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Novidades e reflexões sobre k-dramas, k-pop, k-beauty e a onda coreana como um todo! Pela jornalista Ingrid Luisa.

Arirang é o álbum mais corajoso do BTS, mostra documentário da Netflix

Refletir sobre a carreira do grupo é a forma mais clara de entender o novo lançamento, mais uma vez reafirmando a relevância cultural desse ato de k-pop

Por Ingrid Luisa 27 mar 2026, 15h46 •
_Arirang é o álbum mais corajoso do BTS, mostra documentário da Netflix
Mais do que um comeback, Arirang é um ponto de virada: o BTS troca o conforto do pop global por um mergulho profundo na própria identidade (Divulgação/Divulgação)
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  • “Nós realmente fomos além com este álbum [Arirang], fizemos experimentos para tentar algo novo e evoluir”, comenta Kim Tae-hyung, o V, enquanto ele e os outros integrantes do grupo BTS jantam juntos em Los Angeles. 

    “O BTS está diferente, é isso que eu quero ouvir”, crava Jimin.

    Realmente, não importa se você conheceu o grupo com “No More Dream”, lá em 2013, ou só caiu no fenômeno com “Dynamite”, em 2020: Arirang foge de tudo que eles já lançaram na carreira.

    “Swim”, o single principal após quatro anos de hiato, está a quilômetros de distância de sucessos em inglês como “Butter” ou “Permission to Dance”. Aqui, o BTS se afasta do pop alegre e dançante que os consolidou como o maior grupo do mundo e mergulha em algo mais denso e significativo. 

    O documentário BTS: O Reencontro (BTS: The Return), lançado pela Netflix em 27 de março de 2026, escancara os bastidores dessa virada. O que se vê é um processo criativo intenso, exaustivo, marcado por dúvidas, conflitos e decisões arriscadas. 

    Mas, para entender de onde Arirang vem (e, principalmente, para onde ele aponta), é preciso voltar alguns passos e revisitar os 12 anos de trajetória do BTS.

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    Da revolta adolescente ao mapa da alma

    Lá em 2013, quando o BTS debutou, o mundo era outro, e o k-pop também. Fortemente ancorado nas referências do hip-hop americano, o grupo surgiu a partir da visão de Kim Namjoon, auto-intitulado Rap Monster. Foi ele quem imprimiu, desde o início, um tom provocador e reflexivo pro grupo, que começou a moldar uma nova era dentro da indústria sul-coreana.

    Ao longo de toda a trajetória, RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook, os “garotos à prova de balas” (Bangtan Sonyeondan, significado de BTS em coreano), fizeram da mensagem o eixo central de sua música. Desde o início, priorizaram o que queriam dizer, antes mesmo de como seria recebido.

    Parte disso se explica pelo contexto em que surgiram: longe das grandes agências, encontraram em uma empresa menor (a Big Hit Entertainment) o espaço necessário para experimentar, criar e também questionar. Essa liberdade moldou não só a identidade artística do grupo, mas também a forma como dialogam com o mundo.

    Não por acaso, a carreira do BTS se organiza de maneira quase didática em eras: capítulos bem definidos, com narrativas, estéticas e temas próprios, que revelam uma evolução contínua, tanto musical quanto conceitual.

    Isso já se mostra com nitidez na estreia do grupo, no que mais tarde seria reconhecido como a Trilogia Escolar. Entre 2013 e 2014, eles lançaram os mini-álbuns 2 Cool 4 SkoolO!RUL8,2? e Skool Luv Affair, confrontando o conservadorismo da sociedade coreana.

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    As faixas orbitam temas urgentes para aquela geração: a pressão por desempenho, o esvaziamento dos sonhos diante de um sistema educacional opressor e, também, as turbulências afetivas da adolescência. O BTS delineia sua identidade artística ao mesmo tempo em que espelha toda uma geração jovem, pressionada e em busca de sentido.

    Esse capítulo inicial se fecha com Dark & Wild (2014), o primeiro álbum completo do grupo, e também um ponto de virada emocional na narrativa que vinham construindo. Se antes havia um olhar voltado para as pressões externas, neste álbum o conflito se internaliza.

    O resultado é uma ampliação do discurso iniciado na Trilogia Escolar, mergulhando em frustração, confusão e na intensidade dos afetos. Na verdade, eles estavam preparando o terreno para as próximas eras, onde o grupo passaria a aprofundar, cada vez mais, suas camadas emocionais e conceituais.

    Ao longo dos anos, eles cantaram o aflorar da juventude (“o momento mais lindo da vida”), refletiram sobre as asas necessárias para ganhar o mundo e mergulharam nas contradições do amor próprio: suas potências, mas também suas fragilidades.

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    Há uma progressão dessas fases, que vão da urgência juvenil à busca por identidade, até chegar a um entendimento mais complexo de si.

    Ao longo dos anos, o BTS foi transformando não só o discurso, mas também o formato de suas músicas: o hip-hop inicial se suaviza, abre espaço para camadas mais melódicas, batidas mais pró eletrônico, coreografias intensas e a emoção passa a ocupar o centro da narrativa. 

    Com um som mais complexo e uma presença na América Latina e nos EUA desde a estreia, o BTS vai se consolidando como um dos principais responsáveis por expandir o k-pop globalmente.

    Esse movimento ganha um marco simbólico em 2017, quando o grupo sobe ao palco do American Music Awards para performar “DNA”. Foi a primeira vez que um ato de k-pop se apresentou na premiação. 

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    A partir dali, a escalada foi rápida: veio o Billboard Music Awards, em 2018, e, no ano seguinte, o primeiro Grammy, ainda como apresentadores. Em 2019, o BTS se tornou o primeiro grupo desde os Beatles a conquistar três álbuns número 1 na Billboard 200 em menos de um ano. 

    O recado era claro: não bastava ocupar espaços nas grandes premiações como coadjuvante. Eles queriam performar, concorrer a prêmios e se estabelecer no panteão global da música de vez.

    Para isso, o grupo planejou o projeto mais ambicioso da carreira: Map of the Soul: 7.

    Lançado em 2020, esse é um álbum carregado de simbolismos. O número 7, além de marcar os sete anos de trajetória até então, reforça a força da história construída pelos sete integrantes, juntos — uma coletividade que se mantém como espinha dorsal do grupo.

    Inspirado na psicologia analítica de Carl Jung, o disco se propõe a mapear o eu em suas múltiplas camadas: persona, sombra, ego. É um trabalho sobre autoconhecimento, confronto interno e aceitação, inclusive das partes mais incômodas e sombrias.

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    Não por acaso, o ótimo single “Black Swan” inaugura essa era. A faixa mergulha no medo da perda da paixão pela arte, enquanto contrapõe luz e escuridão em uma performance que mistura dança contemporânea e instrumentação clássica, traduzindo, em corpo e som, o conflito central que atravessa todo o projeto.

    O álbum foi um sucesso estrondoso, e a turnê mundial prometia ser a maior já realizada por um artista sul-coreano. Havia ali uma sensação de ápice, como se todo o esforço, enfim, fosse recompensado.

    Mas, então, um vírus parou o mundo.

    A pandemia de COVID-19 interrompeu planos logísticos, frustrou expectativas e impossibilitou o contato do grupo com seus tão leais fãs, chamados de ARMY. Para aqueles sete jovens coreanos, que vinham construindo uma trajetória ascendente e cuidadosamente planejada, foi como assistir ao desmoronamento de um sonho no exato momento em que ele ia se concretizar.

    Do fenômeno em inglês à falta de sentido

    O sofrimento foi coletivo na pandemia, fato. Mas o que se viu em 2020, com todo mundo em casa, foram fenômenos que ganharam proporções quase irreais: explosões de audiência, hits globais instantâneos, uma urgência por entretenimento que ajudasse a atravessar o isolamento.

    Isso aconteceu aqui no Brasil com o Big Brother, que, depois de anos mornos, viveu um auge histórico ao reinventar seu formato. 

    E, no mundo, a trilha sonora daquele período parecia inevitável: ou você estava ao som de “Don’t Start Now” (“tamborzim, tamborzim”), de Dua Lipa, ou já tinha sido capturado por “Dynamite”.

    Em agosto de 2020, ainda sob o impacto da interrupção abrupta da era anterior, o BTS decidiu fazer algo que até então parecia improvável dentro da lógica do grupo: lançar um single único, totalmente em inglês, colorido, leve e, acima de tudo, descompromissado. 

    Não havia um conceito denso, uma narrativa ou uma mensagem oculta. Era, simplesmente, uma música pra cima com uma coreografia legal, como se fosse um respiro coletivo, um lembrete de que ainda estávamos vivos.

    Bom, o mundo amou. “Dynamite” teve a maior estreia da história do YouTube até então, ultrapassando 3 milhões de espectadores simultâneos e somando mais de 101 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas. No Billboard Hot 100, fez história ao alcançar o topo (e se manter lá por 3 semanas), consolidando um feito inédito para um grupo sul-coreano. 

    Não deu outra: o que era um experimento virou fórmula. Em maio de 2021, veio “Butter”, novamente em inglês, igualmente dançante e direta — outro sucesso massivo. 

    Na sequência, “Permission to Dance” fechou a trilogia pandêmica com uma mensagem literal: seguir em frente, mesmo após tantas perdas. Uma faixa que, inevitavelmente, carrega o cheiro de álcool em gel e uma dura memória coletiva.

    Depois de incontáveis performances, versões e recordes, o BTS atingiu o ápice comercial global. Mas havia uma tensão silenciosa por trás disso.

    Em junho de 2022, o single “Yet To Come” chegou diferente. Contida e introspectiva, a música era uma despedida antes do alistamento militar obrigatório dos membros.

    Havia uma crise ali. E na live do grupo, RM foi direto: depois da pandemia e do sucesso estrondoso com singles em inglês que fugiam do eixo conceitual que sempre guiou o grupo, ele já não sabia mais qual mensagem o BTS deveria transmitir. 

    Foi a primeira vez que a falta de sentido assolou o grupo. Era hora de parar. Dar um passo atrás para, enfim, se reencontrar. Musicalmente, conceitualmente, sem a urgência de provar nada para ninguém. 

    A revolução ARIRANG 

    Se os ARMYs me permitem a analogia, talvez a forma mais fácil de entender Arirang seja olhando para fora do k-pop: ele é, em essência, o Tranquility Base Hotel & Casino do BTS.

    Explico: depois do estrondoso sucesso do álbum AM, que acumulou hits como “Do I Wanna Know” e “Why’d You Only Call Me When You’re High?”, o Arctic Monkeys deu uma guinada radical: abandonou o som comercial e entregou um álbum denso, autoral, quase desconcertante à primeira escuta. Um trabalho que, no início, pode soar estranho, grande demais, até deslocado. Mas que, com o tempo, se revela como arte. 

    Com o BTS, o movimento é semelhante.

    Arirang nasce desse impulso de ruptura. Depois de atingir o topo global com hits acessíveis e diretos, o grupo escolhe olhar para dentro e experimentar. 

    Mas não foi fácil: no documentário da Netflix que acompanha o processo criativo do álbum, há um momento revelador, com os integrantes questionando os produtores sobre o excesso de trechos em inglês nas músicas. 

    Para eles, com razão, cantar em coreano confere mais autenticidade e identidade para o grupo. 

    O conceito central do álbum também não veio pronto, exigindo uma construção conjunta. Foi uma produtora da HYBE quem apontou um caminho simbólico: a canção folclórica Arirang.

    Mais do que uma referência, a escolha carrega um peso histórico. Considerada um dos maiores patrimônios culturais da Coreia, a Arirang original fala sobre a tristeza da saudade. Os coreanos cantavam essa música para superar a perda. E, ainda no século XIX, ela foi uma das primeiras músicas do país a ser registrada fora de seu território, sendo gravada por sete coreanos nos Estados Unidos em 1896.

    Resgatar esse símbolo, 130 anos depois, seria uma forma grandiosa de voltar.

    Se antes o BTS levou o k-pop ao mundo, aqui o movimento se expande: é a cultura coreana, a forma mais pura, sendo reinterpretada e projetada novamente por sete artistas. Agora, eles entendem exatamente o alcance da própria voz.

     

    Inclusive, um dos maiores pontos de tensão do documentário é justamente a discussão sobre quanto da Arirang tradicional deveria estar presente em “Body to Body”, faixa que abre o álbum. Há ali um embate que envolve medo, estereótipo, tradição e reinvenção:  até onde ir sem soar caricato? E, ao mesmo tempo, até onde recuar sem perder a essência?

    RM comenta, com ironia, que todos os membros ficaram “metidos”, o que torna os consensos bem mais difíceis. Por incrível que pareça, somos obrigadas a agradecer a Bang Si-hyuk (o polêmico “Bang PD”) pela versão mais extensa. Foi a palavra dele que deu o peso final ao consenso. 

    Mas a voz do líder RM também protagoniza um dos momentos mais fofos do documentário: quando ele compartilha com os outros membros o fascínio que sentiu ao ouvir, pela primeira vez, músicas tradicionais brasileiras (!!!) e africanas. O mundo inteiro poderia, sim, da mesma forma, encantar-se pela música tradicional coreana.

    No fim, a decisão pende para o lado mais ousado: a versão mais longa. E é justamente essa escolha que ancora o disco no lugar certo: entre o passado e o futuro, sem ter vergonha ou pedir licença para existir.

    Dividido em dois momentos bem definidos, Arirang se organiza a partir de um símbolo poderoso: o som do Sino Sagrado do Rei Seongdeok, que ecoa na faixa interlúdio “No. 29”. O nome não é por acaso: a relíquia é classificada como o Tesouro Nacional nº 29 da Coreia do Sul, funcionando aqui como um portal entre as duas metades do disco. 

    Musicalmente, o álbum mergulha no hip-hop, mas de uma forma mais segura e consciente do que no início da carreira do grupo. As batidas são mais sofisticadas, os flows mais livres, e eles assumem riscos sem perder coesão.

    Nesse cenário, além de “Body to Body”, duas faixas se destacam quase imediatamente: “Hooligang” e “Aliens”. A primeira carrega uma energia crua, irônica, resgatando o espírito contestador que marcou os primeiros anos do BTS, mas com uma flexibilidade e maturidade mais evidente. Já “Aliens” traduz o antigo deslocamento e a atual estranheza de existir em um mundo em que todo mundo sabe o que o K é. 

    Sobre a segunda metade, é legal ver bastidores da composição de “Normal” no documentário, resultando numa das canções mais pessoais do álbum.“One More Night”, por sua vez, resgata um pouco do que o BTS fazia, mas de um jeito novo e envolvente.

    Minhas únicas ressalvas com o álbum são duas: a primeira é sobre o uso excessivo de efeitos vocais em algumas faixas, o que acaba minando a potência natural das vozes do grupo. Em “Into the Sun”, isso fica claro: um início à capela, sustentado apenas pelos timbres dos integrantes, teria potencial para elevar uma música já linda a outro nível.

    A segunda é afetiva. Em um álbum que marca retorno e reencontro, senti falta de uma faixa mais leve, declaradamente dedicada aos fãs, algo na linha de “2!3!…”. Entendo que isso poderia fugir do eixo conceitual denso que os meninos escolheram seguir, mesmo assim, fica a vontade de um respiro, um abraço no meio de tanta intensidade. 

    No fundo (do oceano), a verdade é que Arirang não quer aliviar para nós, fãs, quer nos atravessar. E talvez seja esse seu maior trunfo. Como é bom ter o BTS de volta. Que continuemos sendo surpreendidos por todas as suas versões — e, claro, siga nadando junto.

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