela e a mãe ainda estavam em São Paulo, quando uma das melhores amigas da mãe ligou para contar de um sonho. Era algo com Isadora e Marcella Bérgamo, com quem Rachel e a própria amiga sonhadora haviam estudado. “A Marcella foi para o Japão, trabalhar com modelos. Será que é para Isadora mandar uma foto para ela?”, questionou a amiga de Rachel, que nem sabia, até então, do interesse de Isadora em ser artista.

Marcella não estava no Japão, estava no Rio de Janeiro. E não agenciava mais modelos, trabalhava na Globo, com produção de elenco. Por sorte ou coincidência, naqueles dias, estava em São Paulo. 

Convidou mãe e filha para um café. Graças a ela, Isadora conseguiu um teste em Malhação. Não passou, mas também não desistiu. Foi para Paris estudar francês na conceituada universidade de Sorbonne e teatro na Cours Florent. 

Mulher de cabelo castanho curto, vestindo terno xadrez cinza e branco, camisa branca e gravata preta solta, olhando para a direita com expressão séria, ajustando a gravata com a mão esquerda e gesticulando com a direita
“Ser atriz é uma profissão perigosa para a saúde mental. Precisamos de terapia e inteligência emocional para saber quando ser profissional e quando ser simplesmente humana” (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Quando voltou ao Brasil, sete meses depois, Marcella a convidou para um teste da série Justiça, da Globoplay. Em uma das etapas de seleção, alguns candidatos participaram de um workshop no Projac. Numa dessas, ela trombou, nos corredores, com o autor Daniel Ortiz, que a convidou para os testes de Haja Coração

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Assim, aos 17 anos, Isadora Cruz conquistou seu primeiro papel — viveu Cris Miranda, uma personagem coadjuvante no enredo escrito por Ortiz. “Se eu não tivesse conhecido Marcella naquele dia, não sei se estaria aqui hoje. Foi um movimento muito místico, muito espiritual, de Deus, de sorte, de destino, de Universo”, acredita Isadora.

Mulher de cabelos castanhos, vestindo um longo vestido creme de crochê com franjas nos ombros e na barra, posa ao lado de uma mesa rústica de madeira com girassóis de tons escuros, sobre um fundo azul claro e chão cinza
Isadora Cruz descobriu a vocação para a atuação imitando personagens na infância (Maria Magalhães/CLAUDIA)

Guerreira da Paraíba

Interpretando Cris, uma paulistana, a atriz deixou de lado um pouco das suas raízes ao incorporar outro sotaque. E não quis repetir isso outra vez. Ela tinha duas opções: aceitar a proposta para viver a nova protagonista de Malhação, outra paulistana, ou se mudar para os Estados Unidos com os pais. Preferiu a segunda alternativa.

Depois de passar dois anos e meio na Cidade Maravilhosa, gravar uma novela e conquistar um diploma na renomada Casa das Artes das Laranjeiras, deixou o Brasil. 

Mas não deixou as artes. No exterior, cursou por dois anos e meio Teatro e Psicologia, na Universidade de Miami. Participou de duas peças, e de longas-metragem de todos os gêneros — da comédia ao terror. 

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Foi Candoca, protagonista de Mar do Sertão, quem puxou Isadora de volta para o Brasil. Com ela, a atriz pode dar destaque, em rede nacional, ao sotaque nordestino — historicamente pouco escutado nas telinhas ou mal interpretado por atrizes sudestinas. “Sei que as conquistas ultrapassam minha história individual e reverberam em muitas mulheres que cresceram como eu, sem se ver em lugares de destaque.”

Com Candoca também viveu o dia mais feliz da personagem, o casamento com Zé Paulino, seu par romântico. E um dos mais tristes de sua história pessoal — soube da morte do então sogro, pai de um ex-namorado, logo depois de terminar a maquiagem, quase pronta para gravar.

“O corpo não entende que as emoções que você vive interpretando não são reais. Mas, para desligar isso, você também aprende a compartimentalizar sentimentos, a se distanciar deles”, conta.

“É uma profissão perigosa para a saúde mental. Precisamos de terapia e inteligência emocional para fazer escolhas de quando ser profissional, e quando ser simplesmente humana, de ser falha, se dar o direito de sofrer, de passar por um luto. É um jogo de xadrez que a gente faz.”

Mulher de cabelos castanhos claros, com blusa listrada marrom e branca sobre um espartilho bege, olhando para a direita com expressão séria
Descubra a jornada de Isadora Cruz: da paixão infantil pela atuação ao estrelato na Globo (Maria Magalhães/CLAUDIA)
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Coração feminista

Isadora nunca mais parou. Interpretou ainda outras duas protagonistas: Rosa, em Guerreiros do Sol, e Agrado, sua atual personagem, em Coração Acelerado. Entre as duas, também representou Roxelle, uma antagonista cômica em Volta por Cima. Rosa é a mais forte entre todas elas — foi inspirada em Maria Bonita, esposa de Lampião e primeira mulher a ser cangaceira —, mas a atriz se orgulha genuinamente de cada trabalho. 

“Me sinto muito grata por todas essas personagens estarem alinhadas ao meu propósito, que é representar a força da mulher, a importância de buscarem sua liberdade, sua voz, de se despirem dos seus medos e encontrarem suas coragens”, diz.

“Uso meus papéis como ferramenta para o autoconhecimento, para gerar questionamentos nos espectadores que levem a uma evolução pessoal, espiritual e emocional.”

Não há desejo mais forte para ela do que espalhar um antídoto para derrubar a lógica que ainda tenta aprisionar as mulheres, que desvia a atenção delas para futilidades e padrões inalcançáveis.

“Em vez de buscar a nossa potência e força como mulher, de pensar como melhorar o mundo, estamos preocupadas com quantos quilos vamos emagrecer. Como foram os homens que criaram essas regras, essas armadilhas não existem para eles”, defende. 

É como resgatar a mania de limpeza de Ray — a personagem que, ainda criança, Isadora encarnava em silêncio. Mas agora, aos 28 anos, com outro sentido: como se aquele pano embebido em álcool pudesse limpar as inseguranças plantadas por séculos no imaginário feminino.

“Eu vejo mulheres incríveis que têm medo de falar o que pensam, de dar uma opinião num jantar por medo de julgamento. Isso acontece muito com amigas minhas”, conta, com um misto de incômodo e urgência.

“A jornada de evolução começa quando você se desprende dos medos. É no enfrentamento deles que a gente constrói a liberdade. Por isso é importante ouvir o coração, seguir sua intuição. Essa é a minha religião: tentar ser o mais verdadeira e amorosa comigo mesma, para que isso transborde também para o outro.” 

Foto Maria Magalhães
Edição de Moda: Bruno Pimentel
Beleza Carla Biriba
Set Design Vitor Roque
Edição de arte Laís Brevilheri
Retouch: Leonardo Miguel
Assistente de foto Felippe Costa  e Daniel Galdino
Produção de moda: Aline Livra e Juny Martins
Camarim: Salvadora Nascimento
Assistente Set design Victor Toledo
Edição: Karin Hueck
Direção: Helena Galante
Locação: Studio Cais 

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