Quartos separados, casas diferentes: os casais que vivem fora do padrão
Relatos de casais que adotam arranjos fora do padrão, como quartos ou casas separadas, mostram como autonomia pode redefinir a convivência afetiva
Dormir em quartos separados, manter casas diferentes ou até viajar sozinho mesmo estando em um relacionamento são arranjos cada vez mais comuns. Quem vive experiências desse tipo, embora muitas vezes enfrente julgamentos, defende que dinâmicas para além do modelo convencional podem beneficiar tanto o relacionamento quanto o desenvolvimento pessoal.
A seguir, pessoas que experimentam formatos diferentes contam como esses arranjos funcionam na prática.
Quartos e banheiros separados
A terapeuta tântrica Dri Linares propôs dormir em quartos separados ao companheiro quando eles decidiram morar juntos. “Como morávamos sozinhos, já tínhamos o nosso jeito de dormir, com hábitos noturnos muito diferentes. Ele dorme vendo TV e ronca, enquanto eu faço higiene do sono, leio na cama e mantenho tudo silencioso e escuro. Então toda vez que íamos deitar juntos, eu não dormia”, diz ela.
Sabendo disso, Dri colocou como condição que cada um tivesse seu próprio quarto e banheiro. “O maior benefício em ter quartos e banheiros separados é o respeito ao espaço e à individualidade. Não precisamos abrir mão de hábitos adquiridos anteriormente.” Muitas pessoas se questionam se isso afetaria negativamente a conexão do casal, mas Dri acredita justamente no contrário.
“Quando perguntam ‘como vocês namoram?’, eu respondo que não necessariamente casais que dormem juntos tem uma vida íntima tórrida. Sem dúvida dormir em quartos separados é um dos segredos para um relacionamento feliz e duradouro”, afirma ela.
Casas separadas e guarda compartilhada do cachorro
Quando Maria Rafart conheceu seu companheiro, Renato, os dois já estavam na vida adulta. Ele era solteiro e morava perto da academia da qual é proprietário. Ela, divorciada, trabalhava como psicóloga, atendendo tanto online quanto em um consultório próximo ao seu apartamento, e tinha uma filha estudando fora do Brasil. “Desde o começo, nós dois deixamos claro que gostávamos muito dos lugares onde morávamos”, conta.
Por isso, morar juntos nunca se tornou um plano. “Ter um espaço só seu é maravilhoso. A gente se inclui na vida um do outro, mas cada um mantém sua organização durante a semana”, diz.
No início do relacionamento, ambos tinham cachorros diferentes. Com a morte dos dois animais, o casal decidiu, juntos, ter um novo cão, que hoje fica mais sob os cuidados dela. “Também falamos todos os dias por telefone, passamos os fins de semana juntos e sempre viajamos.”
Maria reconhece, porém, que o arranjo exige algumas condições práticas para dar certo. “Para esse tipo de acordo funcionar, é preciso ter uma situação financeira bem resolvida, porque ambos precisam conseguir manter suas próprias casas”, diz.
“Mas, tirando isso, é uma vantagem atrás da outra. Não significa não querer estar junto, é ter a liberdade de, por exemplo, simplesmente dormir no horário que quiser porque está com sono.”
Muitas pessoas acreditam que esse formato de relacionamento é menos profundo, mas ela discorda. “Esse modelo funciona para casais maduros e com muita confiança. Pessoas desconfiadas ou inseguras não vão se beneficiar desse arranjo. Eu confio nele e ele confia em mim, não existe necessidade de vigilância. Vejo muitos casais que resolvem morar juntos justamente por insegurança, por não confiar que o outro não vá trair.”
Viagens sozinha
Criada em um ambiente que valorizava independência, a psicóloga Laura Hueb sempre enxergou autonomia como algo natural dentro de um relacionamento. “Para mim, era normal entender que viajar sozinha faria parte da minha vida e também de uma relação”, afirma.
Por outro lado, o parceiro veio de um contexto mais tradicional e inicialmente estranhou a dinâmica. “Isso mostra muito a importância do meio e das referências. Ele não conhecia relacionamentos assim”, diz. O entendimento foi construído aos poucos, através do diálogo.
“Com muita conversa e entendendo as prioridades do outro, ele passou a compreender que a viagem é uma parte importante de quem eu sou. Hoje é algo muito tranquilo, mas foi uma construção.”
Um gesto recente do companheiro simbolizou essa compreensão. “Ele me deu de presente as passagens para eu realizar, sozinha, uma viagem que sempre sonhei. Esse gesto me fez vê-lo ainda mais como alguém que torce por mim e pensa em mim.”
Viajar sozinha também funciona como um exercício de identidade para ela. “São nesses momentos que lembro que não ‘sou’ o meu relacionamento. Ele é uma parte importante da minha vida, mas existe muito mais”, diz. “Quando cultivo meus interesses genuínos e meu namorado os dele, nos tornamos duas pessoas inteiras dentro da relação.”
Foi dessa percepção que nasceu, ao lado de outra psicóloga, o projeto Entre Mundos, que organiza expedições de viagem e autoconhecimento voltadas para mulheres. “A partir dessas experiências, de entrar em contato com outras culturas, enxergamos novas maneiras de viver a vida e, consequentemente, de habitarmos o mundo.”
Casas separadas
Manuela e Guilherme Miziara estão casados há 18 anos e mantêm a dinâmica de viver em casas diferentes. “Grande parte das brigas que vejo em casais acontece por causa da convivência diária, das pequenas coisas da rotina. Como não dividimos a mesma casa, esses atritos praticamente não existem”, afirma.
Para Manuela, a distância cotidiana cria também um elemento de saudade que ajuda a manter o vínculo. “A gente sente falta um do outro, e isso é uma delícia, não cai na rotina.” Segundo Manuela, o arranjo também tem impactos positivos na vida íntima do casal. “Ajuda muito na libido. Mesmo depois de tantos anos juntos, temos uma vida sexual muito boa”, conta.
O modelo costuma despertar desconfiança de quem observa de fora, principalmente nas redes sociais. “Tem quem diga que escolhemos só o lado fácil do casamento. E, se for isso mesmo, qual é o problema?”, questiona. “Se os dois estão felizes, não vejo motivo para seguir um modelo que não faz sentido para nós.”
O relacionamento começou quando ela tinha 17 anos, período em que os dois chegaram a viver em cidades diferentes por causa dos estudos e do trabalho. “Desde cedo tivemos que construir confiança e respeito. Nosso relacionamento é monogâmico e nunca tivemos problemas de traição”, diz.
O único ponto negativo, segundo Manuela, é o custo financeiro de manter duas casas. Ainda assim, o impacto é pequeno, porque ambos já viviam de forma independente antes do casamento. “Cada um paga suas próprias contas. Às vezes um ajuda o outro em uma viagem ou em alguma despesa, mas, no geral, as vidas financeiras são separadas.”
Recentemente, os dois passaram 40 dias viajando e trabalhando juntos no exterior, experiência que mostrou que a convivência prolongada também pode funcionar. Ainda assim, ela admite ter sentido falta do próprio espaço ao voltar para casa. “Eu gosto do meu canto, da minha rotina, do meu tempo.”
Para Manuela, esse tempo individual é algo que muitos casais sentem falta, mesmo sem perceber. “Vejo amigos dizendo que queriam só um momento para si, para ler um livro, assistir a uma série, ficar em silêncio. Às vezes isso desaparece quando duas pessoas dividem a mesma rotina o tempo todo.”
10 séries que combinam com cobertor, romance e Dia dos Namorados
Assine a newsletter de CLAUDIA
Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters:
Acompanhe o nosso WhatsApp
Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp.
Acesse as notícias através de nosso app
Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.







