As atrizes que transformaram vestidos em história do cinema
Ao longo das décadas, moda e cinema passaram da mera amizade entre costureiros e estrelas para chegar aos curtas-metragens
Em tempos de premiações de cinema, estamos acostumados a ver looks glamourosos atravessando o tapete vermelho — alguns vindos diretamente das passarelas, outros saídos dos ateliês sob medida (ou da alta-costura) das marcas.
Embora hoje seja menos comum o envolvimento direto de estilistas na criação de figurinos exclusivos para um longa metragem — ainda que muitas celebridades sejam embaixadoras das maisons —, os laços entre moda e a sétima arte sempre foram frutíferos.
A ponto de estrelas, muitas vezes protagonistas, tornarem-se amigas pessoais de criadores. É o caso de nomes como Hubert de Givenchy e Audrey Hepburn, ou de Yves Saint Laurent e sua musa francesa, Catherine Deneuve.
No caso de Christian Dior e Marlene Dietrich, a relação — que começou tensa — resultou na frase célebre “No Dior, no Dietrich” (“Sem Dior, sem Dietrich”), quando a atriz exigiu usar criações do costureiro em seu papel de Charlotte Inwood em Stage Fright, lançado em 1950, com direção de Alfred Hitchcock. E razão não lhe faltava.
Décadas depois, iniciativas criativas como o projeto Women’s Tales, da Miu Miu, mostram que esse diálogo pode se reinventar — agora sob o olhar autoral de cineastas convidadas a traduzir o universo da marca em linguagem cinematográfica.
Marlene Dietrich
Foi após o lançamento revolucionário do New Look, em 1947, que Marlene Dietrich passou a esperar que não precisasse mais usar vestidos florais inocentes e românticos — nada disso correspondia à sua força e estilo. Ela buscava uma elegância autoritária, quase masculina, temperada com uma boa dose de drama.
Monsieur Dior, por sua vez, estava acostumado à contemplação da sua própria arte e não previa ajustes solicitados pelas estrelas. Para atender aos pedidos da atriz, o estilista precisou abrir mão de alguns de seus cortes tradicionais e aceitar mudanças que preservassem o dramatismo teatral de Dietrich no filme Stage Fright. Antes disso, ela testou cada vestido sob luzes e gestos de cena, para entender o que funcionava ou não.
Apesar da batalha de egos e da preservação de suas próprias vozes, dessa parceria surgiram vestidos icônicos que equilibravam o glamour da maison com a personalidade dramática da atriz, consolidando uma fidelidade de Dietrich à etiqueta que perduraria mesmo após a morte do costureiro, em 1957.
Audrey Hepburn
Talvez a mais famosa relação entre estilista e atriz seja a de Audrey Hepburn com Hubert de Givenchy. Ainda que o icônico vestido da personagem Holly Golightly em frente à vitrine da Tiffany, em Bonequinha de Luxo, de 1961, seja o mais célebre, aquele pretinho básico de cetim não foi o primeiro usado pela atriz em seus filmes.
Pouco antes de iniciar as filmagens de Sabrina, lançado em 1954, um amigo sugeriu que Hepburn visitasse o ateliê do estilista. A partir desse encontro, a atriz e Givenchy tornaram-se inseparáveis — embora ela permanecesse sempre aberta a usar outras grifes.
Em A Charada, de 1963, sua personagem, uma femme fatale que combinava mistério e modernidade, teve figurinos criados por Givenchy que iam dos visuais pós-ski (com óculos grandes) a casacos estruturados, saias na altura do joelho e peças de alfaiataria ajustadas, com forte exploração de cores vibrantes, como vermelho e amarelo, estampas diversas (incluindo animal print) e acessórios como luvas e chapéus.
a divulgação do filme
“Cinderela em Paris”, em 1957 (Reprodução/Getty Images)
Nos longas seguintes, o costureiro permaneceu traduzindo sua sofisticação para a necessidade de cada papel de Hepburn, seja nos vestidos de gala da florista Eliza Doolittle em My Fair Lady (1964), seja nas versões de vestuário urbano para Como Roubar Um Milhão de Dólares, de 1966.
No ano seguinte, para o suspense Um Clarão nas Trevas, o guarda-roupa foi mais funcional, sem perder a elegância inerente à estética do estilista, com vestidos retos, blusas de corte limpo e uma cartela de cores que variava entre os neutros — cinza, preto, branco e bege.
Mesmo mais discreto, o visual mantinha o acabamento impecável e o corte preciso de um dos mestres da alta-costura.
Catherine Deneuve
A presença de Catherine Deneuve na fila A dos desfiles da Saint Laurent não é mero acaso ou amizade recente com Anthony Vaccarello, atual diretor criativo da maison.
Reconhecida como uma das maiores musas de Yves Saint Laurent, sua relação com o estilista teve início em meados de 1960.
O momento mais emblemático ocorreu em Belle de Jour, de 1967, quando o guarda-roupa de sua personagem, Séverine Serizy, refletia a estética minimalista: silhuetas limpas, discretamente sensuais, e uma paleta de cores suave, que se tornaria referência do estilo refinado da atriz e do próprio estilista.
Contos de mulheres
Foi em 2011 que Miuccia Prada, então diretora criativa da Prada e fundadora da Miu Miu, decidiu que suas coleções poderiam ganhar espaço no cinema através do olhar de Cineastas mulheres. Desde então, a cada seis meses, um curta-metragem do Women’s Tales é apresentado, com figurinos que dialogam com a narrativa — a roupa não conduz a história, mas a acompanha e contrapõe.
As peças da etiqueta tornam-se personagens por si só, e cada conto cria um mundo próprio, belo e relevante, habitado pela imaginação singular de mulheres de diferentes continentes e gerações.
No episódio 31, a diretora Mona Fastvold apresenta Discipline, ambientado em um nebuloso internato no norte da Itália. O prédio parece desabitado: janelas fechadas, frio e bonecas em tamanho real manipuladas por figuras mascaradas de branco.
Duplas semelhantes percorrem o dormitório, acompanhando o dia — do recreio à sopa do almoço, até a inspeção da diretora. A narrativa culmina em uma cena de ruptura, êxtase e transformação libertadora, com um look direto da passarela de Verão 2026. No fim, uma jovem interpretada por Amanda Seyfried surge vestida de rosa.
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