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Ana Claudia Paixão

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A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

Por que Diane Warren, autora de hits históricos, não vence o Oscar?

Com 17 indicações e nenhum Oscar competitivo, Diane Warren se tornou a rainha da persistência em Hollywood

Por Ana Claudia Paixão
15 mar 2026, 11h00 • Atualizado em 15 mar 2026, 23h13
A compositora aparece segurando uma grande réplica da estatueta do Oscar durante um evento relacionado à premiação. O momento transmite um tom simbólico, já que Warren é uma das compositoras mais indicadas da história da categoria de Melhor Canção Original.
Diane Warren na 96ª edição do Oscar, em 2024 (Jason Armond / Colaborador/Getty Images)
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  • Na história recente do Oscar, é mais comum olhar para as categorias “principais” e apontar, de forma um tanto desconfortável, para quem “nunca” ganha. Martin Scorsese ocupou essa cadeira por décadas, acumulando cinco derrotas como diretor antes de finalmente vencer. 

    Al Pacino também esperou bastante, foram oito indicações antes de conquistar sua primeira estatueta. Nem se fala de Leonardo DiCaprio: com quatro derrotas consecutivas, virou piada carinhosa e fonte inesgotável de memes enquanto aguardava o seu primeiro Oscar.

    A lendária Meryl Streep pode ter três estatuetas em casa, mas ela mesma já ironizou a própria trajetória ao lembrar que, de 21 indicações, perdeu 18 vezes. Ainda assim, ninguém, ninguém mesmo, supera a compositora Diane Warren.

    Muito antes de se tornar personagem recorrente dessa narrativa da espera, Warren já sabia exatamente o que queria. Ainda adolescente, por volta de 1964, ela olhou os créditos de Up on the Roof, dos Drifters, viu escrito “Goffin/King” e decidiu sua missão de vida. Queria estar ali. Não como estrela, mas como autora. Décadas depois, transformaria essa obsessão juvenil em um dos catálogos mais lucrativos e duradouros da música pop.

    A narrativa do “quase” Oscar

    Há algo de quase literário na trajetória dela dentro do Oscar. Não porque falte grandiosidade, repertório ou reconhecimento, mas porque a repetição da cena já virou narrativa.

    Lá está ela, ano após ano, indicada em Melhor Canção Original, celebrada pela indústria, respeitada pelos pares, fotografada sorrindo, e ainda assim retornando para casa sem a estatueta competitiva. Em 2026, a história ganha mais um capítulo que mistura ironia e persistência.

    Pobre Diane Warren, como brincam alguns comentários nas redes, vista na cerimônia da foto oficial do ano em pé, diretamente atrás de Inga Ibsdotter Lilleaas, atriz de Sentimental Value, compondo aquele cenário quase simbólico de quem sempre está por perto do prêmio, mas nunca exatamente com ele nas mãos.

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    A imagem circulou com um misto de carinho e incredulidade. Porque o número já é difícil de ignorar: dezessete indicações ao Oscar na categoria de Melhor Canção Original, nenhuma vitória competitiva.

    Diane Warren posa diante de um cenário decorado com flores rosas e silhuetas douradas da estatueta do Oscar. Vestindo um blazer preto com detalhes em vermelho e laranja que lembram chamas, a compositora sorri levemente para os fotógrafos.
    Diane Warren na 96ª edição do Oscar, em 2024 (Variety / Colaborador/Getty Images)

    A indicação deste ano é por Dear Me, do documentário Relentless, que não por acaso é um filme sobre a própria Diane Warren e sua longa e bem-sucedida carreira como compositora.

    Uma carreira que começou oficialmente a explodir com Rhythm of the Night, do DeBarge, em 1985, e que depois acumulou nove músicas no topo das paradas americanas. A ironia é tão evidente que quase parece roteirizada.

    Uma música escrita para um documentário que celebra sua própria trajetória, sua resistência, sua assinatura melódica inconfundível. Seria difícil imaginar um cenário mais propício para que a Academia finalmente resolvesse encerrar essa narrativa do quase. Em teoria, parecia o ano perfeito para o desfecho.

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    Entre tradição e fenômeno pop

    Mas o Oscar raramente se move apenas por coerência simbólica. Em 2026, tudo indica que o prêmio deve ir para Golden, o fenômeno pop de KPop Demon Hunters, uma dessas canções que ultrapassam o filme, dominam playlists, viralizam em múltiplos territórios e se transformam em evento cultural.

    A Academia, que há anos tenta equilibrar tradição e relevância contemporânea, pode ver em Golden uma forma de dialogar com uma geração global que consome música e cinema de maneira completamente integrada. Nesse contexto, Dear Me volta a ocupar o lugar que Diane Warren conhece tão bem: o da respeitada indicada que assiste à consagração de outra narrativa.

    Ainda assim, é preciso colocar a história em perspectiva mais ampla. Diane Warren não é apenas uma compositora que coleciona indicações. Ela é uma arquiteta emocional do pop das últimas quatro décadas.

    Seu catálogo atravessa rádios, trilhas sonoras, romances cinematográficos e despedidas radiofônicas com uma consistência impressionante. Ela escreveu Unbreak My Heart, imortalizada por Toni BraxtonI Don’t Want to Miss a Thing, que transformou o melodrama espacial de Armageddon em hino sentimental na voz do Aerosmith.

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    How Do I Live, que encontrou em LeAnn Rimes uma entrega quase épica, If I Could Turn Back Time, eternizada por Cher, e Because You Loved Me, que consolidou Celine Dion como a voz definitiva da balada noventista.

    Décadas de hits

    Ao longo do caminho, quase todas essas músicas enfrentaram resistência inicial. Cher odiava If I Could Turn Back Time antes de gravá-la. Toni Braxton não se entusiasmou de imediato com Un-Break My HeartClive Davis chegou a sugerir que a rima entre rain e pain fosse alterada por soar clichê. Warren insistiu. Funcionou.

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    Em How Do I Live, viu-se no meio de um impasse entre LeAnn Rimes e Trisha Yearwood, pressionada por produtores e estúdios, até que a música se tornasse um dos maiores sucessos da década. Sua convicção na própria escrita sempre antecedeu a validação externa.

    Não estamos falando de sucessos pontuais, mas de canções que estruturaram imaginários afetivos inteiros. A assinatura de Diane Warren é reconhecível na construção melódica expansiva, no refrão que parece nascer para ser cantado de olhos fechados, na letra que trabalha emoções universais sem cinismo.

    Há algo de frontal em suas composições, uma recusa a ironizar o sentimento. Ela acredita no amor, na perda, na superação, na vulnerabilidade, e escreve como quem entende que o público também precisa acreditar.

    Registro de arquivo mostra a compositora Diane Warren ao lado de um acompanhante durante um evento de tapete vermelho. Ela aparece usando óculos escuros de lentes claras e um conjunto preto de couro, enquanto ambos sorriem para as câmeras. A cena tem o clima típico das estreias e premiações de Hollywood.
    Diane Warren em festa pré-Oscar em 2000 (Vinnie Zuffante/Getty Images)

    Financeiramente, não há qualquer tragédia em sua história. Os royalties dessas canções atravessam décadas, regravações, sincronizações em filmes, séries, comerciais e plataformas digitais. É difícil imaginar que alguém responsável por tantos clássicos pop viva algo diferente de uma vida confortável e consolidada.

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    O Oscar, nesse caso, não é questão de sobrevivência ou validação econômica. É símbolo, é narrativa, é aquele detalhe que transforma uma trajetória extraordinária em lenda absoluta.

    A eterna indicada ao Oscar

    Em 2022, a Academia tentou resolver parte da equação concedendo a ela um Oscar honorário, reconhecendo sua contribuição monumental à música e ao cinema. Foi um gesto importante, mas que não altera o dado central: competitivamente, Diane Warren continua sem vitória. E é justamente isso que mantém a curiosidade viva a cada nova temporada.

    A pergunta não é apenas se ela merece. É quando a Academia decidirá que essa história precisa de outro final.

    Talvez 2026 não seja diferente. Talvez Golden confirme as previsões e Diane volte a sorrir para as câmeras com a elegância de quem já entendeu o jogo. Mas há algo que nenhum resultado altera: o fato de que, com ou sem estatueta competitiva, poucas compositoras moldaram tanto o som emocional do cinema e do pop quanto ela. 

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